 SARA SHEPARD
                         TRADUO                                FAL AZEVEDO
                   ROCCO
                                            JOVENS LEITORES
Para Colleen, Kristen Greg, Ryan e Brian
Ttulo original
WICKED
A PRETTY LITTLE LIARS NOVEL
Copyright (c) 2009 by Alloy Entertainment and Sara Shepard
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Printed in Brazil/Impresso no Brasil
CIP-Brasil Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
S553p     Shepard, Sara,  1977-
Perversas / Sara Shepard; traduo de Fal Azevedo. 
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011. 
(Pretty Little Liars; v.5) - Traduo de: Wicked: a pretty little liars novel
ISBN 978-85-7980-081-8
1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Fico policial americana.
3. Literatura infantojuvenil norte-americana. 
I. Azevedo, Fal, 1971-, II. Ttulo. III. Srie
11-3201                        CDU - 087.5                CDD - 028.5
O texto deste livro obedece s normas do
Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
O sol tambm brilha para os maldosos.
-  LUCIUS ANNAEUS SENECA
OS CURIOSOS DE PLANTO
QUEREM SABER...
No seria legal se a gente pudesse saber exatamente o que as pessoas esto pensando? Se a cabea de todo mundo fosse como aquelas bolsas transparentes Marc Jacobs,
as opinies das pessoas fossem to visveis quanto um molho de chaves de carro ou um gloss da Hard Candy? Assim voc saberia o que o diretor do grupo de teatro da
escola realmente quis dizer com as palavras "Bom trabalho!" depois de sua audio para a pea South Pacific. Ou se o seu parceiro nas duplas mistas de tnis acha
que seu bumbum fica sexy naquela sainha Lacoste. E, melhor de tudo, voc no teria que adivinhar se sua melhor amiga ficou com raiva porque voc deu um perdido nela
para ficar com um veterano bonito que tinha um sorriso de arrasar coraes na festa de ano-novo. Bastava uma espiada dentro da cabea dela, e voc saberia.
        Infelizmente, a mente humana  mais blindada que o Pentgono. s vezes as pessoas do pistas do que est acontecendo em seu ntimo, por exemplo, o sorriso
do diretor do grupo de teatro quando voc perdeu aquele L sustenido agudo, ou como sua amiga ignorou com frieza todas as suas mensagens no dia primeiro de janeiro.
Porm, muito mais do que se imagina, a maioria dos sinais reveladores passa despercebida. Na verdade, quatro anos atrs, certo garoto de ouro de Rosewood deixou
escapar uma pista muito importante sobre algo horrvel que estava passando por sua cabecinha perversa. Mas as pessoas mal ergueram uma sobrancelha.
        Talvez se algum tivesse percebido, certa linda garota ainda estivesse viva.
O bicicletrio do lado de fora do colgio Rosewood Day transbordava bicicletas aro vinte e um coloridas, uma edio limitada Trek que o pai de Noel Kahn havia comprado 
direto do agente de publicidade de Lance Armstrong, e uma scooter Razor rosa-chiclete brilhava. Segundos depois que o ltimo sinal do dia ecoou e o sexto ano comeou 
a ocupar o ptio, uma garota de cabelo frisado saltou sobre o bicicletrio de um jeito estabanado, deu um pequeno tapa afetuoso na scooter e comeou a retirar a 
trava amarela brilhante Kryptonite em formato de "U" do guido.
        Um folheto preso ao muro de pedra chamou sua ateno.
        -  Meninas - gritou ela para as trs amigas que estavam perto dos bebedouros -, venham at aqui.
        -  O que  isto, Mona? - Phi Templeton estava ocupada desemaranhando a corda de seu novo ioi Duncan em formato de borboleta.
        Mona Vanderwaal apontou para o pedao de papel.
        - Olhem!
        Com um dedo, Chassey Bledsoe empurrou seus culos gatinho de cor lils de volta para o topo do nariz.
        -Uau!
        Jenna Cavanaugh roeu uma unha rosa-beb.
        - Isto  demais - disse ela com seu tom de voz doce e agudo.
        Uma brisa agitou algumas poucas folhas perdidas em uma pilha cuidadosamente feita por um ancinho. Eram meados de setembro, o novo ano escolar comeara havia 
poucas semanas, e o outono chegara oficialmente. Todos os anos, turistas da parte norte e sul da Costa Leste dirigiam at Rosewood, Pensilvnia, para ver a queda 
da folhagem com seus brilhantes tons de lils, amarelo, laranja e vermelho. Era como se algo no ar tornasse as folhas do lugar mais belas. Independentemente do que 
causasse esse efeito, isso embelezava toda Rosewood. Labradores de pelo brilhante corriam pelos bem conservados parques para ces da cidade. Bebs de bochechas rosadas 
eram cuidadosamente acomodados em seus carrinhos McLaren Burberry. E jogadores de futebol fortes e orgulhosos de Rosewood Day, o colgio particular mais respeitado 
da cidade, corriam para cima e para baixo pelos campos.
        Aria Montgomery observava Mona e as outras garotas de seu canto favorito na mureta de pedra da escola, com seu caderno de anotaes Moleskine aberto no colo. 
A aula de arte era a ltima daquele dia, e sua professora, a sra. Cross, deixou que vagasse pelos campos de Rosewood Day e desenhasse o que desejasse. A sra. Cross 
costumava dizer que deixava Aria fazer isso porque ela era uma artista muito talentosa. Mas Aria suspeitava que na verdade recebia essa autorizao porque sua presena 
deixava a professora desconfortvel. Afinal de contas, Aria era a nica garota da turma que no tagarelava com as amigas durante o Dia de Fotos e Slides, no flertava 
com os garotos enquanto eles estavam s voltas com pinturas a leo de natureza-morta. Aria desejava ter amigos tambm, mas isto no significava que a sra. Cross 
precisasse bani-la de sua sala de aula.
        Scott Chin, um garoto do sexto ano, como Aria, parou para ler o folheto.
        - Ei, que maneiro! - Ele se virou para sua amiga Hanna Marin, que mexia no bracelete de prata novinho em folha que o pai acabara de comprar para ela como 
presente de Desculpe-me filha, mame e eu estamos brigando outra vez. - Han, olha!
        Ele cutucou a costela de Hanna.
        - No faa isto! - exclamou Hanna, recuando.
        Mesmo tendo quase certeza de que Scott era gay - ele gostava de folhear as Teen Vogue de Hanna quase mais do que ela -, ela odiava quando ele tocava sua 
barriga nojenta e flcida. Ela olhou para o folheto, erguendo as sobrancelhas, surpresa.
        -Uau!
        Spencer Hastings estava caminhando com Kirsten Cullen, tagarelando sobre a Liga Juvenil de Hquei. Elas quase deram um esbarro com a idiota da Mona Vanderwaal, 
cuja scooter Razor bloqueava o caminho, e quando Spencer bateu os olhos no folheto, seu queixo caiu.
        - Amanh?
        Emily Fields no reparou no folheto, mas sua amiga mais chegada do time de natao da escola, Gemma Curran, deu uma olhada.
        - Em! - gritou ela, apontando para o papel.
        Os olhos de Emily danaram sobre o ttulo. Ela sentiu um calafrio de empolgao.
        Naquele instante, praticamente todos os alunos do sexto ano de Rosewood Day j estavam reunidos ao redor do bicicletrio, olhando com assombro para o pedao 
de papel. Aria desceu do muro e apertou os olhos para ler as letras garrafais.
        A Cpsula do Tempo comea amanh
        Prepare-se! Esta  a sua chance de ser imortalizado!
        O pedao de carvo para desenhar escorreu por entre os dedos de Aria. A preparao da Cpsula do Tempo era uma tradio na escola desde 1899, ano em que 
o Colgio Rosewood Day havia sido fundado. Somente os alunos a. partir do sexto ano podiam participar, e finalmente fazer parte do jogo era um rito de passagem to 
importante quanto uma garota comprar seu primeiro suti Victoria's Secret... Ou um garoto, hm... ficar empolgado com seu primeiro catlogo da Victoria's Secret.
        Todo mundo conhecia as regras da Cpsula do Tempo - elas foram passadas de geraes em geraes, resumidas em blogs no MySpace, e rabiscadas nas folhas de 
rosto dos livros da biblioteca. Todos os anos, os organizadores cortavam pedaos de uma bandeira de Rosewood Day e selecionavam estudantes mais velhos para escond-los 
em locais prximos ao terreno da escola. Enigmas que, quando resolvidos, continham pistas da localizao de cada um dos pedaos da bandeira eram afixados no hall 
de entrada da escola. Quem encontrasse um pedao da bandeira era homenageado em uma reunio com toda a escola reunida e podia decor-lo do jeito que quisesse. Todas 
as partes da bandeira eram reunidas, costuradas novamente, e enterradas em uma cpsula do tempo atrs do campo de futebol. No  preciso dizer que encontrar uma 
pea da bandeira da Cpsula do Tempo era uma coisa muito importante.
        -Voc vai participar? - perguntou Gemma a Emily, puxando at o queixo o zper de seu agasalho da equipe da Associao Crist de Moos de Main Line, um grupo 
dos subrbios esnobes da Filadlfia.
        - Eu acho que sim. - Emily soltou uma risada nervosa. -Mas voc acha que temos chance? Ouvi dizer que eles sempre escondem as pistas na rea do ensino mdio. 
Eu s estive l duas vezes.
        Hanna tambm estava pensando nisso. Ela no estivera na rea do ensino mdio nem uma vez sequer. Tudo que dizia respeito ao ensino mdio a intimidava, em 
especial as garotas que o frequentavam. Quando Hanna ia  Saks no Shopping King James com sua me, havia sempre um grupo de lderes de torcida em torno do balco 
de maquiagem. Hanna as observava, escondida atrs de uma arara de roupas, admirando como seus jeans de cs baixo ajustavam-se perfeitamente s suas cinturas, como 
o cabelo delas escorria liso e brilhante pelas costas e como a pele macia delas parecia seda e no tinha nenhuma mancha, mesmo quando no usavam base. Toda noite 
antes de dormir, Hanna rezava para que um dia acordasse transformada em uma linda lder de torcida de Rosewood, mas a cada manh era a mesma Hanna que a saudava 
no espelho em forma de corao, com seu cabelo castanho sem graa, a pele manchada e os braos gordos como salsiches.
        - Pelo menos voc conhece a Melissa - murmurou Kristen para Spencer, depois de ouvir sem querer o que Emily dissera. - Talvez ela seja uma das pessoas que 
esconderam um dos pedaos da bandeira.
        Spencer balanou a cabea.
        - Acho que no, seno eu j teria ouvido alguma coisa. 
        Esconder um pedao da bandeira era uma honra to grande quanto encontrar um, e a irm de Spencer, Melissa, estava sempre se gabando de suas muitas responsabilidades 
em Rosewood Day, especialmente quando sua famlia jogava Estrela do Dia, o jogo no qual eles se reuniam em volta da mesa para contar quais haviam sido suas realizaes 
mais sensacionais do dia.
        As macias portas duplas da escola foram abertas e o restante dos alunos do sexto ano saiu, inclusive um grupo que parecia ter sado de um catlogo da J. 
Crew. Aria voltou a se acomodar no muro de pedra e fingiu estar ocupada desenhando. Ela no queria fazer contato visual com nenhuma daquelas garotas outra vez. Poucos 
dias antes, Naomi Zeigler a surpreendera olhando na direo delas e vociferara:
        - O que foi, est apaixonada por ns?
        Estas eram a elite do sexto ano, afinal, ou, como Aria as chamava, as Tpicas Garotas de Rosewood.
        Cada uma das Tpicas Garotas de Rosewood vivia em manses gradeadas, propriedades que se estendiam por muitos hectares, incrveis celeiros reformados, com 
estbulos e garagens para dez carros. Todos os jovens do lugar pareciam ter sido feitos a partir do mesmo molde: os garotos jogavam futebol e usavam cabelos cortados 
bem curtos; as garotas tinham exatamente a mesma risada, usavam os mesmos tons de gloss Laura Mercier e carregavam bolsas com o logo Dooney & Bourke. Apenas batendo 
os olhos, Aria no conseguiria diferenciar uma Tpica Garota de Rosewood da outra.
        Exceto por Alison DiLaurentis. Ningum confundiria Alison com outra garota, jamais.
        E era Alison quem se aproximava, guiando o grupo pelo caminho de pedra da escola, seu cabelo louro esvoaando, os olhos azul-safira brilhando, os tornozelos 
firmes sobre os saltos plataforma de sete centmetros. Naomi Zeigler e Riley Wolfe, suas duas amigas mais prximas, seguiam logo atrs dela, acompanhando cada um 
dos movimentos da amiga. As pessoas vinham fazendo todas as vontades de Ali desde que ela se mudara para Rosewood no terceiro ano.
        Ali se aproximou de Emily e das outras nadadoras. Emily estava com medo de que ela fosse rir de seu grupo - outra vez - por causa de seus cabelos danificados 
pelo cloro, esverdeados e ressecados, mas a ateno de Ali estava em outro lugar. Um sorriso de zombaria tomou seu rosto enquanto ela lia o folheto. Com um movimento 
rpido, ela arrancou o papel da parede e virou-se para as amigas.
        - Meu irmo vai esconder uma das partes da bandeira essa noite - disse ela, alto o bastante para todo mundo no ptio ouvir. - Ele j prometeu me contar onde 
est.
        Os garotos comearam a sussurrar uns com os outros. Hanna balanou a cabea, numa concordncia muda e respeitosa ao que Ali dissera. Ela admirava Ali ainda 
mais do que admirava as lderes de torcida mais velhas. Spencer, por outro lado, ferveu de raiva. O irmo mais velho de Ali no deveria contar a ela onde iria esconder 
seu pedao de bandeira da Cpsula do Tempo. Aquilo era trapaa! O lpis de carvo de Aria voou furiosamente sobre seu caderno de esboos, seus olhos fixos no rosto 
em formato de corao de Ali. E o nariz de Emily coou com o marcante cheiro de baunilha do perfume de Ali - era to gostoso quanto ficar diante da porta de uma 
confeitaria.
        As estudantes mais velhas comearam a descer os majestosos degraus de pedra do prdio do ensino mdio para chegar no ptio, interrompendo o grande anncio 
de Ali. Garotas altas e orgulhosas e rapazes bonitos e arrumadinhos passaram lentamente pelos alunos do sexto ano, seguindo em direo aos seus carros no estacionamento 
ao lado. Ali os observou com frieza, abanando o rosto com o folheto da Cpsula do Tempo. Um bando de insignificantes garotos mais novos, com os fios de seus fones 
brancos de iPod balanando nas orelhas, pareceram muito intimidados pela presena de Ali enquanto desamarravam suas bicicletas de dez marchas do bicicletrio. Naomi 
e Riley zombaram deles. Em seguida, um rapaz alto e 'louro do primeiro ano do ensino mdio notou Ali e parou.
        - Alguma novidade, Al?
        - Nenhuma. - Ali contraiu os lbios e se endireitou. - E voc, Eee, tem alguma novidade?
        Scott Chin deu uma cotovelada em Hanna e ela corou. Com seu rosto maravilhoso e bronzeado, cabelo louro encaracolado e olhos inacreditveis, de um castanho 
comovente, Ian Thomas - Eee - era o segundo na lista "Os Mais Gostosos" de Hanna, logo abaixo de Sean Ackard, o garoto por quem ela havia se apaixonado desde que 
eles ficaram no mesmo time de kickball no terceiro ano. No ficou claro de onde Ian e Ali se conheciam, mas, pelo o que ela sabia, os garotos mais velhos do ensino 
mdio convidavam Ali para suas festas particulares, mesmo ela sendo muito mais nova que eles.
        Ian se inclinou para Ali.
        - Eu ouvi voc dizendo que sabe onde est uma parte da bandeira da Cpsula do Tempo?
        As bochechas de Ali coraram.
        - Por qu? Algum est com inveja? - Ela lhe lanou um sorriso atrevido.
        Ian balanou a cabea.
        - Eu ficaria quieto se fosse voc. Algum poderia roub-la.  parte do jogo, voc sabe.
        Ali sorriu, como se a ideia fosse incompreensvel, mas uma ruga se formou no canto de seus olhos. Ian estava certo - roubar a parte da bandeira de algum 
era perfeitamente legal, constava no Livro de Regras Oficial da Cpsula do Tempo que o diretor Appleton guardava em uma gaveta trancada de sua mesa. No ano anterior, 
um garoto brbaro do primeiro ano do ensino mdio roubara um dos pedaos da bandeira que estava pendurado na mochila de um dos garotos mais velhos. Dois anos antes, 
uma garota do oitavo ano entrara no estdio de dana da escola e roubara pedaos da bandeira de duas bailarinas magrinhas e bonitas. A Clusula de Roubo, como era 
conhecida, nivelava ainda mais o campo de jogo. Se voc no fosse esperto o suficiente para desvendar as pistas que permitiriam encontrar as peas, ento talvez 
voc fosse ardiloso o bastante para surrupiar uma do armrio de algum.
        Spencer observou a expresso perturbada de Ali, com um pensamento lentamente tomando forma em sua mente. Eu deveria roubar a parte da bandeira de Ali. Era 
bem provvel que os alunos no sexto ano simplesmente permitissem que Ali encontrasse um pedao da bandeira de uma forma completamente injusta, e que ningum ousasse 
roubar dela. Spencer estava cansada de ver Ali conseguindo tudo de bandeja.
        Emily teve a mesma ideia. Imagine se eu roub-la de Ali, pensou ela, tendo calafrios e sentindo algo que no sabia dizer o que era. O que diria a Ali se 
ela a pegasse fazendo uma coisa dessas?
        Eu poderia roub-la de Ali? Hanna mordeu uma unha j roda. S que... Ela nunca havia roubado nada antes. Se roubasse, ser que Ali iria querer ser amiga 
dela um dia?
        Ah, seria maravilhoso roubar o pedao de Ali, no seria?, pensou Aria tambm, sua mo ainda voando sobre o caderno de esboos. Imagine, uma Tpica Garota 
de Rosewood destronada... por algum como Aria. A pobre Ali teria que procurar por outro pedao da bandeira lendo as pistas e usando o crebro pelo menos uma vez.
        -  Eu no estou preocupada. - Ali quebrou o silncio. -Ningum ousaria roub-la de mim. Assim que eu conseguir um pedao da bandeira, ele ficar comigo o 
tempo inteiro.
        Ela lanou a Ian uma piscadela sugestiva e, mexendo na saia, acrescentou:
        - A nica forma de algum conseguir tir-la de mim  me matando antes.
        Ian se inclinou na direo dela.
        - Bem, se for necessrio...
        Um msculo sob os olhos de Ali tremeu, e sua pele ficou plida. O sorriso de Naomi Zeigler murchou. Ian deu um sorriso frio, que depois se transformou em 
um irresistvel sorriso do tipo "Eu estou s brincando".
        Algum tossiu, fazendo Ali e Ian desviarem o olhar. O irmo de Ali, Jason, descia os degraus do prdio do ensino mdio em direo a Ian. Com a boca tensa 
e os ombros curvados, parecia que Jason havia escutado a conversa.
        -  O que voc acabou de dizer? - Jason parou a poucos centmetros do rosto de Ian. Um vento fresco soprou uns fios de cabelo louro de sua testa.
        Ian balanou para a frente e para trs em seus tnis Vans pretos.
        - Nada. Ns estvamos s brincando. 
        Os olhos de Jason escureceram. 
        -Voc tem certeza?
        - Jason! - gritou Ali, indignada. Ela parou entre os dois. - O que est acontecendo, seu palhao?
        Jason deu uma olhada para Ali, depois para o folheto da Cpsula do Tempo em sua mo e olhou de volta para Ian. O restante do grupo trocou olhares confusos, 
sem saber se aquilo tudo era fingimento ou se a briga era para valer. Ian e Jason tinham a mesma idade, e os dois jogavam no principal time de futebol do colgio. 
Talvez esta competio ainda fosse um reflexo dos problemas do dia anterior, quando Ian roubara a chance de Jason de fazer um gol contra a Pritchard Prep.
        Como Ian no respondeu, Jason demonstrou sua impacincia batendo seus braos contra a lateral do corpo.
        - Tudo bem. Que seja.
        Ele deu meia-volta pisando forte e se jogou no banco do passageiro de um sed preto do final dos anos 1970 que havia parado na pista exclusiva de nibus, 
junto  calada.
        -Vamos embora - disse ele para o motorista enquanto batia a porta.
        O carro acelerou, envolvido em uma nuvem de fumaa, e saiu cantando pneus. Ian deu de ombros e se afastou, com um sorriso vitorioso no rosto.
        Ali correu as mos pelo cabelo. Por uma frao de segundo, sua expresso pareceu um pouco distante, como se algo tivesse escapado de seu controle. Mas logo 
passou.
        -  Hidromassagem na minha casa? - perguntou para suas amigas, enlaando o brao de Naomi.
        Suas amigas a seguiram at a mata atrs da escola; um atalho para a sua casa. Um pedao de papel, agora familiar, saa da parte lateral da bolsa amarela 
de Ali. A Cpsula do Tempo comea amanh, ele dizia. Prepare-se.
        Preparar-se? Sem dvida nenhuma.
Algumas semanas mais tarde, depois que a maioria dos pedaos da Cpsula do Tempo tinham sido encontrados e enterrados, os membros do crculo ntimo de Ali mudaram. 
De repente, as garotas que habitualmente andavam com ela foram afastadas, e novas meninas ocuparam seus lugares. Ali havia encontrado quatro novas melhores amigas 
- Spencer, Hanna, Emily e Aria.
        Nenhuma das novas amigas de Ali questionou por que ela as escolhera no meio de toda a turma do sexto ano - no queriam que uma maldio casse sobre elas 
por fazerem perguntas demais. De vez em quando, elas pensavam nos momentos anteriores a Ali - em como elas eram infelizes, como se sentiam perdidas, como era certo 
que no significavam nada em Rosewood Day. Pensavam em momentos especficos, tambm, incluindo o dia em que a Cpsula do Tempo foi anunciada. Uma ou duas vezes, 
elas recordaram o que Ian havia dito a Ali, e o quanto fora estranha a aparente preocupao de Ali. Afinal de contas, ela quase nunca demonstrava preocupar-se com 
alguma coisa.
        Na maioria das vezes, elas ignoravam pensamentos como aqueles - era mais legal pensar no futuro do que se preocupar com o passado. Agora elas eram as garotas 
de Rosewood Day, e isto veio acompanhado por uma poro de responsabilidades excitantes. Elas tinham muitos momentos felizes com os quais se preocupar.
        Mas talvez no devessem ter esquecido aquele dia to rapidamente. E talvez Jason devesse ter ficado de olho em sua irm. Porque, bem, todos ns sabemos o 
que aconteceu. Um ano e meio depois daquilo, Ian cumpriu sua promessa.
        Ele realmente matou Ali.
1
MORTA E ENTERRADA
Emily Fields se recostou no sof de couro marrom, cutucando a cutcula de seu polegar ressecada pelo cloro. Suas antigas melhores amigas, Aria Montgomery, Spencer 
Hastings e Hanna Marin estavam sentadas perto dela, tomando chocolate quente Godiva em canecas de cermica listradas. Estavam acomodadas na sala de televiso da 
famlia de Spencer, que era cheia de objetos eletrnicos de ltima gerao, um telo de mais de dois metros, e alto-falantes espalhados aqui e ali. Havia uma cesta 
grande de biscoitos Baked Tostitos sobre a mesinha de centro, mas nenhum deles fora tocado.
        Diante delas, uma mulher chamada Marion Graves estava acomodada num sof de dois lugares de tecido xadrez, com um saco de lixo dobrado no colo. Enquanto 
as garotas usavam jeans velhos, blusas de cashmere, ou, no caso de Aria, uma minissaia de sarja surrada sobre ceroulas vermelho-tomate, Marion usava um blazer de 
l azul-escuro aparentemente caro e saia plissada combinando. Seu cabelo castanho-escuro brilhava e a pele cheirava a creme hidratante de lavanda.
        - Certo. - Marion sorriu para Emily e para as outras garotas. - Na ltima vez em que nos encontramos, pedi a vocs, meninas, que separassem algumas coisas 
especficas. Vamos colocar tudo que trouxeram sobre a mesa de centro.
        Emily colocou um porta-moedas de couro rosa com um monograma com o formato da letra 'E'. Aria pegou sua bolsa de pelo de iaque e tirou um desenho amarelado 
e amassado. Hanna atirou um pedao de papel dobrado que parecia um bilhete. E Spencer colocou cuidadosamente sobre a mesa uma fotografia em preto e branco e uma 
desgastada pulseira azul de fios. Os olhos de Emily se encheram de lgrimas - ela reconheceu a pulseira imediatamente. Ali fizera uma para cada uma delas no vero 
depois que A Coisa com Jenna aconteceu. As pulseiras deveriam ser um smbolo da amizade que as unia, e tambm lembr-las que jamais deveriam contar a ningum que, 
acidentalmente, haviam deixado Jenna Cavanaugh cega. O que elas no sabiam era que A Coisa com Jenna era um segredo que Ali estava guardando delas, no algo que 
elas estavam guardando do resto do mundo. A verdade era que Jenna havia pedido a Ali que soltasse os fogos de artifcio e culpasse seu meio-irmo, Toby. Este fato 
era uma das coisas decepcionantes que elas haviam descoberto sobre Ali depois que ela morrera.
        Emily engoliu em seco. A bola de chumbo que havia se alojado no meio de seu corao em setembro comeou a pulsar.
        Era o dia seguinte ao ano-novo. As aulas recomeariam no dia seguinte, e Emily torcia para que este semestre fosse um pouco menos agitado que o anterior. 
Praticamente no mesmo minuto em que ela e suas antigas amigas atravessaram o arco de pedra de Rosewood Day para comear o penltimo ano do ensino mdio, cada uma 
delas havia recebido mensagens misteriosas de algum que se identificava apenas como A. A princpio, todas elas acharam - no caso de Emily, torcia - que A pudesse 
ser Alison, sua melhor amiga havia muito desaparecida. Mas depois, alguns trabalhadores encontraram o corpo de Ali em um buraco coberto de cimento no antigo quintal 
da famlia dela. As mensagens continuavam a chegar, mencionando de forma cada vez mais ntima seus segredos mais sombrios, e dois vertiginosos meses depois, elas 
descobriram que A era Mona Vanderwaal. No ensino mdio, Mona havia sido uma garota desprezvel, obcecada, que espionava Emily, Ali e as outras durante as noites 
de sexta-feira em que se reuniam para dormir juntas. Porm, ,quando Ali desapareceu, Mona se transformou em. uma abelha rainha - e se tornou a melhor amiga de Hanna. 
Naquele outono, Mona havia roubado o dirio de Alison, lido todos os segredos que Ali escrevera sobre suas amigas para ento se meter no caminho de todas elas, tentando 
destruir suas vidas, assim como ela acreditava que Emily, Ali e as outras haviam arruinado a dela. Elas no apenas implicavam com ela, como tambm a haviam queimado, 
com os mesmos fogos de artifcio que cegaram Jenna. Na noite em que Mona caiu para sua morte, despencando de uma pedreira - e quase levando Spencer junto -, a polcia 
tambm prendeu Ian Thomas, o supersecreto namorado mais velho de Ali, pelo assassinato dela. O julgamento de Ian estava marcado para comear no fim daquela semana. 
Emily e as outras teriam que testemunhar contra ele, e, ainda que a preparao para o banco de testemunhas fosse milhes de vezes mais assustadora do que quando 
Emily teve que cantar uma parte solo no Concerto de Natal de Rosewood Day, pelo menos significaria que toda aquela provao realmente teria fim.
        E, porque essa coisa toda era demais para quatro adolescentes administrarem, seus pais resolveram que deveriam contar com ajuda profissional. Era nesse ponto 
que entrava Marion, a melhor terapeuta especializada em luto da Filadlfia. Aquele era o terceiro domingo que Emily e suas amigas se encontravam com ela. A sesso 
deveria dedicar-se especificamente a permitir que as garotas encontrassem formas de desabafar sobre as muitas coisas terrveis que haviam acontecido com elas.
        Marion alisou a saia sobre o joelho enquanto olhava para os objetos sobre a mesa.
        - Todas essas coisas fazem com que vocs se lembrem de Alison, certo?
        As meninas concordaram. Marion sacudiu o saco de lixo preto para abri-lo.
        -Vamos colocar tudo aqui. Depois que eu for embora, meninas, quero que vocs enterrem isto no quintal de Spencer. Realizamos esse ritual para simbolizar 
que Ali ir, finalmente, descansar. E assim, vocs estaro enterrando todos os sentimentos negativos que existiam em sua amizade com ela.
        Marion sempre salpicava seu discurso com frases New Age como sentimentos negativos, a necessidade espiritual de fechamento e confrontando o processo da perda. 
Na sesso anterior, as meninas tiveram que entoar vrias vezes "A morte da Ali no  culpa minha" e beber um ch malcheiroso que, supostamente, "limparia" seus chacras 
de toda a culpa. Marion tambm as estimulou a cantar em frente ao espelho coisas como "Ali est morta e no vai mais voltar" e "Ningum quer me machucar". Emily 
ansiava que os mantras funcionassem - o que ela mais queria no mundo  que sua vida voltasse ao normal.
        - Certo, todo mundo de p - disse Marion, erguendo a sacola de lixo. -Vamos l.
        Todas elas ficaram de p. O lbio inferior de Emily tremeu quando ela olhou para o pequeno porta-moedas, um presente de Ali quando elas se tornaram amigas 
no sexto ano. Talvez ela devesse ter levado outra coisa para esta sesso de limpeza, como uma das antigas fotos de escola de Ali - ela possua milhes de cpias. 
Marion fixou os olhos em Emily e, com o queixo, apontou na direo da bolsa. Com um soluo, Emily jogou o porta-moedas dentro do saco de lixo.
        Aria pegou o desenho a lpis que ela havia levado para a sesso, um esboo de Ali em p do lado de fora de Rosewood Day.
        - Fiz esse desenho antes mesmo de nos tornarmos amigas. 
        Spencer segurou animada a ponta da pulseira de fios que lembrava A Coisa com Jenna entre seu dedo indicador e o polegar, como se o objeto estivesse coberto 
de meleca.
        - Adeus - sussurrou ela com firmeza.
        Hanna revirou os olhos enquanto jogava seu pedao de papel dobrado. Ela no se incomodou em explicar o que era.
        Emily observou enquanto Spencer pegava a foto em preto e branco. Era um retrato de Ali de p, perto de um Noel Kahn bem mais jovem. Eles sorriam. Havia algo 
familiar naquela cena. Emily segurou o brao de Spencer antes que ela pudesse jogar a foto dentro da sacola.
        - Onde voc conseguiu isto?
        -  No escritrio do Livro do Ano no colgio, antes que eles me expulsassem de l - admitiu Spencer, sem jeito. - Lembra que fizeram aquela seleo escolhendo 
fotos de Ali para a publicao? Esta aqui foi uma das que no foram selecionadas para o Livro do Ano.
        - No jogue essa fora - disse Emily, ignorando o olhar inflexvel de Marion. -  uma tima foto dela.
        Spencer ergueu uma sobrancelha, mas, sem dizer nada, colocou a foto sobre o mvel de mogno perto de uma esttua da Torre Eiffel de ferro forjado. De todas 
as antigas amigas de Ali, Emily definitivamente era a que mais estava tendo dificuldades em administrar a morte da garota. Ela no tivera uma amiga como Ali, antes 
ou depois da histria toda. No ajudava, tampouco, que Ali tivesse sido o primeiro amor de Emily, a primeira garota que ela havia beijado em sua vida. Se dependesse 
de Emily, ela no enterraria Ali. Por ela, estava tudo bem manter as lembranas de Ali em sua mesa de cabeceira para sempre.
        - Estamos prontas? - Marion enrugou os lbios pintados com batom cor de vinho. Ela fechou a sacola e a entregou a Spencer. - Prometa-me que voc vai enterr-la. 
Isto ajudar muito. Srio. E acho que vocs deveriam se encontrar na tera  tarde, tudo bem?  a semana de volta  escola e eu quero que fiquem juntas para uma 
tomar conta da outra. Vocs poderiam fazer isto por mim?
        Todas concordaram, desanimadas. Elas seguiram Marion, saindo da sala de TV, descendo para o grande vestbulo de mrmore da casa da famlia Hastings, na direo 
do saguo. Marion se despediu e entrou em seu Range Rover azul-marinho, ligando os limpadores para tirar o excesso de neve de seu para-brisa.
        O grande relgio de pndulo do saguo comeou a bater as horas. Spencer fechou a porta e virou-se para encarar Emily e as outras amigas. As alas vermelhas 
do saco de lixo pendiam de seu punho.
        - Bem - disse Spencer -, vamos enterrar isto?
        - Onde? - perguntou Emily, baixinho.
        - Que tal perto do celeiro? - sugeriu Aria, cutucando um furo em suas calas vermelhas. -  apropriado, no acham? Foi o ltimo lugar em que... a vimos.
        Emily concordou com a cabea, um grande n na garganta.
        - O que voc acha, Hanna?
        - Pode ser - balbuciou Hanna num tom montono, como se preferisse estar em qualquer outro lugar.
        Todas vestiram casacos e botas e enfrentaram o jardim coberto de neve dos Hastings at os fundos da propriedade. Elas permaneceram em silncio durante todo 
o caminho. Embora as meninas tivessem se reaproximado durante o perodo em que receberam as terrveis mensagens de A, Emily no tinha visto muito suas antigas amigas 
desde a acusao de Ian. Ela tentara organizar passeios ao Shopping King James, e at mesmo encontros entre uma aula e outra no Steam, o caf de Rosewood Day, mas 
as garotas no pareciam interessadas. Ela suspeitava que elas estivessem evitando umas s outras pelas mesmas razes pelas quais se afastaram depois do desaparecimento 
de Ali - era muito estranho ficarem juntas.
        A antiga casa dos DiLaurentis ficava  direita. As rvores e os arbustos que dividiam o jardim estavam nus e havia uma grossa camada de gelo na varanda dos 
fundos da casa de Ali. O santurio de Ali, que consistia em velas, animais de pelcia, flores e fotos antigas, estava ainda no meio-fio, mas as vans das emissoras 
de TV e o grupo de cameramen que havia acampado do lado de fora da casa por um ms depois que seu corpo fora encontrado enfim desapareceram. Naqueles dias, a mdia 
estava rondando o tribunal de justia de Rosewood e a priso Chester County, esperando obter mais notcias a respeito do julgamento de Ian Thomas, que seria em breve.
        Aquela casa era, agora, tambm a nova casa de Maya St. Germain, ex-namorada de Emily. O SUV Acura da famlia St. Germain estava na entrada, o que significava 
que eles haviam voltado a viver ali - a famlia evitara a casa durante o perodo de agitao do circo miditico. Emily sentiu uma pontada quando olhou para a guirlanda 
alegre na porta da frente e os sacos de lixo transbordando de papel de presente de Natal no meio-fio. Quando estavam juntas, ela e Maya haviam discutido o que dariam 
uma para a outra de Natal - Maya queria fones de ouvido do tipo que os DJs usam, Emily queria um iPod shuffle. Terminar com Maya havia sido a melhor coisa a se fazer, 
mas era estranho estar completamente desligada da vida dela.
        As outras meninas estavam na frente dela, aproximando-se do jardim dos fundos. Emily correu para alcan-las, a ponta de seu p afundando no cho coberto 
de lama. esquerda estava o celeiro de Spencer, o lugar em que elas haviam dormido juntas pela ltima vez. O celeiro era vizinho a uma mata fechada que se estendia 
por mais de um quilmetro e meio.  direita do celeiro estava o buraco que fora parcialmente cavado no antigo jardim dos DiLaurentis, onde o corpo de Ali fora encontrado. 
Parte da fita amarela da polcia tinha cado e agora estava meio enterrada na neve, mas havia muitas pegadas frescas por ali, provavelmente de curiosos.
        O corao de Emily saltou quando ela ousou olhar o buraco. Estava muito escuro. Seus olhos se encheram de lgrimas quando imaginou Ian feito um louco, atirando 
Ali naquele lugar, deixando-a l para morrer.
        -  uma loucura, no ? - disse Aria, baixinho, olhando para o buraco tambm. - Ali esteve aqui o tempo inteiro.
        -  Foi bom que voc tenha se lembrado, Spence - disse Hanna, tremendo no ar frio do fim de tarde. - Do contrrio, Ian ainda estaria solto por a.
        Aria empalideceu, parecendo preocupada. Emily roeu uma unha. Na noite em que Ian fora preso, elas disseram aos policiais que tudo o que eles precisavam saber 
a respeito do que acontecera naquela noite estava no dirio de Ali - o ltimo registro era de como ela estava planejando se encontrar com Ian, seu namorado secreto, 
na noite em que as meninas iam dormir juntas, quando estavam no stimo ano. Ali havia dado um ultimato a Ian: ou ele terminava o namoro com Melissa, a irm de Spencer, 
ou ela contaria para todo mundo que eles estavam apaixonados.
        Mas o que realmente convenceu os policiais foi a lembrana reprimida de Spencer ter sido redescoberta naquela noite. Depois que Ali e Spencer brigaram do 
lado de fora do celeiro dos Hastings, Ali correra para algum - Ian. Aquela foi a ltima vez que algum viu Ali, e todo mundo entendeu exatamente o que aconteceu 
depois. Emily nunca esqueceria como Ian irrompera na sala do tribunal no dia de sua acusao e ousara alegar inocncia. Depois que o juiz ordenou a priso de Ian 
sem fiana e os oficiais o levaram de volta a sua cela, ela o viu olhando para elas cheio de amargura. Vocs, garotas, escolheram a pessoa errada para desafiar, 
seu olhar parecia dizer em alto e bom som. Era bvio que ele as culpava por sua priso.
        Emily deixou escapar um pequeno gemido e Spencer olhou para ela bem brava.
        -  Pare. Ns no devemos nos preocupar com Ian... nem nada parecido.
        Ela foi at o limite da propriedade e parou, ajeitando seu chapu azul e branco de aba da Fair Isle.
        -  um bom lugar?
        Emily soprou seus dedos para aquec-los, enquanto as outras concordaram, entorpecidas. Spencer comeou a cavar um buraco na terra com a p que havia pegado 
na garagem. Depois que o buraco estava fundo o suficiente, Spencer jogou o saco de lixo l dentro, fazendo um barulho pesado na neve ao atingir o fundo. Todas elas 
empurraram com os ps a terra e a neve de volta para o buraco, em cima do saco.
        - E agora? - Spencer se inclinou, apoiando-se na p. - Deveramos dizer alguma coisa?
        Elas se entreolharam.
        - Adeus, Ali - disse Emily, finalmente, seus olhos se enchendo de lgrimas pela milionsima vez neste ms.
        Aria olhou para ela, e depois sorriu.
        - Adeus, Ali - repetiu ela. Depois olhou para Hanna. 
        Hanna deu de ombros, mas em seguida disse: 
        - Adeus, Ali.
        Quando Aria pegou sua mo, Emily se sentiu... melhor. Seu estmago desfez o n e seu pescoo relaxou. De repente o cheiro estava to bom atrs da propriedade, 
como de rosas frescas. Ela sentiu que Ali - a Ali doce e maravilhosa que ela guardava em sua memria - estava ali, dizendo a elas que tudo ficaria bem.
        Ela olhou para as outras. Todas tinham sorrisos plcidos no rosto, como se sentissem algo tambm. Talvez Marion estivesse certa. Talvez houvesse algo neste 
ritual. Era hora de deixar que toda a dor daquela perda assentasse - o assassino de Ali havia sido pego, e todo o pesadelo pelo qual A as fizera passar havia acabado. 
A nica coisa que restava fazer era olhar para a frente, para um futuro mais feliz e calmo.
        O sol mergulhava rapidamente por entre as folhas das rvores, tingindo o cu e os montes de neve de um prpura leitoso. A brisa que soprava fez com que o 
moinho da famlia Hastings girasse lentamente, e um grupo de esquilos comeou a brigar perto de um pinheiro enorme. Se um dos esquilos subir na rvore, tudo ficar 
bem, disse Emily para si mesma, jogando o mesmo jogo supersticioso que praticara anos a fio. E de repente um esquilo correu para o pinheiro, abrindo seu caminho 
at o topo.
2
AH, SOMOS UMA FAMLIA
Meia hora depois, Hanna Marin entrou de repente pela porta da frente de sua casa, pegou seu pinscher miniatura, Dot, no colo, e jogou sua bolsa trabalhada em couro 
de cobra em cima do sof da sala.
        - Desculpe o atraso - gritou ela.
        Da cozinha vinha um cheiro de molho de tomate e po de alho, e o pai de Hanna, a noiva dele, Isabel, e a filha dela, Kate, j estavam sentados na sala de 
jantar. Havia grandes tigelas de cermica com macarro e salada no centro da mesa. Um prato trabalhado nas bordas, guardanapo e uma taa com gua Perrier esperavam 
por Hanna em seu lugar vazio. Em sua chegada no Dia de Natal - praticamente segundos depois que a me de Hanna embarcara em um avio para seu novo trabalho em Cingapura 
- Isabel havia decidido que todo jantar de domingo seria na sala de jantar, para fazer as coisas parecerem mais especiais e para uni-los como uma famlia.
        Hanna desabou em sua cadeira, tentando ignorar os olhares de todos. Seu pai estava lanando um sorriso esperanoso, e Isabel fazia uma cara de quem estava 
tentando conter um pum, desapontada, pois Hanna estava atrasada para o Momento Famlia. Kate, por outro lado, virou a cabea de maneira compassiva. E Hanna sabia 
qual deles falaria primeiro.
        Kate alisou o cabelo irritantemente liso tingido de castanho, seus olhos azuis viraram.
        -Voc estava com sua terapeuta do luto?
        Bingo!
        - Uhum. - Hanna deu um gole gigante em sua gua Perrier.
        - Como foi? - perguntou Kate com sua melhor VQZ, imitando a Oprah. - Est ajudando?
        Hanna fungou com arrogncia. Para ser bem franca, ela achava que os encontros com Marion eram bobagem. Talvez suas antigas amigas pudessem seguir a vida 
ps-Ali e A, mas Hanna estava lutando no apenas com a morte de uma amiga, mas de duas. Hanna se lembrava de Mona a cada momento de seu dia: quando ela deixava Dot 
correr pelo quintal congelado vestindo seu casaquinho xadrez da Burberry, comprado por Mona no ano anterior; quando abria seu closet e via a saia Jill Stuart que 
ela pegara emprestada com Mona e nunca devolvera; quando olhava para o espelho, tentando cantar as msicas sentimentaloides de Marion, e via os brincos de pedra 
que Mona e ela haviam roubado da Banana Republic na primavera anterior. Ela via outra coisa tambm: uma leve cicatriz em formato de Z em seu queixo, resultado de 
quando Mona a atropelara com seu SUV, depois que Hanna descobrira que Mona era A.
        Ela odiava pensar que sua futura meia-irm sabia de cada detalhe do que acontecera com ela no ltimo outono - especialmente que sua melhor amiga havia tentado 
mat-la. Mas enfim, toda Rosewood sabia; a mdia local praticamente s falava disso desde que o assunto viera a pblico. E havia algo ainda mais estranho acontecendo: 
o pas fora tomado pela mania de A. Pais vinham noticiando que seus filhos estavam recebendo mensagens de algum chamado A, que depois se descobriria serem ex-namorados 
rejeitados ou colegas de classe invejosos. At mesmo Hanna recebera algumas mensagens falsas de A que eram, obviamente, spam:
        Eu sei de todos os seus segredos sujos! E ei, quer comprar 
        ringtones por um dlar?
        Era tudo to idiota.
        O olhar de Kate permaneceu fixo em Hanna, talvez esperando que ela esbravejasse e desse um show. Mas Hanna rapidamente pegou um pedao de po de alho e deu 
uma mordida enorme, para no precisar falar. Desde que Kate e Isabel colocaram os ps naquela casa, Hanna dividia todo o seu tempo entre ficar trancada no quarto, 
fazer terapia de compras no Shopping King James ou se esconder na casa de seu namorado, Lucas. Ainda que as coisas estivessem instveis entre eles antes de Mona 
morrer, Lucas havia sido inacreditavelmente compreensivo depois. Agora eles eram inseparveis.
        Hanna preferia passar o mximo de tempo fora, porque quando ficava zanzando pela casa, seu pai no parava de delegar pequenas tarefas para ela e Kate fazerem 
juntas: tirar as roupas que no usava mais do closet novo em folha de Kate, jogar o lixo fora ou tirar a neve da frente da casa. Mas... oi? No era para isso que 
serviam as empregadas domsticas e servios de remoo de neve? Ah, se ao menos as equipes de remoo de neve pudessem remover Kate tambm...
        -Vocs esto empolgadas para recomear a escola amanh?
        Isabel enrolou um punhado de macarro com seu garfo.
        Hanna deu de ombros aparentando indiferena e sentiu uma dor familiar irradiar em seu brao direito. Ela o quebrara quando Mona batera nela com seu SUV, 
outra doce lembrana de que sua amizade com Mona no passara de fingimento.
        -  Eu estou empolgada - Kate quebrou o silncio. - Dei uma olhada no catlogo de Rosewood Day outra vez. A escola tem atividades realmente incrveis. Eles 
montam quatro peas de teatro por ano!
        O sr. Marin e Isabel sorriram. Hanna trincou os dentes com tanta fria que seu maxilar comeou a ficar dormente. Tudo o que Kate falara desde sua chegada 
em Rosewood era sobre como estava animada para estudar em Rosewood Day. Mas que seja - a escola era enorme. Hanna planejava no v-la nunca.
        - Mas o lugar parece ser to confuso. - Kate afetadamente limpou a boca com um guardanapo. - Eles tm prdios separados para assuntos diferentes, dependncias 
para jornalismo, uma biblioteca de cincia e uma estufa de plantas.Vou ficar to perdida. Ela enrolou uma mecha de cabelo castanho no dedo indicador.
        - Eu adoraria se voc me mostrasse a escola, Hanna. 
        Hanna quase deu uma gargalhada. A voz de Kate era mais falsa do que um par de culos escuros Chanel de noventa e nove centavos no eBay. Ela tambm havia 
encenado este ato vamos ser amigas no restaurante onde jantaram no ltimo outono, o Le Bec-Fin, e Hanna nunca se esqueceria de como aquilo havia terminado. Quando 
Hanna correu at o banheiro do restaurante durante os aperitivos, Kate a seguiu toda doce e preocupada. Hanna explicou que havia acabado de receber uma mensagem 
de A - bem, de Mona - que dizia que Sean Ackard, que ela acreditava ainda estar namorando, estava no baile beneficente com outra garota. Kate imediatamente se solidarizara 
e incentivara Hanna a abandonar o jantar, voltar a Rosewood e chutar o traseiro de Sean. Disse, inclusive, que a acobertaria. Era para isso que quase meias-irms 
serviam, certo?
        Errado. Quando Hanna voltou para a Filadlfia, surpresa! Kate havia fofocado, dito ao sr. Marin que Hanna estava carregando um monte de Percocet em sua bolsa. 
O sr. Marin ficara to bravo que dera a viagem por encerrada... e ficou sem falar com Hanna por semanas. 
        - Claro que Hanna lhe mostrar a escola - falou o sr. Marin. 
        Hanna cerrou os punhos sob a mesa e tentou imprimir um tom desanimado  voz.
        - Oh, no. Eu adoraria, mas meu dia escolar  to ocupado...
        Seu pai ergueu uma sobrancelha.
        - Bem, e antes das aulas ou na hora do almoo?
        Hanna estalou a lngua. Tente no me ferrar, papai. Seu pai havia esquecido que Kate a apunhalara pelas costas em seu desastroso jantar no Le Bec-Fin na 
Filadlfia naquele outono - o jantar que era para ser apenas entre pai e filha. Mas seu pai no via o que acontecera dessa forma. Na cabea dele, Kate no era uma 
traidora barata. Ela era perfeita. O olhar de Hanna saltava de um lado para o outro, de seu pai para Isabel e dela para Kate, e ela se sentia cada vez mais desamparada. 
Em seguida, ela sentiu arranhes familiares no fundo da garganta. Empurrando a cadeira para trs, ela se levantou, deixou escapar um grunhido e saiu tropeando na 
direo do banheiro do andar de baixo.
        Ela se inclinou sobre a pia respirando com dificuldade. No faa isto, disse a si mesma. Nos ltimos meses, ela vinha lidando muito bem com seu distrbio 
alimentar, mas era como se Kate fosse um gatilho de sensaes ruins. Sua primeira crise de vmito acontecera na primeira visita que fizera ao pai, Isabel, e Kate 
em Annapolis. Ela levara Ali com ela, e Ali e Kate ficaram amigas logo de cara - uma espcie de entendimento ttico entre meninas bonitas -, enquanto Hanna no parava 
de se entupir de pipoca, sentindo-se gorda e horrorosa. O pai cham-la de "porquinha" fora a gota d'gua. Ela correra at o banheiro e, usando a escova de dente 
de Kate que estava em um copo sobre a pia, obrigara-se a vomitar.
        Ali havia entrado no banheiro enquanto Hanna estava no meio de sua segunda investida. Ela prometera a Hanna que seu segredo estava seguro com ela, mas Hanna 
j havia aprendido muito a respeito de Ali desde aquela poca. Ali guardava muitos segredos de vrias pessoas - e usava o que sabia para jogar as pessoas umas contra 
as outras. Como por exemplo, fazer Hanna e as outras garotas acreditarem que elas eram as responsveis pela Coisa com Jenna quando, na verdade, Jenna e Ali haviam 
tramado tudo. Hanna no teria ficado surpresa se descobrisse que Ali fora at a varanda naquele mesmo dia e contara toda a histria do banheiro para Kate.
        Depois de alguns minutos, a sensao ruim passou. Hanna respirou fundo, se endireitou, e pegou seu BlackBerry no bolso. Ela abriu uma nova mensagem.
        Voc no vai acreditar nisto, ela escreveu. Meu pai quer que eu seja a Chefe do Comit de Boas-Vindas de Rosewood Day para a Louca da Kate. Podemos marcar 
manicure de emergncia amanh e conversar um pouco?
        Ela estava na metade de sua lista de contatos, tentando selecionar algum para enviar a mensagem, quando percebeu que no havia ningum. Mona fora a nica 
pessoa com quem ela fizera tratamentos de beleza de emergncia.
        - Hanna.
        Hanna se virou e viu que seu pai, discretamente, havia aberto a porta do banheiro. Seus olhos estavam carregados de preocupao.
        -Voc est bem? - perguntou ele, usando um tom de voz gentil que Hanna no ouvia fazia muito tempo.
        O sr. Marin deu um passo  frente e colocou as mos sobre o ombro de Hanna. Ela engoliu em seco, abaixando a cabea. Quando estava no stimo ano, antes de 
seus pais se divorciarem, ela e o pai eram muito prximos. Seu corao se partira quando ele deixara Rosewood aps o divrcio, e quando fora morar com Isabel e Kate, 
Hanna se preocupara que ele tivesse trocado a Hanna feia, gorducha, de cabelo castanho crespo pela Kate linda, magra e perfeita. Poucos meses antes, quando Hanna 
estava no hospital, depois que Mona a atropelara, o pai prometera participar mais da vida de Hanna. Mas durante essa primeira semana em que seu pai estivera em Rosewood, 
ele ficara ocupado demais ajudando a redecorar a casa de acordo com os gostos de Isabel - muito veludo e diversos penduricalhos - e no tivera tempo suficiente para 
Hanna.
        Mas talvez ele estivesse indo se desculpar por tudo isto.
        Talvez estivesse indo se desculpar por t-la culpado por tudo e t-la deixado sozinha sem ouvir seu lado da histria... e por ter abandonado Hanna por causa 
de Isabel e Kate durante trs anos inteirinhos.
        O sr. Marin acariciou o brao de Hanna de forma desajeitada.
        - Oua. Este outono foi terrvel. E sei que depor no julgamento de Ian sexta-feira deve estar deixando voc estressada e apreensiva. E percebo que Kate e 
Isabel virem morar aqui foi um pouco... abrupto. Mas, Hanna, esta  uma enorme mudana de vida para Kate. Ela abandonou os amigos em Annapolis para vir para c, 
e eu mal conversei com ela. Voc precisa comear a trat-la como parte da famlia.
        O sorriso de Hanna murchou. Parecia que o pai a golpeara na cabea com a saboneteira em que ficava o sabonete de menta sobre a pia de porcelana. Kate certamente 
no precisava da ajuda de Hanna, nem um pouco. Kate era como Ali: graciosa, bonita, o objeto da ateno de todo mundo e incrivelmente manipuladora.
        Mas quando seu pai baixou a cabea, esperando que Hanna concordasse com ele, Hanna percebeu que havia duas pequenas palavras que ele deixara de fora de sua 
declarao. Duas palavras que revelavam como as coisas seriam por ali a partir daquele
momento.
        Hanna precisava comear a tratar Kate como parte da famlia... ou ento...
3
A ESTREIA DE ARIA NO 
MUNDO DAS ARTES
- Credo, eca! -Aria Montgomery franziu o nariz enquanto seu irmo, Mike, afundava um pedao de po em um caldeiro de queijo suo derretido. Ele rodopiou o po 
dentro do caldeiro, iou-o de l, e chupou a longa e pegajosa linha de queijo que pendia no garfo. -Voc tem que transformar tudo em um ato sexual?
        Mike sorriu com desdm para ela e continuou a comer o po. Aria deu de ombros.
        Aria no conseguia acreditar que aquele era o ltimo dia dessas estranhas frias de inverno. A me de Aria e Mike, Ella, decidira mim-los um pouco fazendo 
um fondue caseiro de queijo com o jogo de fondue que ela havia encontrado no poro, debaixo de algumas caixas com enfeites natalinos e de uma pista HotWheels. Aria 
tinha quase certeza de que seu pai, Byron, havia dado aquele jogo como presente de aniversrio de casamento para sua me mas no ousou perguntar. Ela tentava evitar 
todas as referncias ao pai - tais como as horas estranhas que ela e Mike passaram com ele e sua namorada, Meredith, na noite de Natal, na pista de esqui do Bear 
Claw. Meredith ficara no alojamento o tempo todo fazendo exerccios de ioga, cuidando de sua barriga pequena-mas-obviamente-grvida, e implorando a Aria que lhe 
ensinasse como tricotar um par de sapatinhos de beb. Os pais de Aria haviam se separado oficialmente apenas alguns meses antes, em parte por causa de Mona que, 
passando-se por A, enviara uma carta a Ella dizendo que Byron a traa com Meredith. Aria estava certa de que Ella ainda no esquecera Byron.
        Mike olhou a garrafa de Heineken de Ella.
        - Voc tem certeza de que eu no posso tomar nem um golinho?
        - No - respondeu Ella. - Pela terceira vez. 
        Mike franziu a testa.
        - Eu j tomei cerveja antes.
        - No nesta casa. - Ella olhou para ele.
        - Por que voc quer tanto cerveja? - perguntou Aria, com curiosidade. - Mike est nervoso com o primeiro.. encontro.?
        - No  um encontro. - Mike puxou seu gorro de snowboard da Burton sobre a testa. - Ela  s uma amiga.
        Aria sorriu com malcia. De forma inacreditvel, a garota estava doidinha por Mike. Seu nome era Savannah, e ela era uma secundarista na escola pblica. 
Eles haviam se conhecido em um grupo do Facebook sobre - grande surpresa - lacrosse. Aparentemente Savannah era to obcecada pelo esporte quanto ele.
        - Mikey vai a um encontro no shopping - cantarolou Aria. - Ento voc vai jantar pela segunda vez na praa de alimentao? No fast-food de comida chinesa 
A Grande Muralha de Frango do sr. Wong?
        - Cala a boca - gritou Mike. - Ns vamos ao Rive Gauche comer a sobremesa. Mas cara, no  um encontro. Quer dizer, ela  da escola pblica.
        Ele disse "escola pblica" como se quisesse dizer "fossa de parasitas cheia de detritos".
        - Eu s namoro garotas com dinheiro. 
        Aria estreitou os olhos.
        -Voc  nojento.
        - Olha o que fala, amante de Shakespeare. - Mike sorriu com desdm.
        Aria empalideceu.
        Shakespeare era o apelido que Mike dera para Ezra Fitz, quase-ex-namorado de Aria - e ex-professor de ingls avanado. Este era o outro segredo com o qual 
Mona, mandando mensagens que assinava como A, atormentara Aria. A mdia habilmente evitara revelar todos os segredos de A, mas Aria suspeitava que Mike tivesse descoberto 
a respeito de Ezra por intermdio de Noel Kahn, seu colega do time de lacrosse e o maior fofoqueiro de Rosewood Day.Aria fizera Mike jurar que nunca contaria a Ella, 
mas ele no conseguia resistir e deixava escapar algumas pistas.
        Ella pegou um pedao de po.
        - Pode ser que eu tambm tenha um encontro em breve - disse ela de repente.
        Aria abaixou seu grande garfo de fondue. Ela no teria ficado mais espantada se Ella tivesse acabado de dizer que estava voltando para Reykjavk, Islndia, 
onde sua famlia havia passado os trs ltimos anos.
        - O qu? Quando?
        Nervosa, Ella brincou com seu colar turquesa.
        - Tera.
        - Com quem?
        Ella abaixou a cabea, revelando uma listra fina de razes brancas em seu couro cabeludo.
        - Algum com quem eu tenho conversado no Match.com e... Ele parece legal... mas quem sabe? Eu no sei muita coisa sobre ele. Conversamos principalmente sobre 
msica. Ns dois gostamos dos Rolling Stones.
        Aria concordou por educao. Mas em matria de rock dos anos 1970, ela era uma garota Velvet Underground - Mick Jagger era mais magro que ela e Keith Richards 
era horroroso demais.
        - O que ele faz?
        Ella sorriu com timidez.
        - Na verdade, no tenho ideia. Tudo o que eu sei  que seu nome  Wolfgang.
        - Wolfgang? - Aria quase cuspiu um pedao de po.- Como Wolfgang Amadeus Mozart?
        O rosto de Ella estava ficando mais e mais enrubescido.
        - Talvez eu no v.
        - No, no, voc deveria ir! - exclamou Aria. - Eu acho timo!
        E ela estava feliz por Ella. Por que s seu pai tinha direito a diverso?
        - Eu acho que  vulgar - opinou Mike. - Deveria ser ilegal pessoas acima de quarenta terem encontros.
        Aria o ignorou.
        - O que voc vai vestir?
        Ella olhou para baixo, para sua tnica cor de beringela favorita. Possua bordados floridos ao redor do pescoo e uma espcie de mancha de ovo mexido perto 
da costura.
        - O que h de errado Com isso que estou usando? 
        Aria arregalou os olhos e balanou a cabea.
        - Eu a comprei naquela pequena e simptica vila de pescadores na Dinamarca no ano passado - protestou Ella. -Voc estava comigo! Aquela senhora sem dentes 
nos vendeu.
        -  Ns precisamos comprar outra coisa para voc - afirmou Aria. - E pintar seu cabelo. E deixa que eu fao sua maquiagem.
        Ela enrugou os olhos, visualizando o balco do banheiro de sua me. Geralmente estava bagunado, com pinturas em tons de gua, latas de terebintina e projetos 
de joalheria meio acabados.
        -Voc ao menos tem alguma maquiagem? 
        Ella deu outro gole em sua bebida.
        - Ele no deveria gostar de mim do jeito que eu sou, sem todo este... enfeite?
        -Ainda ser voc. S que melhor - encorajou Aria. 
        Mike girava de um lado para o outro entre elas. De repente, seu rosto se iluminou.
        - Sabe o que eu acho que faz as mulheres ficarem melhores? Implantes!
        Ella recolheu os pratos deles e os levou para a pia.
        - Bem, Aria - disse Ella -, eu permitirei que voc me enfeite para o encontro, tudo bem? Mas agora preciso levar Mike para o encontro dele.
        - No  um encontro! - choramingou Mike, saindo como um furaco da sala e subindo as escadas.
        Aria deu uma risada abafada. Assim que saiu, elas se entreolharam embaraadas, ainda havia uma espcie de estranhamento entre elas. Os ltimos meses no 
haviam sido particularmente fceis. Mona, em suas mensagens como A, tambm havia contado a Ella que Aria guardara o segredo de seu pai por trs anos longos. Aquela 
revelao deixara Ella muito triste. Ela se sentiu trada e to abalada que, quando Aria sugeriu que talvez fosse melhor sair de casa, Ella no a impediu. Mas em 
algum momento ela perdoara Aria, que agora estava dando duro para fazer com que o relacionamento das duas voltasse ao normal. Elas ainda no tinham chegado l. Havia 
muitas coisas que Aria ainda no podia mencionar; ainda era raro que elas passassem tempo sozinhas; e Ella ainda no era capaz de confiar em Aria, no completamente 
- algo que antes acontecia sem quaisquer problemas. Mas as coisas estavam melhorando a cada dia.
        Ella ergueu uma sobrancelha e enfiou as mos no bolso de canguru de sua tnica.
        - Eu acabei de me lembrar. - Ela tirou um carto retangular com trs linhas azuis cruzadas na frente. - Era para eu ir a este vernissage hoje  noite, mas 
no vou poder. Voc quer ir em meu lugar?
        - Eu no sei. -Aria deu de ombros. - Estou cansada. 
        -V - insistiu Ella. -Voc tem estado muito enjaulada ultimamente. No fique trancada em casa resmungando.
        Aria abriu a boca para protestar, mas Ella tinha certa razo. Ela havia passado as frias de inverno quieta em seu quarto, tricotando cachecis e dando petelecos 
na miniatura de Shakespeare que Ezra lhe dera antes de deixar Rosewood em novembro.Todo dia ela pensava que receberia algum sinal de vida dele - um e-mail. uma mensagem. 
qualquer coisa -. principalmente porque os noticirios do pas inteiro estavam cheios de histrias sobre Rosewood, Ali, e at sobre a prpria Aria. Mas os meses 
foram passando... e nada.
        Ela amassava o canto do convite no meio da palma da mo. Se Ella era forte o bastante para retornar ao mundo, ela tambm era. E no havia hora melhor para 
comear do que agora.
Na ida para o vernissage, Aria tinha que passar pela rua onde Ali vivera. L estava a casa dela, a mesma que estivera ali mais cedo. A casa de Spencer ficava ao 
lado, e a da famlia Cavanaugh, do outro lado da rua. Aria imaginou se Jenna estava l dentro, aprontando-se para seu primeiro dia de volta a Rosewood Day. Ela ouvira 
dizer que Jenna tinha aulas particulares todos os dias.
        No se passava um momento sem que Aria pensasse na ltima - e nica - vez em que ela e Jenna haviam conversado. Fora no ateli na Hollis, quando Aria tivera 
um ataque de pnico durante uma tempestade. Ela havia tentado se desculpar por tudo o que haviam feito naquela noite terrvel em que Jenna ficara cega, mas Jenna 
explicou que ela e Ali haviam combinado de lanar os rojes para que ela conseguisse se livrar de seu meio-irmo, Toby, de uma vez por todas. Ali havia concordado 
com o plano porque, aparentemente, ela tambm tinha problemas com seu irmo.
        Por um tempo, Aria ficou obcecada com o que problemas com o irmo queria dizer. Toby costumava tocar Jenna inapropriadamente - ser que o irmo de Ali, Jason, 
fazia a mesma coisa com ela? Mas Aria no suportava pensar nisso. Ela nunca sentira nada estranho entre Ali e Jason. Ele parecia sempre muito protetor.
        E foi ento que Aria entendeu tudo. Claro. Ali no tinha problemas com Jason. Ela havia simplesmente inventado isso tudo como uma forma de ganhar a confiana 
de Jenna e faz-la contar o que estava acontecendo. Ela fizera a mesma coisa com Aria, agindo com simpatia e doura quando ela e Aria flagraram Byron e Meredith 
se beijando no estacionamento de Hollis. Assim que descobriu algo embaraoso sobre Aria, Ali a ameaara com isso por meses a fio. E ela fizera a mesma coisa com 
outras amigas. O que no estava claro era o motivo de Ali se incomodar com algo que Jenna Cavanaugh escondia.
        Quinze minutos depois, Aria chegou  galeria. O vernissage estava sendo realizado em uma casa de fazenda antiga e imponente na floresta. Depois de estacionar 
o Subaru de Ella no aterro de areia grossa e sair do carro, Aria ouviu um burburinho. O cu estava muito escuro l fora.
        Alguma coisa gritou na floresta. E ento... mais gritos. Aria deu um passo para trs.
        - Ol? - chamou ela com calma.
        De trs de uma cerca velha de madeira, um par de olhos curiosos olhou de volta para ela. Por um momento, o corao de Aria parou. Mas ento ela percebeu 
que os olhos estavam circundados por pele branca. Era apenas uma alpaca. Logo vrias delas apareceram e vieram trotando at a cerca, batendo seus longos clios invejveis, 
Aria sorriu e respirou fundo, imaginando que a fazenda deveria ter um bando delas. Depois de meses sendo perseguida, era difcil afastar a sensao paranoica de 
que algum vigiava cada um de seus passos.
        O interior da casa da fazenda tinha cheiro de po fresco, e uma msica da Billie Holiday tocava baixinho. Uma garonete carregando uma grande bandeja de 
Bellinis passou por ela. Com um movimento rpido, Aria apanhou um copo. Depois de beber tudo, ela olhou em volta. Havia pelo menos cinquenta pinturas na parede, 
com pequenas placas indicando o ttulo da obra, o nome do autor e o preo. Mulheres esguias e com cabelos escuros de cortes retos andavam em grupos perto dos aperitivos. 
Um rapaz de culos de aros grossos conversava ansiosamente com uma mulher alta, que usava o cabelo vermelho bem armado. Um homem de olhos grandes e cabelos crespos 
bebia o que parecia ser um copo de Bourbon, sussurrando algo com a esposa, que era a cara de Sienna Miller.
        O corao de Aria batia descontrolado. Aqueles no eram os colecionadores locais habituais que iam a exposies de arte de Rosewood - pessoas como os pais 
de Spencer, que vestiam roupas caretas e usavam bolsas Chanel de milhares de dlares. Aria estava bem certa de que este era um mundo de arte autntico, talvez at 
vindo de Nova York.
        O vernissage era de trs artistas diferentes, mas a maioria dos espectadores reunia-se ao redor das pinturas abstratas de algum com o nome de Xavier Reeves. 
Aria andou at uma das peas que no tinha uma enorme quantidade de pessoas ao redor e assumiu sua melhor pose de crtica de arte - com a mo sob o queixo e franzindo 
o cenho como se estivesse mergulhada em pensamentos. A pintura era um crculo lils grande com um crculo menor, mais escuro, no meio.
        Interessante, pensou Aria. Mas honestamente... aquilo parecia um mamilo gigante.
        - O que voc achou das pinceladas? - murmurou algum atrs dela.
        Aria virou e encontrou os suaves olhos castanhos de um rapaz alto usando um suter listrado preto e jeans escuros. Um calafrio de excitao percorreu seu 
corpo, e fez os dedos dela formigarem dentro das sapatilhas. Com as mas do rosto proeminentes e um cabelo supercurto que formava um topete, ele fez Aria se lembrar 
de Sondre, um msico sexy que ela conhecera na Noruega no ano anterior. Ela e Sondre haviam passado horas em um pub de pescadores em Bergen, bebendo usque caseiro 
e inventando histrias sobre o peixe empalhado pendurado na parede de madeira do pub.
        Aria olhou para a pintura outra vez.
        - As pinceladas so muito... vigorosas. 
        -Verdade - concordou o rapaz. - E emocionais.
        - Definitivamente. - Aria estava extasiada de ter uma conversa de crtica de arte autntica, sobretudo com algum to bonito. Tambm era bom no estar rodeada 
das pessoas de Rosewood, nem ter que ouvir as fofocas constantes sobre o julgamento de Ian que estava por vir.
        Ela pensou em mais alguma coisa para dizer.
        - Essa pintura me faz pensar em...
        O garoto se inclinou para mais perto, sorrindo com desdm.
        - Amamentao, quem sabe?
        Aria arregalou os olhos, surpresa. Ento ela no era a nica que enxergava a semelhana.
        -  Parece um pouco com isto, no parece? - Ela sorriu. - Mas eu acho que devemos encarar de forma mais sria. A pintura  chamada de A Impossibilidade do 
meio do espao. Xavier Reeves provavelmente a pintou para representar solido. Ou a luta da classe proletria.
        -  Caramba. - O rapaz estava to perto de Aria que ela conseguia sentir o cheiro de chiclete de canela e Bellini em sua respirao. - Eu acho que isto significa 
que aquela ali chamada Tempos movidos  mo no  um pnis, no ?
        Uma mulher mais velha usando culos gatinho de vrias cores observava o quadro, chocada. Aria cobriu a boca para conter uma risada, percebendo uma sarda 
em forma de lua bem ao lado da orelha esquerda de seu novo amigo. Se ao menos ela no estivesse usando o mesmo suter verde de gola alta que usara durante todo o 
feriado! E ela nem limpara a mancha de queijo do fondue da gola, droga. 
        Ele terminou sua bebida.
        - E a, qual  o seu nome?
        - Aria. - Ela mordiscou de maneira recatada o mexedor que enfeitava seu Bellini.
        - Prazer em conhec-la, Aria.
        Um grupo de pessoas se aproximou, empurrando Aria e seu novo amigo para mais perto um do outro. Quando a mo do rapaz tocou a cintura de Aria, o calor subiu 
at o rosto dela. Ele a tocara acidentalmente... ou de propsito?
        Ele pegou mais duas bebidas e entregou uma a ela.
        -Voc trabalha por aqui ou ainda est na escola? 
        Aria abriu a boca, pensando em como deveria responder quela pergunta. Ficou imaginando que idade teria o rapaz. Ele parecia jovem o bastante para ser um 
estudante universitrio, e ela conseguia imagin-lo vivendo em uma das antigas e sofisticadas casas vitorianas perto da Universidade de Hollis. Mas ela havia feito 
a mesma suposio a respeito de Ezra tambm.
        Antes que Aria dissesse uma palavra, uma mulher vestindo um terninho de tweed feito sob medida, intrometeu-se entre eles. Com seu cabelo negro espetado, 
ela era mais do que um pouco parecida com Cruela Cruel, a vil de 101 Dlmatas.
        -Voc se importa se eu peg-lo emprestado? - Cruela enlaou o rapaz pelo brao.
        Ele deu um pequeno aperto no brao de Cruela. 
        - Oh, claro que no. - Aria deu um passo para trs, decepcionada.
        -  Desculpe pela interrupo - Cruela sorriu como que pedindo desculpas para Aria, com os lbios cobertos por um batom muito escuro, quase preto -, mas Xavier 
 muito solicitado, como voc sabe.
        Xavier? O estmago de Aria deu uma cambalhota. Ela agarrou o rapaz pelo brao livre.
        -  Voc ...o artista?
        Seu novo amigo parou. Havia um brilho ligeiramente perverso em seus olhos.
        - Culpado - disse ele, inclinando-se em sua direo. - E a propsito, a pintura realmente  um seio.
        Com isto, Cruela afastou Xavier.
        Ele saiu andando abraado com a mulher, e, demonstrando intimidade, sussurrou algo em seu ouvido. Os dois sorriram antes de marchar em direo  multido 
da elite da arte, onde todo mundo elogiava as brilhantes e inspiradoras pinturas de Xavier. Enquanto Xavier sorria e apertava as mos de seus admiradores, Aria desejava 
que houvesse um alapo no cho em que ela pudesse desaparecer. Ela havia quebrado a regra fundamental das exposies de arte - no fale sobre o trabalho com estranhos, 
levando em conta que voc nunca sabe quem  quem. E pelo amor de Deus, no ofenda uma obra-prima em ascenso.
        Mas, a julgar pelo pequeno sorriso zombeteiro que Xavier acabara de lanar em sua direo, talvez ele no tivesse se importado com sua interpretao. E isto, 
certamente, deixou Aria muito, muito feliz.
4
A TURMA DO FUNDO
Na segunda-feira pela manh, Spencer Hastings se curvou sobre sua carteira na aula de ingls avanado, rabiscando umas frases em seu ensaio sobre o livro O sol tambm 
se levanta. Ela quis acrescentar algumas anotaes de um dos ensaios crticos de Hemingway na parte de trs do livro em uma tentativa de conseguir alguns pontos 
extras com sua professora, a sra. Stafford. Na situao em que estava, Spencer precisava lutar por qualquer pontinho extra que pudesse conseguir. 
        O alto-falante na frente da sala estalou. 
        - Sra. Stafford - a voz do sr. Wagner, o secretrio da escola, ecoou na sala de aula -, a senhora poderia mandar Spencer Hastings  direo, por favor?
        Todos os treze alunos da classe ergueram os olhos de suas provas e encararam Spencer Como se ela tivesse ido para a escola apenas com o suti Eberjay azul 
rendado e com as calcinhas que comprara na Saks na promoo ps-Natal. A sra. Stafford, que era muito parecida com Martha Stewart, mas que, com certeza, nunca havia 
quebrado ovos ou bordado um avental em sua vida, abaixou sua cpia superdesgastada de Ulisses e disse:
        - Tudo bem, pode ir. - Lanando a Spencer um olhar de "O que ser que voc aprontou dessa vez?".
        E o pior  que Spencer s conseguia pensar nisso tambm.
        Ela se levantou e, fazendo a respirao pausada em cinco tempos que aprendera na ioga - inspira, respira -, colocou sua prova virada sobre a mesa da sra. 
Stafford. Ela no podia culpar sua professora por trat-la dessa forma. Spencer havia sido a primeira estudante de Rosewood Day a ser nomeada para o prmio de redao 
do Orqudea Dourada. Fora algo extraordinrio, grandioso o bastante para lev-la  pgina principal do Philadelphia Sentinel. Porm, na ltima etapa do concurso, 
quando o jri a chamou para informar que ela havia vencido, Spencer finalmente dissera a verdade - que havia roubado o trabalho de economia avanada de sua irm, 
Melissa. Agora, todos os outros professores desconfiavam que ela houvesse trapaceado nas matrias deles tambm. Ela no estava mais concorrendo para oradora da turma 
e a escola pedira que ela renunciasse como vice-presidente do conselho estudantil, desistisse de seu papel na montagem teatral daquele ano e abandonasse seu cargo 
de editora-chefe do Livro do Ano. Eles haviam inclusive ameaado expuls-la da escola, mas os pais de Spencer de alguma forma negociaram com a direo, algo que, 
ela imaginava, provavelmente envolvia uma gorda doao  Rosewood Day.
        Spencer entendia por que Rosewood Day no podia simplesmente ignorar tudo que ela fizera. Mas depois de todas as provas em que havia tirado nota mxima, 
depois de todos os comits que ela comandara, e depois da enorme quantidade de clubes que havia criado, ser que eles no podiam mesmo pegar mais leve com ela? Eles 
no se importavam com o fato de o corpo de Ali ter sido encontrado a poucos metros de seu quintal, nem que ela havia recebido mensagens terrveis da louca da Mona 
Vanderwaal, que tentava personificar sua velha amiga morta? Ou que Mona quase empurrara Spencer no precipcio da pedreira porque Spencer no concordara em agir como 
Mona vinha agindo - se passando por A -, ou que era por causa de Spencer que o assassino de Ali agora estava na cadeia? No. A nica coisa que importava era que 
Spencer havia sujado a imagem de Rosewood Day.
        Ela fechou a porta da sala, deixando a aula de ingls para trs e comeou a caminhar em direo  secretaria. O corredor tinha, como sempre, o cheiro de 
produto de limpeza com aroma de pinho e uma profuso de perfumes e colnias variados. Centenas de flocos de neve de papel cobertos de glitter estavam pendurados 
acima dela. Durante todo o ms de dezembro, o prdio do ensino fundamental de Rosewood Day sediava uma competio de flocos de neve recortados, e os flocos vencedores 
eram expostos no prdio do ensino fundamental e do ensino mdio durante todo o inverno. Spencer costumava ficar arrasada quando sua turma perdia - os juzes anunciavam 
o vencedor logo antes das frias de inverno, ento isto meio que arruinava o Natal. Nada mudara, Spencer ainda encarava cada derrota como algo esmagador. Ela ainda 
no se conformava com os fatos de Andrew Campbell ter sido eleito o presidente da turma em vez dela, de que Ali havia tomado o lugar que pertencia a ela no time 
de hquei no stimo ano, e de que no havia conseguido decorar uma parte da bandeira da Cpsula do Tempo no sexto ano. Ainda que a escola tivesse continuado a tradio 
mantendo a competio nos anos seguintes, nunca mais ela se importou tanto com aquilo quanto naquele primeiro ano em que ela pde participar. Bem, Ali tambm no 
conseguira decorar um pedao da bandeira no final das contas e isso, sem dvida, ajudara a suavizar o golpe.
        - Spencer? - Algum apareceu no corredor.
        Falando no diabo, Spencer pensou, mal-humorada. Era Andrew Campbell, o Senhor Presidente da Turma em pessoa.
        Andrew se aproximou dela, ajeitando seu cabelo louro e comprido atrs da orelha.
        - O que voc est fazendo vagando pelos corredores?
        O mesmo Andrew xereta de sempre. Ele estava, sem dvida, extasiado que Spencer no estivesse mais concorrendo ao posto de oradora da turma - a boneca vodu 
com o rosto dela, que Spencer tinha certeza que Andrew mantinha escondida embaixo da cama, sem dvida nenhuma havia ajudado na sua magia negra. Ele provavelmente 
achava que tudo pelo que ela estava passando era bem feito, no apenas por ter roubado o trabalho da irm, mas porque ela o convidara para o Baile Beneficente no 
outono passado e deu um fora nele assim que chegaram l.
        -  Esto me chamando na secretaria - disse Spencer distante, rezando do fundo do corao para que no fossem ms notcias. Ela apertou o passo, batendo os 
saltos grossos de suas botas no piso de madeira polida.
        - Eu tambm vou naquela direo -Andrew meio que cantarolou, andando ao lado dela. - O sr. Rosen quer conversar comigo sobre a viagem que eu fiz para a Grcia 
durante as frias.
        Sr. Rosen era o conselheiro da escola.
        - Eu fui para l com o Clube de Jovens Lderes da Filadlfia. Na verdade, pensei que voc tambm fosse.
        Spencer quis dar um tapa no rosto corado de Andrew. Depois do vexame no prmio Orqudea Dourada, o Clube de Jovens Lderes da Filadlfia - cuja sigla sempre 
fazia Spencer se lembrar do barulho de algum assoando o nariz - havia expulsado Spencer. E ela estava certa de que Andrew sabia disso muito bem.
        - Houve certo conflito de interesses - disse ela, sem dar mais detalhes, o que no deixava de ser verdade: ela tivera que ficar de castigo em casa enquanto 
seus pais foram para seu chal em Beaver Creek, Colorado. Eles nem se incomodaram em convidar Spencer.
        -Ah... -Andrew observou Spencer com curiosidade. - H algo... errado?
        Spencer parou de repente, atnita. Ela levantou as mos.
        -  claro que algo est errado. Tudo est errado. Feliz agora? 
        Andrew deu um passo para trs, piscando rapidamente. A compreenso aos poucos tomou conta de seu rosto.
        - Ah! Toda aquela histria do... Orqudea Dourada. Eu me esqueci disso. - Ele fez uma careta. - Sou um idiota.
        - Que seja. - Spencer rangeu os dentes. Ser que Andrew poderia mesmo ter esquecido o que acontecera a ela? Aquilo foi quase pior do que ter que ouvi-lo 
se gabando durante as frias de inverno inteiras. Ela olhou para um floco de neve cuidadosamente cortado sobre a fonte de gua defeituosa. Andrew costumava ser bom 
em recortar flocos de neve tambm. Desde sempre, o relacionamento deles havia sido uma guerrinha particular, uma eterna competio para ver quem conseguia ser o 
melhor em tudo.
        - Acho que simplesmente apaguei isso da cabea - disse Andrew sem pensar, falando cada vez mais alto. - Foi por isso que fiquei to surpreso quando no a 
vi na Grcia. Foi to ruim que voc no estivesse l. Ningum na viagem era realmente... eu no sei. Inteligente. Legal.
        Spencer mexeu nos penduricalhos em sua bolsa de couro. Esta era a coisa mais legal que algum lhe dizia nos ltimos tempos, mas era demais para ela suportar, 
principalmente vindo de Andrew.
        - Eu tenho que ir - disse ela, e se apressou pelo corredor at o gabinete do diretor.
        - Ele est esperando voc - disse a secretria quando Spencer entrou pela porta de vidro dupla. Spencer andou na direo do escritrio de Appleton, passando 
pelo tubaro de papel mach que fora largado ali depois do ltimo desfile do Dia dos Fundadores. O que Appleton queria com ela, afinal? Talvez tivesse percebido 
que havia sido muito severo e estivesse pronto para se desculpar. Talvez ele quisesse restabelecer o lugar dela na hierarquia da classe ou fosse finalmente deix-la 
participar da pea. O clube de teatro planejara encenar A tempestade, mas logo antes das frias de inverno, Rosewood Day comunicou a Christophe Briggs, o diretor, 
que ele no estava autorizado a usar gua ou pirotecnia em cena para reproduzir a tempestade caracterstica da pea. Christophe, fazendo uma tempestade particular, 
cancelara a apresentao da pea e comeara a preparar o elenco para Hamlet. J que todos os alunos estavam ensaiando para seus novos papis, todo o tempo que Spencer 
perdera no faria diferena.
        Quando ela fechou cuidadosamente a porta de Appleton atrs de si e se virou, seu sangue se transformou em gelo. Seus pais estavam sentados lado a lado em 
cadeiras de couro pomposas. Veronica Hastings usava um vestido de veludo negro, o cabelo preso para trs com uma faixa aveludada, o rosto inchado e vermelho de tanto 
chorar. Peter Hastings usava um terno de trs peas e mocassins reluzentes. Cerrava os msculos do maxilar com tanta fora que eles davam a impresso de que poderiam 
estalar.
        - Ah... - disse Appleton, levantando-se de sua cadeira.  - Vou deix-los  vontade. - Ele saiu do gabinete parecendo contrariado e fechou a porta.
        Os ouvidos de Spencer estranharam o silncio.
        - O-o que est acontecendo? - perguntou ela, sentando-se devagar em uma cadeira.
        Seu pai se mexeu desconfortavelmente.
        - Spencer, sua av morreu esta manh. 
        Spencer piscou.
        - Nana?
        - Sim - disse a me de Spencer com calma. - Ela teve um ataque cardaco. - Ela entrelaou as mos no colo, bancando a mulher de negcios. - A leitura do 
testamento ser amanh porque seu pai precisa voar para a Flrida e cuidar do esplio antes do funeral na prxima segunda.
        - Oh, meu Deus - sussurrou Spencer, abatida.
        Ela se sentou quieta, aguardando as lgrimas descerem. Quando havia sido a ltima vez que vira Nana? Eles estiveram na casa dela em Cape May, Nova Jersey, 
alguns meses antes, mas Nana estava na Flrida - ela no ia para o norte havia anos. A verdade era que Spencer teve que suportar muitas outras mortes nos ltimos 
tempos, e de pessoas muito mais jovens. Nana vivera noventa e um anos ricos e felizes. Alm disto, Nana no fora uma vovozinha de contos de fadas. Claro, ela havia 
sido generosa ao construir um quarto de brinquedos enorme para Spencer e Melissa na casa de Cape May, equipando-o com casas de bonecas, com a coleo de Meu Querido 
Pnei e grandes baldes com peas de Lego. Mas Nana sempre enrijecia quando Spencer tentava abra-la, nunca queria ver os cartes desleixados que Spencer fazia em 
seu aniversrio e grunhia a respeito dos avies de Lego que a neta carregava para fora do quarto de brinquedos e deixava sobre o piano meia cauda Steinway.s vezes 
Spencer se perguntava se Nana gostava mesmo de crianas ou se o quarto havia sido apenas uma forma de se livrar das netas.
        A sra. Hastings tomou um grande gole de seu latte da Starbucks.
        - Ns estvamos em uma reunio com Appleton quando recebemos a notcia - disse ela, depois de beber.
        Spencer ficou tensa. Seus pais j estavam ali?
        - E eu era o assunto?
        - No - respondeu a sra. Hastings prontamente. 
        Spencer deixou escapar uma fungada ruidosa.
        Sua me fechou a bolsa e ficou de p, e seu pai a seguiu. O sr. Hastings checou o relgio.
        - Bem, eu tenho que voltar.
        Uma onda de dor percorreu o corpo de Spencer. Tudo o que ela queria era que os pais a confortassem, mas eles estavam frios e distantes com ela fazia meses, 
tudo por causa do escndalo do Orqudea Dourada. Mesmo depois de descobrirem que Spencer roubara o trabalho de Melissa, seus pais queriam que ela guardasse segredo 
e recebesse o prmio de qualquer forma. No que estivessem admitindo isto agora. Quando Spencer confessou a verdade, eles fingiram estar chocados pela notcia.
        - Me? - Sua voz soou embargada. - Pai? Vocs poderiam talvez... ficar mais alguns minutos?
        Sua me parou por um instante e o corao de Spencer se encheu de esperana. Em seguida, a sra. Hastings ajeitou seu cachecol de cashmere em volta do pescoo, 
tomou a mo do sr. Hastings e se dirigiu para a porta, deixando Spencer sozinha na sala.
5
TROCA DE GUARDA
Na hora do almoo na segunda-feira, Hanna passou pelo corredor das salas de artes na direo de seu curso avanado sobre tecidos. No havia nada como comear um 
semestre novo parecendo muito, muito ameaadora. Ela perdera dois quilos nas frias e seu cabelo ruivo brilhava como nunca, graas ao tratamento de hidratao profunda 
de ylang-ylang que ela pagara com o carto de crdito s-para-emergncias do pai. Um grupo de garotos usando camisetas idnticas do time de hquei no gelo de Rosewood 
Day esticaram o pescoo para fora de seus armrios e devoraram Hanna com os olhos quando ela passou por eles. Um deles chegou mesmo a assobiar.
         isso a, Hanna deu um sorriso malicioso, acenando para eles. Ela ainda estava podendo.
        Claro, havia algumas vezes em que no se sentia assim to fabulosa, to senhora do Reino Encantado de Hanna. Por exemplo, naquele instante: o almoo era 
o momento do dia da escola em que todo mundo aparecia para ver e ser visto, mas Hanna no estava certa se deveria ir at a cafeteria. Pensou que fosse almoar com 
Lucas, mas ele estava no grupo de debate. Em outros tempos, ela e Mona sentariam no Steam, bebericando Americanos e criticando as bolsas e os sapatos de todo mundo. 
Em seguida, depois de terem consumido seus iogurtes Splenda e suas Smart Waters, elas reivindicariam lugares especiais em frente aos espelhos do banheiro que servia 
s salas de aula de ingls para retocar a maquiagem. Mas naquele dia ela evitara estes lugares. Parecia desesperador se sentar  mesa do caf sozinha, e a maquiagem 
dela no precisava mesmo de retoque.
        Ela suspirou, olhando com inveja para um grupo de garotas animadas indo para a cafeteria, desejando poder se juntar a elas por ao menos alguns minutos. Mas 
este sempre fora o problema de sua amizade com Mona - nunca houvera lugar para mais ningum. E agora Hanna no conseguia afastar a sensao inoportuna de que a escola 
toda pensava nela como A Garota que a Prpria Melhor Amiga Tentou Matar.
        - Hanna! - chamou uma voz. - Ei, Hanna!
        Hanna parou para estudar aquela figura alta e esguia que acenava para ela.
        Ela sentiu um gosto amargo na boca.
        Kate.
        Era mais do que nauseante ver Kate no blazer azul-marinho e na saia xadrez de Rosewood Day. Hanna quis correr na direo contrria, mas Kate se aproximou 
dela em alta velocidade, dando passos largos e resolutos com inacreditvel segurana para quem usava botas com saltos de sete centmetros. O rosto dela parecia to 
meigo e alegre quanto o de uma princesa de um desenho animado da Disney e sua respirao recendia a chicletes Listerine para melhorar o hlito.
        - Procurei voc por todo canto!
        - H... - grunhiu Hanna, buscando ao redor algum que as interrompesse. Ela falaria com qualquer um, com aquele idiota do Mike Montgomery ou at mesmo 
seu pudico-defensor-da-virgindade-e-ex-namorado, Sean Ackard. Mas as nicas pessoas no corredor eram os membros do madrigal, e eles haviam acabado de comear um 
canto gregoriano improvisado. Malucos. Depois, pelo canto dos olhos, ela viu uma garota alta, bonita, de cabelos negros, que, usando enormes culos Gucci, passou 
perto dela, o co guia ao seu lado.
        Jenna Cavanaugh.
        Um arrepio percorreu Hanna. Havia tanto a respeito de Jenna que ela nunca soubera. Jenna e Mona tinham sido amigas, e Mona havia at mesmo ido at a casa 
dos Cavanaugh para visitar Jenna na noite em que ela ficou cega com os fogos de artifcio. Isto significava que Mona sabia a respeito da coisa terrvel que elas 
haviam feito com Jenna o tempo inteiro em que ela e Hanna foram melhores amigas. Era quase inconcebvel imaginar aquilo. Todas aquelas horas que Mona havia passado 
na casa de Hanna, todas as viagens de frias de primavera para o Caribe, todas aquelas sesses de compras e de embelezamento em spas que supostamente deveriam servir 
para fortalecer a amizade delas... e Hanna jamais suspeitara que os fogos de artifcio que cegaram Jenna houvessem queimado Mona tambm.
        - O que voc vai fazer na hora do almoo? - perguntou Kate, fazendo Hanna pular. -  um bom momento para um passeio.
        Hanna comeou a andar outra vez.
        - Estou ocupada - respondeu Hanna de maneira arrogante. Que se dane o discursinho do seu pai sobre "tratar Kate como se fosse da famlia". - V at a secretaria 
e diga que voc est perdida. Eu tenho certeza de que eles podem desenhar um mapa para voc.
        Com isto, ela tentou desviar da meia-irm, mas Kate permaneceu com ela. Hanna sentiu o cheiro forte do sabonete em gel com aroma de pssego de Kate. Pssego 
falso, Hanna decidiu, era o aroma de que menos gostava no mundo.
        - O que acha de um caf? - disse Kate com firmeza. - Por minha conta.
        Hanna estreitou os olhos. Kate seria uma idiota se pensasse que podia ganhar Hanna pela bajulao.
        Quando ela e Mona se tornaram amigas no comeo do oitavo ano, Mona conquistara Hanna pela bajulao - e olha s no que deu. Mas ainda que a expresso de 
Kate fosse irritantemente amigvel, era bvio que ela no aceitaria um no como resposta. Algo ocorreu a Hanna: se tratasse Kate muito mal, ela poderia fazer fofoca 
de novo para o sr. Marin, como fizera no outono passado durante o jantar no Le Bec-Fin.
        Hanna deixou escapar um suspiro ruidoso e jogou o cabelo sobre o ombro.
        - Tudo bem.
        Elas foram ao Steam, que ficava apenas a algumas portas de distncia. Panic at the Disco! estava tocando, as duas mquinas de espresso funcionando e as mesas 
estavam lotadas de estudantes. O clube de teatro reunia-se a um canto, falando sobre as audies para os papis de Hamlet. Agora que Spencer Hastings fora barrada 
na pea, Hanna ouvira que uma secundarista talentosa chamada Nora tinha grandes chances de conseguir o papel de Oflia. Havia algumas garotas mais novas de boca 
aberta com um folheto antigo sobre o perseguidor de Rosewood, que no havia dado sinal de vida desde que toda aquela histria com A terminara - a polcia achava 
que Mona estava por trs disso tambm. Um grupo de garotos estava inclinado diante de um dos monitores de computador.
        Hanna pareceu sentir os olhos deles queimando em suas costas, mas quando se virou para acenar, eles no estavam olhando para ela. Olhavam para a linda, magra, 
de bumbum torneado e Suti-Tamanho-C Kate.
        Quando elas entraram na fila e Kate estudava o cardpio, Hanna ouviu sussurros altos no outro lado. Ela se virou. Naomi Zeigler e Riley Wolfe - suas inimigas 
mais antigas e nojentas - olharam para Hanna da grande mesa de madeira de quatro lugares que costumava ser a favorita de Hanna e Mona.
        -  Oi, Hanna - provocou Naomi, acenando. Ela fizera no cabelo um corte curto e desgrenhado durante as frias. O estilo era parecido com o de Agyness Deyn, 
mas o corte-marca-registrada da supermodelo fazia Naomi parecer uma idiota.
        Riley Wolfe, cujo cabelo cor de cobre estava enrolado num coque apertado de bailarina tambm acenou. Seus olhos foram direto para a cicatriz em formato de 
Z no queixo de Hanna.
        Hanna queimava por dentro, mas resistiu  tentao de esconder a cicatriz com a mo. Nenhum tratamento a laser megacaro, base ou p de arroz conseguiram 
faz-la desaparecer completamente.
        Kate seguiu o olhar de Hanna pelo lugar.
        -  Oh! Aquela garota loura est na minha aula de francs. Ela parece ser superlegal. So amigas suas?
        Antes que Hanna pudesse dizer de jeito nenhum, Naomi estava acenando para Kate e articulando um 'Oi querida!' sem som. Kate foi rebolando at a mesa delas. 
Hanna recuou alguns passos, fingindo estar realmente interessada no cardpio, embora ela o tivesse memorizado. No que ela se importasse com o que Naomi e Riley 
falavam com Kate. No era como se elas fossem importantes.
        -Voc  nova, certo? - perguntou Naomi a Kate quando ela se aproximou.
        - Sim - disse Kate com um sorriso enorme. - Kate Randall. Eu sou meia-irm de Hanna. Bem, futura meia-irm. Acabei de me mudar para c, vim de Annapolis.
        -  Ns no sabamos que Hanna tinha uma futura meia-irm! - O sorriso de Naomi fazia Hanna se lembrar de uma assustadora lanterna de abbora do dia das bruxas.
        -  Ela tem. - Kate abriu seus braos de maneira teatral. - Moi.
        -  Eu adoro estas botas. - Riley apontou para os ps de Kate. - Elas so Marc Jacobs?
        -Vintage... comprei em Paris.
        Oh, eu sou to especial. Eu estive em Paris, pensou Hanna.
        - Mason Byers estava perguntando sobre voc. - Riley lanou a Kate um olhar astuto.
        Os olhos de Kate brilharam.
        - Qual deles  Mason?
        - Ele  um gato - disse Naomi. -Voc quer sentar com a gente?
        Ela se virou para trs e roubou uma cadeira da mesa de umas garotas ao lado, jogando descuidadamente a mochila de algum no cho. Kate olhou para Hanna por 
sobre os ombros, erguendo uma sobrancelha como quem diz Por que no? Hanna se afastou com um grande passo, balanando a cabea com fora.
        Riley franziu seus lbios reluzentes.
        -Voc  boa demais para sentar conosco, Hanna? - Sua voz estava repleta de sarcasmo. - Ou est em uma dieta de amigas depois que Mona se foi?
        - Talvez ela esteja em uma limpeza de amigas - sugeriu Naomi, cutucando Riley furtivamente.
        Kate olhou para Hanna, depois de volta para Naomi e Riley. Parecia que estava se perguntando se deveria sorrir ou no. O peito de Hanna ficou apertado, como 
se seu suti tivesse encolhido trs nmeros.
        Tentando ao mximo ignor-las, ela se virou, jogou o cabelo e andou de maneira pomposa na direo do corredor lotado. Uma vez a salvo no meio da multido 
que saa da cafeteria, sua compostura se desfez. Dieta de amigas. Limpeza de amigas. Deixe que Kate vire amiga instantnea das idiotas que ela mais odiava no mundo. 
Agora, Naomi e Riley estavam provavelmente contando a Kate sobre o dia em que A havia feito Hanna contar a elas sobre seus distrbios alimentares e que Sean Ackard 
a rejeitara quando ela props que ele fizesse sexo com ela na festa de Noel Kahn. Hanna conseguia visualizar Kate jogando a cabea para trs e dando gargalhada, 
tornando-se instantaneamente a melhor amiga daquelas duas idiotas.
        Furiosa, Hanna seguiu pelo corredor de volta para a aula sobre tecidos, empurrando um calouro lento para fora de seu caminho. Embora ela devesse estar odiando 
Mona por tudo que fizera, a verdade  que Hanna teria dado qualquer coisa para t-la de volta naquele exato momento. Poucos meses antes, quando Naomi e Riley a provocaram 
a respeito de seus distrbios alimentares, Mona rapidamente se intrometera, fazendo com que se calassem e lembrando a elas quem estava realmente no comando em Rosewood 
Day. Fora uma coisa linda de se ver.
        Infelizmente, no havia melhor amiga para proteger Hanna agora. E talvez nunca mais houvesse uma. Nunca mais.
6
O MILAGRE DA IGREJA DE EMILY
Segunda de manh depois do treino de natao, Emily subiu as escadas para o quarto que ela e a irm dividiam, bateu na porta e pulou na cama. O treino no fora muito 
cansativo, mas ela se sentia to exausta que era como se tivesse levado uma surra.
        Ligou o rdio e girou o boto. Enquanto passava pelas estaes de notcias, ouviu um nome assustador e familiar, e parou.
        - O julgamento de Ian Thomas comea na sexta pela manh em Rosewood - dizia pausadamente uma reprter eficiente -, entretanto, o sr. Thomas nega com firmeza 
ter algum envolvimento na morte de Alison DiLaurentis. Algumas fontes prximas  Procuradoria do Distrito dizem que talvez seu caso nem sequer v a julgamento devido 
 falta de evidncias.
        Emily sentou na cama, sentindo-se zonza. Falta de evidncias?  claro que Ian estava negando ter matado Ali de forma veemente, mas como algum poderia acreditar 
nele? Especialmente com o testemunho de Spencer. Emily pensou em uma entrevista on-line que ela descobrira algumas semanas antes, dada por Ian na priso de Chester 
County. Ele repetia continuamente:
        - Eu no matei Alison. Por que as pessoas pensam que eu a matei? Por que algum diria isto?
        Gotas de suor brotavam em sua testa e ele parecia plido e magro. Bem no fim da entrevista, Ian ainda disse:
        - Algum me quer preso aqui. Algum est escondendo a verdade. Eles vo pagar.
        No dia seguinte, quando Emily entrou na internet outra vez para assistir ao vdeo, ele havia sido retirado.
        Ela aumentou o volume do rdio, esperando que o noticirio desse mais informaes, mas a programao da estao j havia mudado para um boletim de trnsito 
da Shadow Traffic. Houve uma batida suave na porta do quarto. A sra. Fields colocou sua cabea para dentro.
        - O jantar est pronto. Eu fiz macarro com queijo.
        Emily colocou sua morsa de pelcia favorita sobre o peito.
        Geralmente ela seria capaz de comer toda a tigela do macarro com queijo da me, mas desta vez seu estmago parecia inchado e irritado.
        - No estou com fome - murmurou.
        A sra. Fields entrou no quarto, enxugando as mos no avental com estampa de galinha.         -Voc est bem?
        - Ah - mentiu Emily, tentando dar um sorriso encorajador.
        Mas durante todo o dia, ela lutara contra o choro. Tentara ser forte quando eles fizeram o ritual de despedida de Ali no dia anterior, mas no muito l no 
fundo, odiava saber que Ali estava morta e enterrada. Ponto. O fim. Finito. Emily no conseguia nem mesmo contar quantas vezes sentira essa vontade gigante de sair 
correndo da escola, dirigir at a casa de Spencer, cavar um buraco e tirar dali o porta-moedas que ganhara de Ali, para nunca mais na vida perd-lo de vista.
        Mais do que isso, estar de volta a Rosewood Day era simplesmente... desconfortvel. Emily havia passado o dia inteiro se esquivando de Maya, com medo de 
um confronto. E estava s fazendo figurao nos treinos da equipe de natao. Ela no conseguira se livrar de sua enorme vontade de jogar tudo para o alto, e seu 
ex-namorado Ben e seu melhor amigo, Seth Cardiff, continuaram sorrindo com desdm para ela, alm de bombarde-la com olhares maldosos e cheios de rancor, que indicavam 
que eles no aprovavam o fato de Emily preferir garotas a garotos.
        A sra. Fields franziu os lbios, fazendo sua expresso eu no caio nessa. Ela apertou a mo de Emily.
        - Por que voc no vai  reunio para arrecadao de fundos da Santssima Trindade comigo esta noite?
        Emily ergueu uma sobrancelha desconfiada. 
        -Voc quer que eu v a uma reunio da igreja? 
        Pelo que Emily sabia, igrejas catlicas e lsbicas combinavam tanto quanto listras e xadrez.
        - O padre Tyson perguntou por voc - disse a sra. Fields -, no tem nada a ver com aquela histria de voc ser gay - acrescentou ela rapidamente. - Ele estava 
preocupado com voc depois do que aconteceu com Mona no semestre passado. E a reunio ser divertida... vai haver msica e um leilo. Talvez voc se sinta bem s 
por estar de volta  igreja.
        Emily se deixou ficar com a cabea recostada no ombro da me, cheia de ternura. Poucos meses antes, sua me nem sequer falaria com ela, muito menos a convidaria 
para acompanh-la  igreja. Ela estava felicssima por estar dormindo em sua cama confortvel em Rosewood em vez de tentar se ajeitar em uma cama de armar na casa 
de fazenda gelada de seus tios muito puritanos em Iowa, onde Emily fora enviada para exorcizar o que a famlia considerou como seus "demnios gays". E ela estava 
to feliz que Carolyn voltara a dormir no quarto que sempre dividiram, e no em outro canto da casa como antes, com medo dos germes lsbicos de Emily. Pouco importava 
que Emily no estivesse mais apaixonada por Maya. Nem importava que a escola inteira soubesse que ela era gay ou um bando de garotos a seguisse esperando surpreend-la 
aos beijos com outra menina. Porque, voc sabe, lsbicas fazem isto o tempo inteiro.
        Mas o importante era que sua famlia estava comeando a aceitar a situao... do jeito dela. No Natal, Carolyn dera a Emily um pster da campe olmpica 
Amanda Beard num mai de competio de duas peas da TYR para que ela colocasse no lugar do pster antigo de Michael Phelps usando uma sunguinha apertada da Speedo. 
O pai de Emily lhe dera uma grande lata de ch de jasmim porque lera na internet que "Ah.. garotas como voc..." preferiam ch a caf. Jake e Beth, seus irmos mais 
velhos, haviam feito uma vaquinha e dado a ela a srie The L World em DVD. Eles inclusive se ofereceram para assistir a alguns episdios com Emily depois da ceia 
de Natal. Seus esforos fizeram Emily se sentir desconfortvel - ela ficou vermelha s de pensar em seu pai lendo sobre homossexualidade na internet - mas tambm 
muito feliz.
        A guinada de cento e oitenta graus na atitude de sua famlia fez Emily tentar se esforar mais para agrad-los tambm. E talvez sua me estivesse tramando 
alguma coisa. Tudo o que Emily queria era que sua vida voltasse a ser o que era antes de toda essa histria com A acontecer. Sua famlia frequentava a Santssima 
Trindade, a maior igreja catlica de Rosewood, desde que ela conseguia lembrar. Talvez isto pudesse faz-la se sentir melhor.
        -Tudo bem - disse Emily, pulando da cama. - Eu vou.
        - timo. - A sra. Fields sorriu. - Samos em quarenta e cinco minutos.
        Dito isso, a me de Emily deixou o quarto e a garota se levantou e foi at a janela grande, onde apoiou os cotovelos no parapeito. A lua era visvel por 
sobre as rvores, os milharais escuros atrs de sua casa estavam cobertos de neve intocada e uma folha espessa de gelo cobria o telhado do balano em formato de 
castelo de seus vizinhos.
        De repente, algo branco se moveu atravs de uma fileira de talos de milho mortos. Emily ficou atenta, tremendo, cada nervo de seu corpo alerta. Ela disse 
a si mesma que era apenas um cervo, mas era impossvel ter certeza. Porque quando ela tentou focar melhor a viso, havia apenas escurido.
A Santssima Trindade era uma das igrejas mais antigas de Rosewood. Seu prdio era feito de pedra fragmentada, e as lpides espalhadas pelo pequeno cemitrio na 
parte de trs do terreno faziam Emily lembrar-se de fileiras de dentes tortos. Perto do Dia das Bruxas no stimo ano, Ali havia contado a elas uma histria assustadora 
sobre uma garota que assombrava os sonhos de sua irm mais nova. Ela havia desafiado Emily e as outras a irem escondidas ao cemitrio  meia-noite e entoar "os ossos 
da minha irm morta" vinte vezes, sem gritar ou fugir. Apenas Hanna, que teria corrido nua pelo ptio de Rosewood Day para provar a Ali que era descolada, conseguira 
completar a tarefa.
        O interior da igreja tinha exatamente o mesmo cheiro de que Emily se lembrava, uma estranha mistura de mofo, carne assada e xixi de gato. Os mesmos vitrais 
bonitos, ainda que um pouco assustadores, todos retratando histrias bblicas, revestiam as paredes e o teto. Emily imaginou se Deus, Ele ou Ela, observava a congregao 
naquele momento, assustado com a presena de Emily num lugar to sagrado. Ela esperava que Ele no enviasse a Rosewood uma nuvem de gafanhotos por causa disso. A 
sra. Fields acenou para o padre Tyson, o gentil sacerdote de cabelos brancos que havia batizado Emily, falado a ela sobre os Dez Mandamentos, e transmitido-lhe seu 
amor pela trilogia O senhor dos anis. Depois, ela pegou dois cafs no quiosque que havia sido montado perto de uma grande esttua da Virgem Maria e conduziu Emily 
na direo do palco.
        Depois que elas se acomodaram num banco atrs de um homem alto e de seus dois filhos, a sra. Fields olhou para o programa musical.
        - A banda que vai tocar agora se chama Carpe Diem. Oh, que coisa boa! Os integrantes da banda so alunos do primeiro ano da Academia da Santssima Trindade.
        Emily gemeu de desgosto. Entre o quarto e o quinto ano, seus pais a enviaram para o Acampamento dos Pinheiros, um acampamento bblico. Jeffrey Kane, um dos 
conselheiros, tinha uma banda, e eles tocaram na ltima noite do acampamento. Eles s tocavam msica religiosa, e Jeffrey fazia as caretas mais ridculas e patticas 
enquanto tocava, como se tivesse tendo algum tipo de epifania divina. Emily tinha certeza de que uma banda de escola catlica chamada Carpe Diem seria a mesma coisa.
        Acordes metlicos comearam a ser ouvidos. A viso que elas tinham do palco estava parcialmente bloqueada por um amplificador grande, por isso Emily via 
apenas um rapaz de cabelos bagunados tocando percusso. Conforme a msica evolua, a banda Carpe Diem parecia mais chegada ao rock-emo do que  msica de igreja. 
E quando o cantor comeou o primeiro verso, Emily se surpreendeu ao constatar que a voz dele era... boa.
        Ela saiu de trs do homem com os filhos para ter uma viso melhor da banda. Um rapaz magro, com um violo pendurado no ombro estava diante do microfone. 
Vestia uma camiseta surrada cor de aveia, jeans escuros e um par de tnis vinho do tipo que os skatistas usam, igual ao de Emily. Aquela era mais uma tima surpresa: 
ela esperara que o cantor fosse um clone de Jeffrey Kane.
        Uma garota que estava perto dela comeou a cantarolar a msica. Ouvindo a letra, Emily logo percebeu que eles estavam tocando sua msica favorita da Avril 
Lavigne, Nobody's Home. Ela escutara essa msica uma poro de vezes na viagem de avio para Iowa, sentido que ela era a garota vazia e confusa da qual Avril estava 
falando.
        Quando a banda terminou a msica, o cantor deu um passo para trs e olhou para o pblico. Seus olhos azul-claros pousaram em Emily, e ele sorriu. De repente, 
ela foi atingida por uma carga eltrica que comeava no alto de sua cabea e seguia at a ponta de seus ps. Era como se seu caf tivesse sido turbinado com dez 
vezes mais cafena do que o habitual. Emily olhou discretamente para o lado. Sua me tinha ido at o quiosque de caf para conversar com suas amigas do coral, a 
sra. Jamison e a sra. Hart. Um bando de senhoras empertigadas sentou-se no banco como se aquilo fosse um servio de igreja, olhando confusas para o palco. O padre 
Tyson estava perto do confessionrio, dobrando-se de rir com algo que um homem havia acabado de dizer. Era incrvel como ningum havia testemunhado o que acabara 
de acontecer. Ela havia se sentido atingida por esse tipo de golpe duas vezes antes. A primeira vez foi quando beijou Ali na casa da rvore no stimo ano. A segunda 
foi quando beijou Maya na cabine de fotos na festa de Noel Kahn no outono passado. Mas dessa vez era provavelmente uma reao por ter nadado tanto no treino. Ou 
uma reao alrgica ao novo sabor da barrinha de protena que comera antes da aula.
        O cantor colocou seu violo em um descanso e acenou para as pessoas.
        - Eu sou Isaac e estes so Keith e Chris - disse ele, gesticulando na direo de seus companheiros de banda. - Ns vamos fazer uma pausa rpida, mas voltaremos.
        Quando Isaac ficou de p, ele olhou para Emily outra vez e deu um passo na direo dela. O corao de Emily deu uma cambalhota e ela levantou a mo para 
acenar para ele, mas logo depois o baterista deixou cair um dos pratos. Isaac voltou para sua banda.
        - Seu retardado - disse Isaac com uma risada, batendo no ombro do baterista antes de seguir os outros garotos por uma cortina rosa-claro que os levava para 
os bastidores improvisados.
        Emily rangeu os dentes. Por que ela acenara?
        - Voc o conhece? - perguntou uma voz cheia de inveja atrs dela.
        Emily se virou.
        Duas garotas vestidas com o uniforme da Academia da Santssima Trindade - blusas brancas e saias plissadas pretas -estavam olhando para ela.
        - H... No - respondeu Emily.
        As garotas viraram uma para a outra, satisfeitas.
        -  Isaac est na minha turma de matemtica - guinchou a garota loura para sua amiga. - Ele  to misterioso. Eu nem sabia que tinha uma banda.
        -  Ele tem namorada? - murmurou a amiga de cabelo preto.
        Emily se ajeitou para no perder nada. Elas eram verses de escola catlica de Hanna Marin: supermagras, com cabelos longos e lisos, maquiagem perfeita e 
bolsas Coach combinando. Emily tocou seu prprio cabelo encrespado pelo cloro e sem brilho e alisou sua cala cqui da Old Navy, que era pelo menos um tamanho maior. 
Repentinamente se arrependeu de no ter colocado nenhuma maquiagem - ela no costumava usar mesmo.
        No havia,  claro, nenhuma razo para ela achar que estava competindo com aquelas garotas. No era como se Emily gostasse daquele rapaz, Isaac. Aquela sensao 
eletrizante que passara por ela, e ainda ressoava na ponta de seus dedos, havia sido apenas um... acaso feliz. Um raio, algo que no cairia duas vezes no mesmo lugar. 
Sim, era isto. E foi a que Emily sentiu algum bater em seu ombro. Ela se assustou e virou.
        Era Isaac.
        E ele sorria para ela.
        -Oi.
        - Hum... oi - disse Emily, ignorando a vibrao no peito. - Eu sou Emily.
        - Isaac.
        Assim de perto, ele cheirava a xampu de laranja Body Shop - o mesmo que Emily havia usado por anos.
        - Eu adorei sua verso de Nobody's Home - disse Emily antes que pudesse se conter. - Esta msica realmente me ajudou a superar uma viagem que fiz para Iowa.
        - Iowa, hum? Imagino que deva ser barra-pesada l - brincou ele.- Eu fui com meu grupo jovem uma vez. Por que voc foi para l?
        Emily hesitou, coando a nuca. Ela podia sentir as garotas da escola catlica olhando. Talvez tivesse sido um erro ter trazido Iowa  tona - ou admitir que 
ela se identificara com a letra to desesperada e to carregada de desamparado daquela msica.
        - Oh, apenas visitando a famlia - respondeu ela por fim, brincando com a borda de seu copo de plstico cheio de caf. - Meus tios moram numa fazenda prxima 
a Des Moines.
        - Saquei - disse Isaac. Ele deu espao para que um bando de crianas do jardim de infncia passasse. - Sei o que voc disse sobre se identificar com a msica. 
No comeo, riram de mim porque eu estava cantando sobre uma garota, mas agora acho que a msica se aplica a todo mundo.  porque... todos temos esses sentimentos 
que nos fazem dizer "onde eu me encaixo?" e "por que eu no consigo encontrar ningum para conversar?". Acho que todo mundo sente isso de tempos em tempos.
        - Eu tambm - concordou Emily, grata porque algum se sentia do mesmo jeito que ela. Ela olhou por sobre o ombro para sua me. Ela ainda estava absorta na 
conversa com suas amigas perto do quiosque de caf. O que era bom, Emily no tinha certeza se conseguiria administrar a curiosidade da me neste momento.
        Isaac tamborilou os dedos no desgastado banco da igreja perto deles.
        -Voc no estuda na Academia da Santssima Trindade.
        Emily balanou a cabea.
        - Rosewood Day.
        - Ah! - Isaac baixou a cabea, tmido. - Escute, tenho que voltar para o palco em um minuto, mas talvez voc queira conversar sobre msica e coisas assim 
em outra hora. Jantar? Sair para dar uma volta? Voc sabe, tipo um encontro.
        Emily quase se engasgou com o caf. Como um;.. encontro? Ela queria alert-lo - ela no namorava rapazes -, mas era como se os msculos de sua boca no soubessem 
como formular aquelas palavras.
        - Dar uma volta, neste tempo? - ela deixou escapar, apontando para a neve que forrava os vitrais.
        - Por que no? - Isaac deu de ombros. - Talvez ns pudssemos andar de tren. Eu tenho trens, e h uma enorme colina atrs de Hollis.
        Emily arregalou os olhos.
        - Voc quer dizer a colina grande atrs do edifcio industrial? 
        Isaac tirou o cabelo da testa e assentiu.
        - Essa.
        - Eu costumava levar minhas amigas l sempre.
        Uma das lembranas de inverno mais queridas para Emily era de quando Ali, ela e as outras andavam de trens na Colina Hollis. Ali considerava andar de tren 
uma bobagem depois do sexto ano, e Emily nunca mais encontrou algum que quisesse ir com ela. Depois de respirar fundo, Emily disse:
        - Eu adoraria ir com voc. 
        Os olhos de Isaac brilharam.
        - timo!
        Eles trocaram seus nmeros de telefones, o que deixou as meninas da Santssima Trindade Sagrada boquiabertas. Quando Isaac acenou se despedindo e Emily foi 
na direo de sua me e suas amigas do coral, ela ficou pensando no que tinha acabado de aceitar. Ela no poderia ter acabado de marcar um encontro com ele. Eles 
iam sair, sim, mas como amigos. Ela iria coloc-lo na linha - por assim dizer - na prxima vez que o visse.
        S que quando Emily observou Isaac se afastar no meio das pessoas, parando com frequncia para conversar com outras crianas ou membros da congregao, ela 
no teve certeza se queria que eles fossem apenas amigos.
        De repente, ela no tinha certeza alguma do que queria.
7
UMA GRANDE FAMLIA HASTINGS FELIZ
No comeo da manh de tera-feira, Spencer seguiu sua irm pelos degraus do frum de Rosewood, o vento batendo em suas costas. Seus familiares iam se reunir com 
Ernest Calloway, o advogado da famlia Hastings, para a leitura do testamento de Nana.
        Melissa segurou a porta da frente para ela. O corredor do frum era frio e escuro, iluminado apenas por algumas luzes amarelas - ainda era muito cedo para 
que os funcionrios j tivessem chegado. Spencer tremeu de pavor - a ltima vez em que estivera ali fora para assistir  apresentao de Ian diante da Corte. E a 
prxima vez que ela viesse a esse lugar, no final daquela mesma semana, seria para testemunhar no julgamento dele.
        Seus passos ecoavam no piso duro de mrmore enquanto elas subiam as escadas. A sala de conferncia onde o sr. Calloway havia marcado a leitura ainda estava 
trancada. Spencer e Melissa foram as primeiras a chegar. Spencer se esgueirou at a parede do vestbulo caminhando pelo tapete oriental que havia ali, e observou 
um grande retrato pintado a leo de William W. Rosewood com cara de constipado. William fundara a cidade no sculo XVII com um grupo de quacres. Por mais de cem 
anos, toda a regio pertencia apenas a trs famlias de fazendeiros e havia mais vacas que pessoas. O Shopping King James foi construdo sobre um enorme pasto antigo.
        Melissa se apoiou na parede perto dela, apertando outro leno de papel contra os olhos. Ela vivia chorando desde a morte de Nana. As irms ouviram o vento 
batendo contra as janelas, o que fazia o edifcio inteiro ranger. Melissa tomou um gole do cappuccino comprado na Starbucks antes de chegarem. Ela viu Spencer olhando 
para seu copo e perguntou: 
        - Quer um gole?
        Spencer acenou com a cabea. Melissa estava muito gentil nos ltimos tempos, uma estranha mudana no padro habitual de briga de gato e rato e tentativas 
das irms de uma parecer melhor do que a outra - com Melissa geralmente ganhando. Era provvel que fosse porque os pais delas estavam irritados com Melissa tambm. 
Ela mentira para a policia por sculos, dizendo que ela e Ian, seu namorado na poca, estiveram juntos durante toda a noite em que Ali desapareceu. Na verdade, Melissa 
acordara no meio da noite e descobrira que Ian no estava mais ao seu lado. Ela tivera muito medo de dizer qualquer coisa porque ela e Ian tinham bebido, e a Senhorita 
Perfeitinha Oradora da Turma no fazia coisas mundanas como tomar um porre e dormir com o namorado. Ainda assim, Melissa parecia extracaridosa nesta manh, o que 
fizera disparar alarmes de alerta dentro da cabea de Spencer.
        Melissa tomou um longo gole de caf e olhou com cautela para Spencer.
        -Voc ouviu o que os noticirios esto divulgando? Esto dizendo que no h evidncias suficientes para Ian ser condenado.
        Spencer ficou tensa.
        - Eu ouvi uma notcia a respeito esta manh.
        Mas ela tambm escutara a resposta de Jackson Hughes, o promotor de Rosewood, dizendo que eles estavam cheios de evidncias e que as pessoas de Rosewood 
mereciam que aquele crime perturbador fosse resolvido. Spencer e suas amigas haviam se encontrado inmeras vezes com o sr. Hughes para discutir o julgamento. Spencer 
encontrara Jackson algumas sesses a mais do que as outras porque, de acordo com o sr., Hughes, seu testemunho - no qual ela afirmava se lembrar de ter visto Ali 
e Ian momentos antes de Ali desaparecer - era a pea mais importante da acusao. Ele a preparara para cada uma das perguntas que ela iria responder, explicando 
o que falar, e como ela deveria ou no se comportar. Para Spencer, no parecia to diferente de atuar em uma pea, exceto que em vez de todo mundo aplaudindo no 
fim, algum iria para a priso para o resto da vida.
        Melissa fungou e Spencer deu uma olhada nela. Os olhos de sua irm estavam baixos e os lbios apertados de preocupao.
        - O que foi? - perguntou Spencer desconfiada. O alarme em sua cabea estava ficando cada vez mais alto.
        -Voc sabe por que eles esto dizendo que no h evidncias suficientes, certo? - perguntou Melissa pausadamente. 
        Spencer balanou a cabea.
        -  por causa de tudo aquilo que aconteceu com o prmio Orqudea Dourada. - Melissa permaneceu imvel, voltando os olhos apenas na direo da irm. -Voc 
mentiu a respeito da redao. Ento eles no esto certos de que voc seja... bem... confivel.
        Spencer sentiu um bolo se formando na garganta.
        - Mas isto  diferente!
        Melissa apertou os lbios e olhou resolutamente pela janela.
        -Voc acredita em mim, no acredita? - perguntou Spencer com urgncia na voz.
        Por um longo tempo, ela no se lembrara de nada a respeito da noite em que Ali desaparecera. Depois, pequenos trechos comearam a voltar  sua memria, um 
por um. Sua ltima lembrana era a viso de duas figuras sombreadas na floresta -uma era Ali e a outra, definitivamente, era Ian.
        - Eu sei o que vi - prosseguiu Spencer. - Ian estava l.
        -  s fofoca, Spencer - murmurou Melissa. Em seguida ela olhou para Spencer, mordendo o lbio superior com fora. - H mais uma coisa. - Ela engoliu em 
seco. - Ian meio que... bem, ele me ligou na noite passada.
        - Da cadeia? - Spencer teve a mesma sensao que tivera quando Melissa a empurrou do galho do grande. orvalho no quintal da casa delas, primeiro um choque, 
e depois, quando atingiu o cho, uma dor assustadora. - O-o que ele disse?
        O corredor estava to silencioso que Spencer conseguia ouvir a irm piscar.
        -  Bem, a me dele est muito doente, para comeo de conversa.
        - Doente... Como?
        - Cncer, mas eu no sei que tipo. Ele est arrasado. Ian  muito prximo da me, e est com medo de que o julgamento e uma possvel condenao piorem o 
estado dela.
        Spencer tirou um fiapo de seu casaco, indiferente. Ian havia provocado o julgamento. Melissa limpou a garganta. Os olhos dela estavam vermelhos e marejados.
        - Ele no entende por que fizemos isto com ele, Spence. Implorou para que no testemunhssemos contra ele no julgamento. Ele continua dizendo que tudo isso 
 um grande mal-entendido. Ele no a matou. Ele pareceu to... desesperado.
        O queixo de Spencer caiu.
        -Voc est dizendo que no vai testemunhar contra ele? 
        Uma veia saltou no longo pescoo de Melissa. Ela brincou, distrada, com seu chaveiro Tiffany.
        - Eu apenas no consigo aceitar, s isso. Se Ian fez mesmo o que acham que ele fez... bem, ramos namorados naquela poca. Como eu posso no ter suspeitado 
de nada?
        Spencer concordou, repentinamente exausta. Apesar de tudo, ela entendia a perspectiva de Melissa. Melissa e Ian foram o casal modelo na escola, e Spencer 
se lembrava de como Melissa ficara irritada quando Ian terminou com ela no meio do primeiro ano letivo do ensino mdio. Quando Ian voltou para Rosewood no outono 
para treinar o time de hquei de Spencer - que coisa mais assustadora! -, ele e Melissa logo voltaram a namorar. Aparentemente, Ian era o namorado ideal: atencioso, 
meigo, honesto e verdadeiro. Era o tipo de rapaz que ajudava velhinhas a atravessar a rua. Seria como se Spencer e Andrew Campbell estivessem namorando e ele fosse 
preso por vender drogas dentro de seu MiniCooper.
        Uma mquina de limpar neve rugiu l fora, e Spencer olhou para cima com ateno redobrada. No que ela e Andrew pudessem ser em qualquer momento futuro um 
casal. Aquilo era s um exemplo. Porque ela no gostava de Andrew. Ele era simplesmente outro exemplo de um Garoto de Ouro de Rosewood Day, s isso.
        Melissa comeou a dizer mais alguma coisa, mas a porta principal l embaixo abriu e o sr. e sra. Hastings entraram no saguo. O tio de Spencer, Daniel, sua 
tia Genevieve, e seus primos Jonathan e Smith vinham atrs deles. Pareciam cansados, como se tivessem atravessado o pas de carro para chegar ali, quando na verdade 
eles viviam em Haverford, a apenas quinze minutos de distncia.
        O sr. Calloway foi a ltima pessoa a passar pela porta. Ele subiu as escadas, destrancou a sala de reunies e pediu a todos que se acomodassem. A sra. Hastings 
entrou atrs de Spencer, tirando suas luvas Herms de camura com os dentes, envolta por uma nuvem de Chanel N 5.
        Spencer sentou em uma das cadeiras giratrias de couro ao redor de uma grande mesa de conferncia feita de cerejeira. Melissa ocupou a cadeira perto dela. 
O pai delas sentou no outro lado do aposento e o sr. Calloway perto dele. Genevieve tirou seu casaco de zibelina enquanto Smith e Jonathan desligavam seus BlackBerrys 
e ajeitavam suas gravatas da Brooks Brothers. Os dois, desde que Spencer conseguia se lembrar, sempre foram meio enjoadinhos. Quando as famlias comemoravam o Natal 
juntas, Smith e Jonathan sempre desembrulhavam cuidadosamente seus presentes para no rasgar o papel.
        -Vamos comear? - O sr. Calloway colocou seus culos de aros de tartaruga no nariz e tirou um documento volumoso da pasta.
        A luz que pendia do teto fazia brilhar sua cabea calva enquanto ele lia o prembulo do testamento de Nana, indicando que ela estava com mente e corpo sos 
quando o comps. Nana declarou que ela dividiria sua manso na Flrida, a casa de praia de Cape May e sua cobertura na Filadlfia com a maioria de seu patrimnio 
liquido entre seus filhos: o pai de Spencer, tio Daniel e tia Penelope. Quando o sr. Calloway disse o nome de Penelope em voz alta, todos ficaram surpresos. Eles 
olharam ao redor, como se Penelope estivesse l e ningum tivesse notado. Mas  claro que ela no estava.
        Spencer no tinha certeza de quando fora a ltima vez em que vira tia Penelope. A famlia nunca gostava de falar dela. Ela era o beb da famlia e nunca 
se casara. Pulara de carreira em carreira, tentando a sorte em moda, passando para o jornalismo, e at comeando um site de leitura de cartas de tar on-line em 
sua casa de praia em Bali. Depois disso, ela desaparecera, viajando pelo mundo, torrando o dinheiro de seu fundo de investimentos, e no visitava ningum da famlia 
durante anos. Estava bem claro que todos estavam horrorizados por Penelope ter recebido alguma coisa no testamento da me. Spencer de repente sentiu-se mais prxima 
 sua tia - talvez toda gerao dos Hastings precisasse de uma ovelha
negra.
        - Como outros recursos de sra. Hastings - disse o sr. Calloway virando uma pgina -, ela deixa dois milhes de dlares para cada um de seus netos naturais 
como segue.
        Smith e Jonathan se inclinaram. Spencer ficou boquiaberta.
        Dois milhes de dlares.
        O sr. Calloway olhou de soslaio ao proferir as palavras:
        -  Dois milhes de dlares para seu neto Smithson, dois milhes de dlares para seu neto Jonathan e dois milhes de dlares para sua neta Melissa. - Ele 
fez uma pausa, os olhos pousando por um momento em Spencer. Uma expresso estranha tomou seu rosto. - E... tudo bem. Ns s precisamos que todo mundo assine aqui.
        -Ah...- comeou Spencer. Saiu como um grunhido e todos olharam. - De-desculpe-me - gaguejou ela, constrangida, tocando o cabelo. - Eu acho que voc esqueceu 
um neto.
        O sr. Calloway abriu a boca e a fechou novamente, como um dos peixes-dourados que nadavam no lago artificial do quintal dos Hastings. A sra. Hastings ficou 
de p abruptamente, tambm imitando um peixe-dourado. Genevieve pigarreou, olhando fixamente para seu anel de esmeralda de trs quilates. Tio Daniel respirou fundo, 
alargando suas narinas enormes. Os primos de Spencer e Melissa se reuniram para ler o testamento.
        - Aqui - disse o sr. Calloway com calma, apontando para a pgina.
        - Uh, sr. Calloway? - repetiu Spencer. Ela movimentou a cabea de um lado para o outro, entre o advogado e seus pais. Finalmente deixou escapar uma risada 
nervosa. - Eu fui mencionada no testamento, no fui?
        Seus olhos se arregalaram, Melissa pegou o testamento de Smith e o entregou a Spencer. Ela olhou o documento por um momento, seu corao como uma britadeira.
        L estava. Nana havia deixado dois milhes de dlares para Smithson Pierpoint Hastings, Jonathan Bernard Hastings e Melissa Josephine Hastings. O nome de 
Spencer no estava em lugar nenhum.
        - O que est acontecendo? - sussurrou Spencer. 
        Seu pai ficou de p de repente.
        - Spencer, talvez voc devesse esperar no carro.
        - Como assim? - guinchou Spencer, horrorizada.
        O pai a pegou pelo brao e comeou a gui-la para fora da sala.
        - Por favor - disse ele meio arfante. - Espere por ns l fora, Spencer.
        Ela no tinha certeza do que fazer alm de obedecer. Seu pai fechou a porta atrs dela, a batida ecoando pelas silenciosas paredes de mrmore do frum. Spencer 
ouviu sua prpria respirao por alguns momentos e depois, engolindo o choro, ela deu uma volta, correu at seu carro, ligou a ignio e arrancou para fora do estacionamento. 
Que se dane esse negcio de esperar. Ela queria ficar to longe deste frum - do que quer que tivesse acabado de acontecer - quanto pudesse.
8
ESSE NEGCIO DE ENCONTROS PELA 
INTERNET NO  SENSACIONAL?
No incio da noite de tera, Aria se acomodou em um banco estofado no banheiro de sua me, sua bolsa de maquiagem da Orla Kiely com estampa floral no colo. Olhou 
para Ella atravs do espelho.
        - Oh, meu Deus, no - disse ela, arregalando os olhos para as listras alaranjadas nas bochechas de Ella. -Voc parece bronzeada demais. Era para voc parecer 
beijada pelo sol, no grelhada por ele.
        A me dela franziu a testa e limpou as mas do rosto com um leno de papel Kleenex.
        - Estamos no fim do inverno! Quem seria idiota suficiente para parecer "beijado pelo sol" a essa altura do ano?
        -Voc quer ficar com a mesma cor que tinha quando estivemos em Creta. Lembra como ficamos bronzeadas naquele bote inflvel e... - Aria se deteve abruptamente. 
Talvez ela no devesse ter trazido a viagem  Creta  tona. Byron estivera com elas tambm.
        Mas Ella no pareceu incomodada.
        - Pele bronzeada grita melanoma.
        Ela tocou o rolo esponjoso rosa em seu cabelo.
        - Quando podemos tirar isso?
        Aria olhou o relgio. O grande encontro de Ella com o homem que conhecera no site Match.com, o homem misterioso que amava Rolling Stones e que se chamava 
- credo! - Wolfgang, era naquela noite, e ele iria apanh-la em quinze minutos.
        - Agora, eu acho. - Ela tirou o primeiro rolo. Uma mecha do cabelo negro de Ella caiu em cascata sobre suas costas. Aria soltou o resto do cabelo, balanou 
a lata de Rave e deu uma borrifada rpida nos cabelos da me.
        -  Voil. 
        Ella sentou.
        - Est timo.
        Cabelo e maquiagem normalmente no eram especialidades de Aria, mas arrumar Ella para seu grande encontro no havia sido apenas divertido, fora tambm o 
maior tempo que elas haviam passado, juntas desde que Aria voltara para casa. Alm disso, maquiar Ella era uma tima maneira de no ficar o tempo todo pensando em 
Xavier. Nos ltimos dois dias, Aria ficara obcecada com a conversa que eles tiveram na galeria, tentando entender se fora uma cantada ou um bate-papo amigvel. Artistas 
so to sensveis - era impossvel ter certeza do que eles queriam dizer. Ainda assim, ela esperava que ele ligasse. Aria havia deixado seu primeiro nome e o nmero 
de seu celular no livro de visitantes da galeria, colocando um asterisco perto dele. Os artistas olhavam aqueles livros, no olhavam? Ela no conseguia evitar pensar 
em como seria o primeiro encontro deles - comearia com uma pintura a dedo e terminaria em uma sesso de amassos escandalosos no cho do estdio de Xavier. 
        Ella pegou um rmel e se inclinou na frente do espelho.
        - Tem certeza de que est tudo bem para voc que eu v a um encontro?
        -  claro.
        Mas a verdade  que Aria no tinha certeza se aquele era um encontro muito promissor. O nome do cara era Wolfgang, pelo amor de Deus. E se ele falasse em 
rimas? E se fosse o homem que personificou Wolfgang Amadeus Mozart no festival de Histria dos Grandes Compositores do Conservatrio de Hollis? E se aparecesse de 
casaco acinturado e calo bufante e usando uma peruca?
        Ella levantou-se e voltou para o quarto. Na metade do caminho, parou abruptamente. 
        -Oh.
        Seus olhos estavam fixos no vestido azul-petrleo que Aria pusera sobre sua cama queen-size. Mais cedo naquela tarde, Aria havia passado pelo guarda-roupa 
de Ella em busca de algo apropriado para o encontro, preocupada em no encontrar nada entre os kaftans, as tnicas e os roupes de orao tibetanos que Ella geralmente 
usava. O vestido estava enfiado no fundo do armrio, ainda envolto em um saco plstico de lavanderia. Era simples, emagrecia e tinha uma tira fininha de tecido para 
amarrar no pescoo... Aria considerou a escolha perfeita... Mas, a julgar pela expresso da me, ela no tinha tanta certeza.
        Ella sentou perto do vestido, tocando seu tecido sedoso. 
        - Eu esqueci que tinha esse vestido - disse, com uma voz baixa. - Usei em um evento beneficente em Hollis, quando Byron tomou posse. Foi na mesma noite em 
que voc dormiu na casa de Ali DiLaurentis pela primeira vez. Ns tivemos que correr para providenciar um saco de dormir porque voc no tinha um, lembra?
        Aria afundou na poltrona listrada no canto do quarto. Ela se lembrava perfeitamente da primeira vez em que dormira na casa de Ali. Foi logo depois que Ali 
se aproximara dela durante um evento beneficente de Rosewood Day, pedindo ajuda para separar os itens de luxo. A primeira reao de Aria havia sido pensar que Ali 
queria pregar uma pea nela. Na semana anterior,Ali havia pedido a Chassey Bledsoe para experimentar um pouco de um novo perfume. Mas o "perfume" na verdade era 
gua suja, cheia de lama e coc de pato, vinda direto do lago do parque pblico de Rosewood.
        Ella colocou o vestido sobre o colo.
        - Eu acho que voc sabe a respeito de Byron... que Meredith... - Ela colocou as mos em forma de concha perto do estmago, imitando uma barriga de grvida.
        Aria mordeu o lbio e concordou em silncio, seu corao doendo. Esta era a primeira vez que Ella mencionava a condio de Meredith. Aria tentara ao mximo 
afastar Ella de todas as notcias de gravidez naquele ms, mas  claro que no conseguiria poupar a me daquilo tudo para sempre.
        Ella suspirou, o maxilar tenso.
        - Bem, eu acho que  hora de escrever uma nova histria para este vestido.  hora de seguir em frente. - Ela olhou para Aria. - E voc? Voc seguiu em frente?
        Aria ergueu uma sobrancelha.
        - Com relao a Byron?
        Ella colocou seu cabelo ondulado sobre o ombro.
        - No. Eu quis dizer seu professor. O sr... Fitz. 
        A mo de Aria flutuou at a boca. 
        -Voc... sabe disto?
        Ella seguiu a linha do zper da lateral do vestido com o dedo.
        -  Seu pai me contou. - Ela sorriu, desconcertada. - Eu acho que o sr. Fitz foi para Hollis. Byron ouviu sobre pedirem a ele que deixasse Rosewood Day... 
por sua causa. - Ela olhou para Aria outra vez. - Eu gostaria que voc tivesse me procurado para conversar sobre isso.
        Aria olhou para o outro lado do quarto, onde havia uma enorme pintura abstrata que Ella fizera de Aria e Mike flutuando no espao. Ela no procurara a me 
para falar sobre o que estava acontecendo naquela poca pura e simplesmente porque Ella no atendia seus telefonemas.
        Ella baixou os olhos, constrangida, como se tambm acabasse de ter se dado conta disso.
        - Ele no... se aproveitou de voc, no ?
        Aria balanou a cabea, escondendo-se atrs de seus cabelos.
        - No. Foi tudo muito inocente.
        Ela pensou nas poucas vezes em que realmente estivera com Ezra - a sesso de beijos superquentes no banheiro do Snooker, um beijo na sala de aula, algumas 
horas roubadas em seu apartamento em Old Hollis. Ezra havia sido o primeiro homem que Aria pensou que amava, e parecera que ele a amava tambm. Quando ele dissera 
que ela deveria procur-lo dentro de alguns anos,Aria achou que isso significava que ele esperaria por ela. Mas algum que estava esperando por ela teria ligado 
de vez em quando, certo? Agora ela se perguntava se no tinha sido ingnua demais.
        Aria respirou fundo.
        - Vai ver no ramos certos um pro outro. Mas talvez eu tenha conhecido algum novo.
        - Srio? - Ella sentou na cama e comeou a tirar os chinelos e as meias. - Quem?
        - S... algum - disse Aria com suavidade. Ela no queria atrair m sorte falando demais naquilo. - Ainda no tenho certeza se vai acontecer alguma coisa.
        - Bem, isso  timo. - Ella fez um cafun to carinhoso na filha que os olhos de Aria se encheram de lgrimas. Estavam finalmente conversando. Talvez as 
coisas entre elas estivessem entrando nos eixos outra vez.
        Ella ergueu o vestido pelo cabide e o carregou pax;a o banheiro. Quando fechou a porta e abriu a torneira, a campainha
tocou.
        - Droga! - Ella abriu a porta do banheiro e colocou a cabea para fora, seus olhos esfumados arregalados. - Ele chegou cedo. Voc pode atender?
        - Eu? - grunhiu Aria.
        - Diga a ele que eu deso em um segundo. - Ella bateu a porta.
        Aria piscou. A campainha tocou outra vez. Ela se apressou at o banheiro.
        - O que eu devo fazer se ele for realmente feio? - sussurrou ela atrs da porta. - E se ele tiver pelos nas orelhas?
        -  apenas um encontro, Aria. - Riu Ella.
        Aria endireitou os ombros e desceu a escada. Ela conseguia ver um vulto atravs do vidro mosqueado, andando de um lado para o outro. Respirando fundo, ela 
abriu a porta. Um rapaz de cabelo curto estava de p na varanda. Por um instante, Aria no conseguiu falar.
        - ...Xavier? - disse ela finalmente.
        -Aria? - Xavier estreitou os olhos desconfiado. - Voc... ...?
        - Ol? - Ella desceu as escadas atrs deles, enquanto colocava um brinco de argola. O vestido azul-petrleo coube nela perfeitamente, e seu cabelo escuro 
caa sobre as costas.
        - Oi - cantarolou Ella para Xavier, com um grande sorriso. -Voc deve ser Wolfgang!
        - Oh, Deus, no. - Xavier cobriu a boca com a mo. - Este  o nome que eu utilizo em meu perfil.
        Seus olhos pulavam de Aria para Ella. Um sorriso brotou em seus lbios, quase como se estivesse tentando no gargalhar. De p sob a luz do saguo, ele parecia 
um pouco mais velho - no incio da casa dos trinta, mais ou menos.
        - Meu nome  Xavier, na verdade. E voc  Ella?
        - Sim. - Ella colocou a mo sobre o ombro de Aria. - E esta  a minha filha Aria.
        - Eu sei - disse Xavier devagar. 
        Ella pareceu confusa.
        - Ns nos conhecemos no domingo - interrompeu Aria rapidamente, ainda sem conseguir disfarar a surpresa em sua voz. - Na exposio. Xavier era um dos artistas.
        -  Voc  Xavier Reeves? - perguntou Ella alegremente. - Eu ia  sua exposio, mas dei meu convite a Aria. - Ela olhou para a filha. - Eu estava to ocupada 
hoje que nem perguntei! Foi bom?
        Aria piscou.
        -Eu...
        Xavier tocou o brao de Ella.
        -  Ela no pode dizer nada ruim comigo aqui! Pergunte depois que eu for embora.
        Ella sorriu como se esta fosse a coisa mais engraada que algum j dissera. Ela abraou Aria, e a menina sentiu que a me tremia. Ela est nervosa, pensou 
Aria. Ella j estava doidinha por Xavier  primeira vista.
        - Que coincidncia louca, hum? - comentou Xavier.
        -  uma coincidncia maravilhosa - corrigiu Ella.
        Ela se virou para Aria cheia de esperana. Aria teve que retribuir aquele sorriso idiota.
        - Sim, maravilhosa - ecoou ela. Maravilhosamente estranha.
9
NO  PARANOIA SE ELE ESTIVER 
MESMO ATRS DE VOC
Mais tarde na mesma tera-feira, Emily bateu a porta do Volvo de sua me e atravessou o enorme quintal dianteiro da casa de Spencer. Ela havia matado o segundo. 
tempo da aula de natao para encontrar suas antigas amigas, como Marion tinha sugerido, para tomar conta uma da outra e conversar.
        Quando estava prestes a apertar a campainha, seu Nokia tocou. Emily o pegou dentro do bolso de sua parca de esqui amarelo reluzente e olhou para a tela. 
Isaac enviara uma msica para ela pelo celular. Quando abriu a mensagem, ela escutou sua cano favorita de Jimmy Eat World, a que inclua a estrofe "Voc ainda 
consegue sentir as borboletas?". Ela a escutara muito durante o ltimo ms de setembro, quando estava apaixonada por Maya. Ei Emily!, dizia o texto. Esta msica 
me faz lembrar de voc. Nos vemos amanh no Chem Hill!
        Emily enrubesceu, contente. Ela e Isaac haviam trocado mensagens o dia inteiro. Ele a enchera de detalhes sobre suas aulas de religio - dadas por ningum 
menos que o padre Tyson, que tambm apresentara O senhor dos anis a Isaac - e Emily recapitulou o horror que havia sido seu seminrio sobre a Batalha de Bunker 
Hill na aula de histria. Eles haviam comparado seus livros e programas de televiso favoritos e descoberto que ambos gostavam dos filmes de M. Night Shyamalan, 
ainda que seus dilogos fossem fracos. Emily nunca fora uma daquelas garotas que ficavam grudadas ao telefone durante toda a aula - e, afinal, teoricamente isto 
era proibido em Rosewood Day -, mas quando escutava seu telefone produzir um ping baixinho, ela instantaneamente sentia urgncia de escrever de volta para Isaac.
        Ela se perguntara inmeras vezes naquele dia o que estava fazendo e lutou para avaliar seus sentimentos. Ela gostava de Isaac? Ela seria capaz de gostar 
dele?
        Um galho quebrou perto dela, e Emily olhou da calada de Spencer para a rua quieta e escura. O ar estava frio, frio como nunca. Uma espessa cobertura de 
gelo havia transformado a bandeira vermelha da caixa de correios dos Cavanaugh em branca. Abaixo, na mesma rua, estava a casa dos Vanderwaal, vazia, com um ar sinistro 
- a famlia de Mona deixara a cidade depois de sua morte. Um arrepio percorreu a espinha de Emily. A havia morado a apenas alguns passos de distncia de Spencer 
o tempo todo, e nenhuma delas soubera.
        Dando de ombros, Emily colocou o telefone de volta no bolso do casaco e apertou a campainha de Spencer. Ouviu passos e, em seguida, Spencer abriu a porta, 
seu cabelo louro escuro escorrendo at os ombros.
        - Ns estamos na sala de televiso - murmurou.
        Um cheiro de manteiga pairava no ar, e Aria e Hanna estavam sentadas na ponta do sof, segurando uma grande vasilha plstica com pipoca de micro-ondas. A 
televiso estava sintonizada em The Hills, sem som.
        - E a? - disse Emily, ajeitando-se em uma poltrona. - Temos que ligar para a Marion ou o qu?
        Spencer deu de ombros.
        - Ela no disse ao certo o que fazer. S disse que ns deveramos... conversar.
        Todas olharam umas para as outras, em silncio.
        - Ento, meninas, estamos todas fazendo nossas vocalizaes? - disse Hanna, usando um tom falso de preocupao.
        -  Ommmmm - cantarolou Aria, sem conseguir segurar o riso.
        Emily pegou um fiapo solto em seu blazer azul-marinho de Rosewood Day, meio que querendo defender Marion. Ela s estava tentando ajudar. Olhou ao redor da 
sala, percebendo algo apoiado na base da grande escultura de ferro forjado da Torre Eiffel. Era a fotografia em preto e branco de Ali de p no bicicletrio de Rosewood 
Day, o blazer da escola sobre o brao
- a foto que Emily havia pedido que Spencer no queimasse.
        Emily estudou o retrato. Havia algo muito incisivo e realista nele. Ela conseguia praticamente sentir o ar fresco de outono e sentir o cheiro das macieiras 
silvestres no gramado da frente de Rosewood Day. Ali olhava direto para a cmera, a boca aberta em um sorriso. Havia um pedao de papel em sua mo direita. Emily 
apertou os olhos para ler as palavras. A Cpsula do Tempo Comea Amanh. Prepare-se!
        - Ei! - Emily pulou do div e ergueu a foto para as outras verem. Aria leu o folheto e arregalou os olhos tambm. - Voc se lembra deste dia? - perguntou 
Emily. - Quando Ali disse que iria encontrar uma das partes da bandeira?
        - Qual dia? - Hanna desdobrou suas longas pernas e andou na direo delas. - Oh. Hum.
        Spencer estava atrs delas agora, tinha ficado curiosa tambm.
        - O ptio estava uma baguna naquele dia, cheio de alunos. Todo mundo leu esse folheto.
        Fazia tanto tempo que Emily no pensava sobre aquele dia. Ficara to empolgada ao ver o folheto da Cpsula do Tempo. E depois, Ali viera at o ptio com 
Naomi e Riley, empurrara a multido, arrancara o folheto e anunciara em alto e bom som que uma das partes da bandeira seria dela.
        Emily olhou para cima, surpresa pela lembrana, do que acontecera depois.
        -  Gente. Ian falou com ela. Lembram? - Spencer confirmou com a cabea. - Ele a provocou dizendo que ela no deveria ficar anunciando que iria encontrar 
uma parte, porque algum poderia tentar roub-la.
        Hanna levou a mo at a boca.
        - E Ali disse que aquilo no ia acontecer, pois quem quisesse sua parte teria...
        -  ... que mat-la. - O rosto de Spencer estava plido. - E depois Ian disse algo do tipo "Bem, se for necessrio".
        -  Cus - sussurrou Aria.
        O estmago de Emily revirou. As palavras de Ian haviam sido to estranhamente profticas, mas como elas poderiam saber que deveriam lev-lo a srio? Na poca, 
a nica coisa que Emily escutara a respeito de Ian Thomas fora que ele era o cara certo em Rosewood Day, caso elas precisassem de um representante graduado para 
ajud-las em uma excurso para as crianas do ensino fundamental ou a segurar os garotos no refeitrio quando uma tempestade de neve atrasasse os nibus escolares. 
Naquele dia, depois que Ali se afastara sem rumo com sua comitiva, Ian dera as costas e andara calmamente at seu carro. No parecia o comportamento de algum que 
estivesse planejando um assassinato... O que tornava a coisa toda mais assustadora.
        - E na manh seguinte ela estava to convencida, que todos tiveram certeza de que ela havia encontrado a pea - disse Spencer franzindo a testa, como se 
ainda se incomodasse com o fato de que Ali havia encontrado a bandeira em vez dela.
        Hanna olhou a foto.
        - Eu quis tanto a parte da bandeira da Cpsula do Tempo de Ali.
        - Eu tambm - admitiu Emily. Ela olhou para Aria, que se moveu desconfortavelmente e pareceu se esforar para evitar seus olhares.
        - Todas ns queramos vencer. - Spencer sentou outra vez no sof e abraou uma almofada azul de cetim no peito. - Do contrrio, no teramos aparecido em 
seu quintal dois dias depois para roub-la.
        - No  estranho que outra pessoa tenha roubado a pea de Ali antes da gente? - perguntou Hanna, girando repetidas vezes uma grossa pulseira turquesa no 
pulso. - O que ser que aconteceu com aquele pedao de bandeira?
        De repente, a irm de Spencer, Melissa, entrou na sala. Vestia um suter bege folgado e calas boca de sino. Seu rosto redondo estava plido.
        - Meninas. - Sua voz tremia. - Liguem no noticirio. Agora. - Ela apontou para a TV.
        Emily e as outras olharam para Melissa por um instante sem se mover. Frustrada, Melissa pegou o controle remoto e colocou no canal quatro. A imagem mostrava 
uma multido empurrando microfones no rosto de algum. A imagem trepidou, como se a cmera estivesse sendo acotovelada a todo instante. Em seguida, algumas das cabeas 
se afastaram. Primeiro, Emily viu um rapaz com maxilar forte e lindos olhos verdes. Era Darren Wilden, o policial mais jovem de Rosewood Day, o que as ajudara a 
encontrar Spencer quando Mona a raptara. Quando Wilden se afastou, a cmera se fixou em algum em um terno amarrotado. Seu cabelo dourado era inesquecvel. Todo 
o corpo de Emily amoleceu.
        - Ian? - sussurrou ela. 
        Aria pegou a mo de Emily.
        Spencer olhou para Melissa, o rosto completamente branco.
        - O que est acontecendo? Por que ele no est preso? 
        Melissa balanou a cabea, desamparada.
        - No sei.
        O cabelo louro de Ian brilhava como um raio de sol, mas seu rosto parecia plido. A tela foi dividida e uma reprter do canal quatro apareceu.
        - A me do sr. Thomas foi diagnosticada com um cncer de pncreas agressivo - explicou ela. - Houve uma audincia de ltima hora e Thomas conseguiu uma fiana 
temporria para visit-la.
        - O qu? - gritou Hanna.
        Uma legenda na parte de baixo da tela dizia JUIZ BAXTER DECIDE SOBRE O PEDIDO DE FIANA FEITO POR TROMAS.
        O corao de Emily batia descontroladamente. O advogado de Ian, um homem de cabelos grisalhos e terno listrado, foi para a frente da multido e se colocou 
diante das cmeras. Flashes espocaram.
        -  O desejo da me do meu cliente foi poder passar seus ltimos dias com o filho - anunciou ele. - E eu estou emocionado que ns tenhamos vencido a petio 
com pedido de fiana. Ian ficar em priso domiciliar at seu julgamento comear, na sexta-feira.
        Emily se sentiu fraca.
        - Priso domiciliar? - repetiu ela, largando a mo de Aria. A famlia de Ian vivia em uma grande casa, estilo Cape Cod, a menos de dois quilmetros da casa 
de fazenda da famlia Hastings. Uma vez, quando Ali ainda estava viva, e Ian e Melissa estavam namorado, Emily ouvira por acaso Ian dizer a Melissa que conseguia 
ver o moinho de vento dos Hastings da janela de seu quarto.
        -  Isto no pode estar acontecendo - disse Aria, em uma voz quase catatnica.
        Os reprteres empurraram o microfone no rosto de Ian.
        - Como voc se sente com a deciso? - perguntaram.
        - Como tem sido a experincia na priso do condado? 
        -Voc acha que est sendo acusado injustamente?
        - Sim, estou sendo acusado injustamente - disse Ian, com uma voz firme e raivosa. - E a priso tem sido exatamente o que se poderia esperar... o inferno.
        Ele franziu os lbios, olhando direto para a cmera.
        -Vou fazer tudo o que puder para nunca mais voltar para c.
        Emily ficou gelada de pavor. Ela pensou em Ian naquela entrevista na internet que vira antes do Natal. Algum me quer preso aqui. Algum est escondendo 
a verdade. Eles vo pagar.
        Os reprteres seguiram Ian enquanto ele andava at uma limusine preta.
        - O que voc quer dizer com "nunca mais voltar para c?" - gritaram os reprteres.
        -  Outra pessoa fez isto? Voc sabe algo que ns no sabemos?
        Ian no respondeu. Ele deixou seu advogado lev-lo at a limusine que o esperava. Emily olhou para as outras meninas. Aria estava mordendo o colarinho de 
seu suter. Melissa correu para fora da sala, deixando a porta bater atrs dela. Spencer ficou de p e as encarou.
        - Ns vamos ficar bem - disse, tentando parecer otimista. - No podemos perder a cabea.
        - Ele pode vir nos procurar - sussurrou Emily, seu corao descontrolado. - Ele est com tanta raiva. E ele acha que a culpa  nossa.
        Um pequeno msculo na boca de Spencer estremeceu.
        A cmera da TV deu um zoom em Ian enquanto ele sentava no banco de trs do carro. Por um momento, pareceu que seus olhos desfocados estavam olhando para 
alm das lentes das cmeras, como se ele pudesse ver Emily e suas amigas. Hanna deu um gritinho de medo.
        As garotas assistiram enquanto Ian sentava no banco de couro e pegava algo no bolso de sua jaqueta. Depois o advogado de Ian bateu a porta atrs dele, e 
a cmera levantou, virando de volta para a reprter do canal quatro. Abaixo, a legenda agora dizia JUIZ BAXTER CONCEDE FIANA A TROMAS.
        De repente o telefone de Emily tocou, fazendo-a pular de susto. Ao mesmo tempo, soou uma badalada na bolsa de Hanna. Depois ouve um bipe. O celular Treo 
de Aria, que estava em seu colo, acendeu. O Sidekick de Spencer tocou, dois toques altos, como os de um telefone britnico antigo.
        A televiso piscava ao fundo. Tudo o que elas conseguiam ver eram as luzes traseiras da limusine de Ian, indo na direo da rua e se afastando aos poucos.
        Emily trocou olhares com suas amigas, enquanto sentia seu sangue congelar devagarinho.
        Ela olhou para a tela LCD de seu telefone.
        Uma nova mensagem.
        Suas mos tremiam quando apertou LER.
        Honestamente, cretinas... vocs realmente acham que eu
        deixaria vocs sarem impunes assim, to fcil? Vocs ain-
        da no receberam o que merecem. E eu mal posso esperar 
        para dar isso a vocs. 
        Beijinho! - A
10
SANGUE  MAIS GROSSO QUE GUA... 
ISTO , SE VOC FOR MESMO DA FAMLIA
Segundos depois, Spencer estava ao telefone com o policial Wilden. Ela colocou a ligao no viva voz para que suas amigas pudessem ouvir.
        -  isto mesmo - grunhiu ela no bocal. - Ian acabou de nos mandar uma mensagem ameaadora.
        - Tem certeza de que foi Ian? -A voz de Wilden falhou do outro lado.
        - Sim, tenho certeza - afirmou Spencer. Ela olhou para as outras, que concordaram. Quem mais teria mandado aquilo, afinal de contas? Ian devia estar furioso 
com elas. As pistas que entregaram o mandaram para a cadeia, e o testemunho delas, especialmente o testemunho dela, no julgamento que estava para acontecer, o colocaria 
na priso para o resto de sua vida. E mais, ele tinha enfiado a mo no bolso assim que a porta da limusine se fechara, como se  procura de um celular...
        - Estou a alguns quilmetros da casa - respondeu Wilden. - Chego em um segundo.
        Elas ouviram o carro dele parando na entrada um minuto depois. Wilden vestia uma jaqueta grossa, do departamento de polcia de Rosewood, que cheirava a naftalina. 
Havia uma arma em seu coldre e, como sempre, seu inseparvel radiocomunicador. Quando ele tirou o chapu de l preto, seu cabelo estava amassado.
        - No acredito que o juiz o deixou sair.- A voz de Wilden estava sombria. - Eu realmente no consigo acreditar nisto. - Ele entrou pisando forte no vestbulo, 
cheio de muita energia acumulada, como rim leo impaciente em sua jaula no Zoolgico da Filadlfia.
        Spencer ergueu a sobrancelha. Ela no via Wilden nervoso assim desde o ensino mdio, quando o diretor Appleton havia ameaado expuls-lo por tentar roubar 
sua motocicleta Ducati antiga. Mesmo na noite em que Mona morreu, quando Wilden teve que enfrentar Ian no quintal de Spencer para garantir que ele no fugisse, ele 
havia permanecido impassvel e imperturbvel.
        Mas era reconfortante que ele estivesse to furioso quanto elas.
        - Aqui est a mensagem - disse Spencer, enfiando seu Sidekick debaixo do nariz de Wilden. Ele franziu a testa e observou a tela. Seu radiocomunicador fez 
uns barulhinhos, mas ele os ignorou. Finalmente, Wilden devolveu o aparelho para Spencer.
        - E vocs acham que  de Ian?
        -  Claro que  de Ian - exaltou-se Emily. Wilden enfiou as mos nos bolsos. Ele se afundou no sof de estampa rosa da sala de estar.
        - Eu sei que pode parecer - comeou, com cuidado. - E eu juro que vou investigar. Mas quero que vocs considerem a possibilidade de que seja apenas um imitador.
        - Um imitador? - esganiou Hanna.
        - Pense bem. -Wilden se inclinou para a frente, apoiando seus cotovelos nos joelhos. - Desde que a histria de vocs saiu nos noticirios, h uma poro 
de pessoas mandando mensagens ameaadoras, dizendo que so A. E, embora tenhamos tentado manter seus nmeros de celular em segredo, as pessoas acham jeitos de conseguir 
informao. - Ele apontou para o telefone de Spencer. - Quem quer que tenha escrito aquilo, provavelmente o fez no momento em que Ian estava sendo solto, fazendo 
parecer que foi ele quem enviou a mensagem. Foi isso.
        - E se realmente foi Ian? - perguntou Spencer com uma voz esganiada. Ela gesticulou em direo  sala de televiso, onde a TV ainda estava ligada. - E se 
ele quiser nos assustar para nos manter caladas durante o julgamento?
        Wilden sorriu para ela com a boca meio fechada, de uma maneira um pouco condescendente.
        - Eu entendo por que voc tiraria esta concluso de cara. Mas tente enxergar a situao com os olhos de Ian. Mesmo que ele seja louco, est fora da priso 
agora. Ele quer permanecer solto. Ele no tentaria algo to obviamente burro como isto.
        Spencer passou a mo na nuca. Ela se sentiu como quando experimentou uma das mquinas de treinamento de astronautas da NASA durante uma viagem familiar para 
o Centro Espacial Kennedy na Flrida - nauseada e sem saber que lado era o de cima.
        - Mas ele matou Ali - disparou ela.
        - Voc no pode prend-lo de novo at o julgamento? - sugeriu Aria.
        - Pessoal, a lei no funciona assim - disse Wilden. - No posso apenas sair por a prendendo algum s porque quero. No cabe a mim decidir. - Ele olhou 
para todas elas, notando a insatisfao geral. - Vou dar uma olhada em Ian pessoalmente, certo? E vamos tentar rastrear de onde veio a mensagem. Quem quer que as 
esteja mandando ser detido, eu juro. Por enquanto, tentem no se preocupar.  de algum que s quer mexer com vocs. Mais provavelmente, apenas um garoto burro 
que no tem nada melhor para fazer. Agora, podemos respirar fundo e tentar no pensar tanto nisto?
        Nenhuma delas disse uma palavra. Wilden esticou o pescoo.
        - Por favor?
        Um chiado soou de seu cinto, fazendo todas elas estremecerem. Wilden olhou para baixo, soltando seu telefone celular.
        - Tenho que atender isso, est bem? Vejo vocs depois. - Ele acenou para todas meio que se desculpando e saiu.
        A porta se fechou sem barulho, enchendo o vestbulo de ar gelado. A sala ficou em silncio a no ser pelo murmrio distante da televiso. Spencer virou o 
Sidekick em suas mos.
        - Eu acho que Wilden pode estar certo - disse ela baixinho, sem realmente acreditar em suas palavras.
        - Talvez seja s um imitador.
        -  Sim - disse Hanna, parando para engolir. - Eu tenho umas duas mensagens de imitadores.
        Spencer rangeu os dentes. Ela tambm recebera algumas; mas nada parecido com aquilo.
        - Mesma coisa, eu imagino? - sugeriu Aria. - Se ns recebermos mais mensagens, contamos umas para as outras?
        Todas deram de ombros concordando. Mas Spencer sabia como o plano tinha ido mal anteriormente - A havia mandado um monte de mensagens pessoais devastadoras 
que ela no tivera coragem de contar s outras, e suas amigas tambm no haviam contado sobre as delas. S que aquelas mensagens eram de Mona, que, graas ao dirio 
de Ali, sabia de seus segredos mais tenebrosos, e tinha conseguido permanecer incgnita, desencavando porcarias por todo lado. Ian estivera na priso por mais de 
dois meses. O que ele realmente poderia saber sobre elas, alm de que estavam com medo? Nada. E Wilden havia prometido investigar.
        No que essas coisas as fizessem sentir-se melhor.
        No havia nada a ser feito, exceto acompanhar suas velhas amigas at a porta. Spencer observou enquanto elas desciam em direo aos seus carros estacionados 
na entrada circular cuidadosamente limpa de toda a neve. O mundo estava completamente parado, como se assustado com o inverno. Vrias estalactites longas e afiadas 
como armas jaziam penduradas na garagem, brilhando por causa da luz dos faris.
        Alguma coisa piscou perto da espessa fileira de rvores negras que separava parte do quintal de Spencer do de Ali. Ento, ao ouvir algum tossindo, Spencer 
virou-se e gritou. Melissa estava parada atrs dela no vestbulo, suas mos na cintura, uma expresso fantasmagrica no rosto.
        - Cus - disse Spencer, apertando a mo contra o peito.
        -  Desculpe - grunhiu Melissa. Ela se moveu lentamente para a sala de estar e passou as mos ao longo da harpa antiga. - Eu ouvi o que voc contou ao Wilden. 
Todas receberam outra mensagem?
        Spencer ergueu uma sobrancelha em suspeita. Melissa estivera rondando o vestbulo, espionando?
        - Se voc estava ouvindo, por que no contou que Ian ligou para voc da priso e implorou para que no testemunhssemos? - exigiu Spencer. - Ento Wilden 
teria acreditado que Ian escreveu a mensagem. Ele poderia prend-lo de novo.
        Melissa dedilhou uma corda da harpa. Havia uma expresso de desespero em seu rosto.
        -Voc viu Ian na TV? Ele parecia to... magro. Era como se no o deixassem comer na priso.
        Raiva e incredulidade tomavam conta do corpo de Spencer. Melissa realmente estava com pena dele?
        - S admita - disse ela de uma vez. -Voc acha que eu estou mentindo a respeito de ter visto Ian com Ali naquela noite, do mesmo jeito que menti sobre o 
prmio Orqudea Dourada. E voc preferiria que Ian nos ferisse a acreditar que ele pudesse t-la matado... e que ele merece ir para a priso.
        Melissa deu de ombros e dedilhou outra corda. Uma nota amarga encheu a sala.
        -  claro que eu no quero que ningum machuque voc. Mas... como eu disse. E se tudo isto for um erro? E se no foi Ian?
        - Foi ele - gritou Spencer, seu peito ardendo. Interessante, ela pensou, que Melissa no admitisse que questionava se Spencer estava falando a verdade ou 
no.
        Melissa fez um gesto de desistncia, como se no quisesse mais falar no assunto.
        - De qualquer forma, acho que Wilden est certo sobre estas mensagens. No foi o Ian. Ele no seria burro o suficiente para ameaar vocs. Ian pode estar 
chateado, mas no  idiota.
        Frustrada, Spencer se afastou da irm e espiou o quintal da frente, vazio e gelado, bem na hora que sua me parava o caro na entrada. Momentos depois, a 
porta que ligava a garagem e a cozinha bateu, e os saltos altos da sra. Hastings tamborilaram pelo cho da cozinha. Melissa suspirou e saiu pelo corredor. Spencer 
as ouviu murmurando, e depois o barulho das sacolas de compras.
        O corao de Spencer comeou a bater mais rpido. Ela s queria correr para o andar de cima, esconder-se em seu quarto e tentar no pensar sobre Ian ou qualquer 
outra coisa, mas era a primeira oportunidade que tinha de confrontar a me sobre o testamento de Nana.
        Ajeitando os ombros, Spencer respirou fundo e andou pelo longo corredor at a cozinha. Sua me estava debruada no balco, tirando um po de alecrim fresquinho 
de uma sacola da Fresh Fields. Melissa correu at a garagem, com uma caixa de champanhe Met nos braos.
        -  Para que todo este champanhe? - perguntou Spencer, enrugando o nariz.
        - A festa beneficente,  claro. - Melissa deu uma olhada estilo d para ela.
        - Que festa beneficente?
        Melissa abriu a boca, surpresa. Ela deu uma olhada para a me, mas a sra. Hastings continuou desempacotando vegetais orgnicos e macarro integral, os lbios 
levemente apertados.
        - Ns vamos dar uma festa beneficente no prximo final de semana, para levantar dinheiro para Rosewood Day - explicou Melissa.
        Um rudo escapou da garganta de Spencer. Uma festa beneficente? Planejamento de eventos era algo que ela e a me faziam juntas. Spencer organizava os convites, 
ajudava a escolher o cardpio, recebia as confirmaes de presena, e at fazia a lista de msicas clssicas. Era uma das poucas coisas que Spencer fazia melhor 
que Melissa - poucas pessoas eram obsessivas o suficiente para criar dossis to completos para cada convidado, com informaes como quem no comia vitela e quem 
no se importava em sentar perto dos Pembrokes no jantar.
        Spencer virou-se para a me, com o corao acelerado.
        - Mame?
        A me de Spencer virou-se. Ela tocou sua pulseira de diamantes de modo protetor, como se achasse que Spencer pudesse tentar roub-la.
        -Voc... precisa de ajuda com a festa beneficente? -A voz de Spencer fraquejou por um instante.
        A sra. Hastings segurou firme um pote de geleia de mirtilo orgnico.
        - Est tudo sob controle, obrigada.
        Havia um n no fundo do estmago de Spencer. Ela respirou fundo.
        -  Eu tambm queria perguntar sobre o testamento de Nana. Por que fui deixada de fora? A lei permite dar dinheiro para alguns netos e no para outros?
        Sua me guardou a geleia na prateleira da despensa e deu uma risadinha glida.
        -  Claro que permite, Spencer. A vov pode fazer o que quiser com o dinheiro dela. - Ela colocou sua capa sobre os ombros e passou por Spencer em direo 
 garagem.
        - Mas... - gritou Spencer. Sua me no se virou.
        Ela bateu a porta quando saiu. O chocalho pendurado na maaneta balanou com fora, acordando os dois ces.
        O corpo de Spencer amoleceu. Era assim ento. Ela estava realmente, verdadeiramente deserdada. Talvez seus pais tivessem contado  vov sobre o problema 
do prmio Orqudea Dourada alguns meses atrs. Talvez tivessem at encorajado Nana a alterar o testamento, deixando Spencer de fora deliberadamente, porque ela desgraara 
a famlia. Spencer fechou os olhos e os apertou com fora, pensando em como seria sua vida agora se ela apenas tivesse ficado quieta e aceitado o Orqudea Dourada. 
Ela conseguiria ter ido ao Good Morning America, como os outros ganhadores do prmio, e aceitado os parabns de todos? Conseguiria mesmo frequentar uma faculdade 
que a aceitasse com base no trabalho que ela no escrevera - e tampouco entendia? Se ela apenas tivesse ficado quieta, ainda haveria esta conversa de Ian poder ser 
absolvido por falta de evidncia confivel? Ela debruou na bancada de granito e deu um gemidinho pattico. Melissa colocou uma sacola de compras dobrada na mesa 
e andou at ela.
        - Eu sinto muito, Spence - disse ela baixinho. Ela hesitou por um momento e ento passou seus braos finos em volta dos ombros de Spencer, que estava zonza 
demais para resistir.
        - Eles esto sendo to maus com voc.
        Spencer despencou em uma cadeira da mesa da cozinha, pegou um guardanapo do suporte e limpou os olhos cheios de lgrimas. Melissa sentou-se perto dela.
        - Eu no entendo. Fiquei pensando e repensando, e no sei por que Nana a deixaria de fora do testamento.
        - Ela me odiava - disse Spencer, de forma brusca, o nariz comeando a coar com aquela sensao de que est prestes a espirrar. Ela sentia isso toda vez 
que estava para se acabar de chorar. - Eu roubei seu artigo. Depois, admiti que roubei. Eu sou uma tragdia ambulante.
        -  No acho que tenha nada a ver com isto. - Melissa se inclinou para mais perto dela. Spencer podia sentir o cheiro do protetor solar Neutrogena. Melissa 
era to obcecada que passava protetor solar mesmo quando iria passar o dia todo dentro de casa. - H alguma coisa muito suspeita nessa histria.
        Spencer baixou o guardanapo dos olhos.
        - Suspeita... como?
        Melissa arrastou a cadeira para mais perto.
        - Vov deixou dinheiro para cada um de seus netos naturais. - Ela bateu na mesa da cozinha duas vezes para enfatizar as ltimas palavras, e ento, encarou 
Spencer procurando uma resposta, como se a irm devesse deduzir algo daquilo. Ento, Melissa olhou pela janela, para onde sua me ainda estava descarregando as compras 
do carro. - Acho que h muitos segredos nesta famlia - sussurrou ela. - Coisas que no nos  permitido saber. Tudo tem que parecer to perfeito por fora, mas... 
- Ela se calou.
        Spencer espremeu os olhos. Mesmo no tendo ideia do que Melissa estava falando, uma sbita sensao de nusea comeou a tomar conta dela.
        -Voc quer explicar logo o que est tentando dizer?
        Melissa se endireitou na cadeira.
        -  Netos naturais - repetiu ela. - Spence... Talvez voc seja adotada.
11
SE NO PODE VENC-LA, 
JUNTE-SE A ELA.
Na quarta-feira de manh, Hanna se enfiou embaixo do edredom, tentando no ouvir as escalas musicais que Kate cantarolava no chuveiro.
        - Ela tem certeza de que vai conseguir o papel principal na pea - resmungou Hanna em seu BlackBerry. - Gostaria de poder ver a cara dela quando o diretor 
disser que  Shakespeare e no um musical.
        Lucas deu uma risada.
        - Ela realmente ameaou delatar voc, se no a levasse para conhecer o colgio?
        - Bem, basicamente foi isso - grunhiu Hanna. - Posso morar com voc at a formatura?
        - Eu gostaria - murmurou Lucas. - Mas acho que teramos que dividir a cama.
        - Eu no me importaria - ronronou Hanna.
        - Eu tambm no.
        Hanna percebeu que ele sorria ao dizer isso.
        Houve uma batida na porta e Isabel colocou a cabea para dentro. Antes de ficar noiva de seu pai, ela havia trabalhado como enfermeira na emergncia de um 
hospital e ainda usava seus antigos uniformes para dormir. Eca.
        - Hanna? - Os olhos de Isabel estavam ainda mais arregalados do que o habitual. - Nada de falar ao telefone se voc ainda no fez a cama, lembra?
        Hanna franziu a testa.
        - Tudo bem - disse, suspirando.
        Segundos depois que Isabel havia arrastado sua mala Tumi e substitudo as venezianas estilo colonial de veludo molhado roxo feitas sob medida, ela estabelecera 
uma poro de regras: nada de internet depois de nove da noite. Sem conversa ao telefone se as tarefas domsticas no estivessem prontas. Absolutamente nenhum garoto 
dentro de casa quando Isabel e o pai de Hanna no estivessem l. Hanna estava vivendo basicamente em um Estado Policial.
        - Esto me obrigando a desligar o telefone - disse Hanna em seu BlackBerry, alto o bastante para Isabel ouvir.
        -Tudo bem - disse Lucas. - Eu tambm preciso ir andando. Tenho reunio do clube de fotografia agora de manh.
        Ele fez um som de beijo pelo telefone e desligou. Hanna mexeu os dedos dos ps, todas as suas irritaes e preocupaes desaparecendo. Lucas era um namorado 
muito melhor do que Sean Ackard. Ele quase compensava o fato de que Hanna estava essencialmente sem amigas. Ele compreendia como era difcil para ela lidar com o 
que Mona havia feito, e sempre ria com suas histrias da Kate-malvada. Alm disso, com um novo corte de cabelo e uma bolsa carteiro Jack Spade para substituir sua 
mochila JanSport asquerosa, Lucas no era metade do esquisito que parecia quando se tornaram amigos.
        Assim que Hanna teve certeza de que Isabel havia se retirado para o corredor que dava acesso ao quarto que ela dividia com seu pai - eca duplo -, ela se 
arrastou para fora da cama e deu uma esticada nas cobertas para que a cama parecesse arrumada. Depois sentou  sua penteadeira e ligou a televiso de LCD. A vinheta 
do jornal The Action News trombeteou nos alto-falantes. Uma barra com os dizeres A REAO DA CIDADE DE ROSEWOOD   LIBERTAO  TEMPORRIA  DE IAN TROMAS piscava 
em grandes letras pretas na parte de baixo da tela. Hanna parou. Embora ela no quisesse assistir  reportagem, no conseguia tirar os olhos dela. Uma reprter miudinha 
e ruiva estava na estao de trem local, sondando as pessoas que passavam por ali a respeito do julgamento.
        -  desprezvel - disse uma senhora magra e imponente, usando um casaco de cashmere de gola alta. - Eles no deveriam deixar aquele garoto sair nem por um 
minuto depois do que fez com a pobre menina.
        A cmera se aproximou de uma garota de cabelo preto com cerca de vinte anos. Seu nome, Alexandra Pratt, aparecia abaixo de seu rosto. Hanna a reconheceu. 
Ela fora a estrela do time de hquei de Rosewood Day, mas se formara quando Hanna estava no sexto ano, um ano  frente de Ian, Melissa Hastings e o irmo de Ali, 
Jason.
        - Ele  definitivamente culpado - disse Alexandra, no se incomodando em tirar seus enormes culos escuros Valentino. - Alison de vez em quando jogava hquei 
com nosso grupo nos fins de semana. Ian s vezes falava com ela depois dos jogos. Nunca conheci Ali muito bem, mas acho que ele a deixava desconcertada. Quero dizer, 
ela era to jovem.
        Hanna destampou seu creme cicatrizador Mederma. No era bem assim que ela se lembrava daquela poca. As mas do rosto de Ali ficavam vermelhas e os olhos 
dela brilhavam sempre que Ian estava por perto. Em uma das vezes em que dormiram todas na casa de uma dela, quando elas estavam praticando beijos na almofada de 
macaco que Ali havia costurado na aula de economia domstica do sexto ano, Spencer fez cada uma delas confessar qual garoto elas queriam beijar de verdade.
        - Ian Thomas - Ali deixara escapar, cobrindo a boca em seguida.
        Uma foto de Ian no ltimo ano da escola cobria a tela agora, seu sorriso to branco, largo... e falso. Hanna desviou os olhos da TV Na noite anterior, aps 
mais um jantar estranho com sua nova famlia, ela pegara o carto do oficial Wilden do fundo da bolsa. Ela queria perguntar a ele o que, exatamente, queria dizer 
"priso domiciliar" no caso de Ian. Ele ficaria amarrado em sua cama? Ele teria uma daquelas tornozeleiras parecidas com a de Martha Stewart? Ela queria acreditar 
que Wilden estava certo a respeito da mensagem de A do dia anterior - que era apenas uma brincadeira idiota de algum - mas cada palavrinha de conforto que pudesse 
ouvir ajudaria naquele momento. Alm disto, ela achava que Wilden poderia lhe dar alguma informao extra. Ele sempre tentara ser amiguinho quando ele e sua me 
estavam namorando.
        Wilden, porm, no esclareceu nada.
        - Desculpe Hanna, mas eu no estou autorizado a discutir esse caso. - Mas depois, quando Hanna estava para desligar, Wilden limpara a garganta para dizer 
em seguida: - Olhe, eu quero tanto quanto voc que ele receba o que merece. Ian merece ficar trancafiado por muito tempo por tudo que fez.
        Hanna desligou a TV quando o noticirio diurno comeou a mostrar uma matria sobre o pnico causado pela descoberta da bactria E. Coli na alface de uma 
quitanda local. Depois de mais algumas camadas de Mederma, base e p de arroz, Hanna achou que sua cicatriz estava to escondida quanto era possvel. Ela borrifou 
em si um pouco de perfume Narciso Rodriguez, esticou a saia de seu uniforme, jogou suas tralhas dentro de uma bolsa com o logo da Fendi e desceu.
        Kate j estava sentada  mesa de caf da manh. Quando viu Hanna, seu rosto inteiro irrompeu em um sorriso deslumbrante.
        -Ai, meu Deus, Hanna! - gritou ela. -Tom comprou este melo incrvel no Fresh Fields na noite passada. Voc tem que experimentar.
        Hanna odiava quando Kate chamava seu pai de Tom, como se ele fosse da idade dela. Hanna no chamava Isabel pelo primeiro nome. Na verdade, ela evitava chamar 
Isabel de qualquer nome. Hanna andou pela cozinha e se serviu com um pouco de caf.
        - Eu odeio melo - disse, de maneira afetada. - Tem gosto de esperma.
        - Hanna - seu pai gritou. Hanna no havia percebido sua presena perto da bancada da cozinha, terminando um pedao de torrada com manteiga.
        Isabel estava ao lado dele, ainda vestindo aquela roupa de hospital verde-vmito medonho, e com um bronzeado alaranjado que parecia particularmente falso 
naquela manh.
        O sr. Marin se aproximou das garotas. Ele colocou uma das mos sobre o ombro de Kate e a outra sobre o de Hanna.
        - Estou saindo. Vejo vocs  noite.
        - Tchau,Tom - disse Kate, de maneira doce.
        O pai de Hanna saiu e Isabel subiu as escadas pisando duro.
        Hanna olhou para a capa do jornal Philadelphia Inquirer que seu pai havia deixado na mesa, mas, infelizmente, todas as manchetes eram sobre a audincia em 
que seria definida a liberdade condicional de Ian. Kate continuou comendo seu melo. Hanna teve vontade de levantar e sair, mas por que deveria ser ela a pessoa 
a sair? Esta era a casa dela.
        -  Hanna - disse Kate em uma voz baixa e triste. Hanna olhou para ela erguendo a sobrancelha. - Hanna, desculpe - apressou-se Kate. - Eu no consigo mais 
fazer isso. Eu simplesmente no consigo... ficar aqui sentada e no falar nada. Eu sei que voc est com raiva de mim pelo que fiz no outono passado, por causa do 
que aconteceu no Le Bec-Fin. Eu estava to confusa naquela poca. Desculpe.
        Hanna virou a pgina do jornal. Os obiturios, bom. Ela fingiu estar fascinada com um artigo sobre Ethel Norris, oitenta e cinco anos, coregrafa de um grupo 
de dana moderna na Filadlfia. Ela morrera no dia anterior enquanto dormia.
        - Eu estou achando difcil tambm. - A voz de Kate tremeu. - Eu sinto falta do meu pai. Gostaria que ele ainda estivesse vivo. Nada contra Tom, mas  estranho 
ver a minha me com outra pessoa. E  estranho ficar feliz por eles, assim do nada. Eles no pensam em ns, pensam?
        Hanna estava to irritada que quis jogar o melo de Kate pela cozinha. Tudo que saa da boca de Kate era to ensaiado, era como se ela tivesse baixado da 
internet algum discursinho perfeito fazendo a linha oh, sinta-se mal por mim. 
        Kate respirou fundo.
        -  Desculpe pelo que eu fiz com voc na Filadlfia, mas havia outras coisas acontecendo naquele dia. E eu no deveria ter descontado em voc. - Deu para 
ouvir o barulhinho da faca tocando a porcelana quando Kate pousou os talheres. - Algo realmente assustador aconteceu comigo pouco antes daquele jantar. Eu no havia 
contado  minha me ainda, e tinha certeza de que ela ia ficar muito brava.
        Hanna franziu o cenho, olhando para Kate por uma frao de segundo. Um problema?         Kate afastou o prato.
        - Eu estava saindo com este rapaz, Connor, no vero passado. Uma noite, um dos ltimos fins de semana antes de comearem as aulas, as coisas foram... meio 
que longe demais. - Ela franziu a testa e seu lbio inferior comeou a tremer. - Ele terminou comigo no dia seguinte. Mais ou menos um ms depois, eu fui ao ginecologista 
e houve complicaes.
        Hanna arregalou os olhos.
        -Voc estava grvida?
        Kate balanou a cabea rapidamente.
        - No. Era... outra coisa.
        Hanna tinha certeza de que se sua boca abrisse um pouco mais, seu queixo cairia sobre a mesa. O crebro funcionava a milhes de quilmetros por minuto, tentando 
adivinhar o que complicaes queria dizer. Uma DST? Um terceiro ovrio? Um mamilo esquisito?
        - Ento... voc est bem? 
        Kate encolheu os ombros.
        - Agora estou. Mas foi complicado por um tempo. Foi assustador, de verdade.
        Hanna encarou Kate.
        - Por que voc est me dizendo tudo isto?
        - Porque eu queria explicar o que estava acontecendo - admitiu Kate. Seus olhos brilharam com lgrimas. - Ah, por favor, no conte para ningum o que eu 
disse a voc. Minha me sabe, mas Tom no.
        Hanna tomou um gole de seu caf. Ela estava chocada com as palavras de Kate, e tambm um pouco aliviada. A perfeita Kate havia se ferrado. E nunca, nem em 
um zilho de anos, Hanna poderia imaginar que veria Kate chorar.
        - Eu no vou falar nada - disse Hanna. -Todas temos nossos problemas.
        Kate fungou de um jeito escandaloso e um pouco duvidoso.
        - Certo. Qual  o seu problema?
        Hanna colocou sua xcara decorada com bolinhas sobre a mesa, pensando. No mnimo, aquela conversa revelaria se Ali contara a Kate seu segredo.
        - Bem... Provavelmente voc j sabe. A primeira vez que aconteceu foi quando Ali e eu fomos para Annapolis.
        Ela olhou com ateno para Kate, tentando avaliar se ela entendia. Kate fincou sua faca em um pedao de melo, olhando em volta, inquieta.
        - Voc ainda est fazendo aquilo? - perguntou, com calma. Hanna sentiu uma mistura de empolgao e decepo. Isso queria dizer que naquele dia, Ali havia 
corrido l para fora e contado a ela.
        - Na verdade, no - murmurou Hanna.
        Houve silncio por um momento. Hanna olhou pela janela para um grande monte de neve no quintal do vizinho. Ainda que o frio estivesse terrvel, os gmeos 
travessos de seis anos estavam no quintal, na neve, atirando bolas de neve nos esquilos. Depois Kate levantou a cabea com um ar de dvida.
        -  Eu queria perguntar... O que h entre voc, Naomi e Riley?
        Hanna trincou os dentes.
        - Por que voc est me perguntando isto? Elas no so suas novas melhores amigas?
        Kate ficou pensativa e ajeitou uma mecha de seu cabelo castanho atrs da orelha.
        -  Sabe, eu acho que elas querem ser suas amigas. Talvez voc devesse dar uma chance a elas.
        Hanna bufou.
        - Desculpe, eu no falo com garotas que me insultam na minha cara.
        Kate se inclinou para a frente, apoiando-se sobre seus cotovelos.
        - Elas provavelmente dizem aquelas coisas porque tm cimes de voc. Se voc for legal com elas, aposto que sero legais tambm. Pense nisso. Se nos juntarmos 
a elas, poderamos ser imbatveis.
        Hanna ergueu uma sobrancelha.
        - Ns?
        - Pense bem, Hanna. - Os olhos de Kate brilhavam. -Voc e eu comandaramos totalmente o grupo delas.
        Hanna piscou. Ela olhou para a prateleira pendurada sobre a bancada da cozinha, onde havia um monte de panelas e frigideiras da marca All-Clad que a me 
de Hanna comprara alguns anos antes na Willians-Sonoma. A sra. Marin havia deixado a maior parte de seus pertences pessoais quando partira para Cingapura, e Isabel 
no tivera problemas em reivindic-los como dela.
        Kate realmente estava certa. Naomi e Riley eram inseguras at no poder mais - elas eram assim desde que Alison DiLaurentis as abandonara sem nenhuma razo 
aparente no sexto ano e decidira ser amiga de Hanna, Spencer, Aria e Emily. Seria mesmo muito legal montar um grupo outra vez - especialmente um que ela pudesse 
comandar.
        - Tudo bem. Eu estou dentro - decidiu Hanna. 
                Kate sorriu.
        -  timo. - Ela ergueu seu copo de suco de laranja para um brinde. Hanna brindou com sua caneca de caf. Ambas sorriram e beberam.
Depois, Hanna olhou de volta para o jornal, que ainda estava aberto diante dela. Seus olhos foram direto para uma propaganda de pacotes de viagem para Bermudas.
        Todos os seus sonhos se tornaro realidade, dizia o anncio.
        Era melhor que se tornassem mesmo.
12
TUDO  APENAS QUESTO 
DE PERSPECTIVA
No comeo da noite de quarta feira, Aria e Mike sentaram no Rabbit Rabbit, o restaurante vegetariano favorito da famlia Montgomery. O local cheirava a organo, 
manjerico e queijo de soja. Uma msica de Regina Spektor tocava alto, e o lugar estava lotado de famlias, casais e gente da idade dela. Depois da assustadora soltura 
de Ian e da nova mensagem de A no dia anterior, era bom estar cercada de tantas pessoas.
        Mike olhou em volta franzindo a testa e ergueu o capuz de sua blusa de moletom larga Champion.
        - Eu no entendo por que ns temos que conhecer este cara. Mame s saiu com ele duas vezes.
        Aria no entendia tambm. Quando Ella voltara para casa de seu encontro com Xavier na noite anterior, contara toda entusiasmada sobre como tudo havia sido 
maravilhoso e como ela e Xavier se conectaram facilmente. Aparentemente, Xavier havia feito um tour pelo estdio com Ella naquela tarde, e quando Aria chegou em 
casa da escola, encontrou um recado de Ella na mesa da cozinha, pedindo que ela e Mike se arrumassem e a encontrassem no Rabbit Rabbit s sete da noite em ponto. 
Oh, sim, Xavier estaria presente. Quem poderia imaginar que seus pais se apaixonariam outra vez com tanta facilidade? E eles ainda nem estavam oficialmente divorciados.
        Aria se sentia feliz pela me,  claro, mas desconcertada por si mesma. Estivera to certa de que Xavier se interessara por ela. Era frustrante perceber 
que ela havia se enganado sobre o que rolara entre eles na galeria.
        Mike fungou alto, tirando Aria de seus pensamentos.
        - Esse lugar cheira a mijo de coelho. - Ele fez um som de quem se esforava para vomitar.
        Aria revirou os olhos.
        -Voc s est com raiva porque mame escolheu um lugar que no serve asinhas de frango. 
        Mike amassou o guardanapo.
        - E voc me culpa? Um homem viril no pode viver s  base de saladinha.
        Aria se encolheu, enojada porque Mike usava as palavras viril e homem para descrever a si mesmo.
        - Como foi seu encontro com Savannah no outro dia, alis? 
        Mike estalou os dedos, passando-os pelo cardpio.
        - Isso  problema meu. Pode ficar a, curiosa. 
        Aria ergueu uma sobrancelha.
        - Ah! Voc no me corrigiu imediatamente dizendo que no foi um encontro.
        Mike deu de ombros, enfiando sua faca no cacto no centro da mesa. Aria pegou um lpis azul anil no pequeno copo no meio da mesa. No Rabbit Rabbit havia lpis 
no meio das mesas para encorajar os clientes a desenhar na parte de trs de seus jogos americanos. Os desenhos concludos eram pendurados nas paredes do restaurante, 
que j estavam todas cobertas com as pinturas. Os funcionrios, portanto, comearam a pendurar jogos americanos no teto.
        -Vocs vieram! - exclamou Ella, enquanto se aproximava pelo corredor com Xavier. O cabelo de Ella pintado recentemente brilhava. As mas do rosto de Xavier 
estavam adoravelmente rosadas devido ao frio.
        Aria tentou sorrir, mas teve a sensao de que o resultado foi mais como uma careta. Ella fez um gesto brincalho para Xavier.
        -Aria, vocs dois j se conhecem. Mas Xavier, este  o meu filho, Michelangelo.
        Mike pareceu que ia vomitar.
        - Ningum me chama assim.
        - Eu no chamarei. - Xavier esticou a mo. - Prazer. - Ele olhou para Aria. - Bom ver voc outra vez.
        Aria deu um sorriso contido, desconcertada demais para fazer contato visual. Ela olhou em volta, procurando o ltimo desenho que Ali fizera naquele lugar 
antes de desaparecer. Ali fora ao restaurante com a famlia de Aria e fizera o desenho de uma garota e um garoto de mos dadas, saltitando em direo a um arco-ris.
        - Eles so namorados secretos - anunciou ela para a mesa, seus olhos presos em Aria. Aquilo acontecera no muito depois que Aria e Ali flagraram Byron com 
Meredith... Mas olhando para trs agora, talvez Ali estivesse se referindo ao seu relacionamento secreto com Ian.
        Xavier e Ella tiraram seus casacos e se acomodaram. Ele olhou ao redor, claramente encantado com todos os desenhos nas paredes. Ella continuava cacarejando, 
nervosa, mexendo no cabelo, em seus acessrios, na faca. Depois de alguns segundos de silncio, Mike estreitou os olhos para Xavier.
        - Qual a sua idade, afinal?
        Ella lhe lanou um olhar incisivo, mas Xavier respondeu:
        - Trinta e quatro.
        -Voc sabe que a minha me tem quarenta, certo?
        - Mike - ofegou Ella.
        Mas Aria achou fofa a preocupao do irmo. Ela nunca vira Mike ser protetor com Ella antes.
        - Eu sei. - Xavier sorriu. - Ela me disse.
        A garonete deles, uma garota de seios grandes, com dreads no cabelo e piercing no nariz, perguntou o que desejavam beber. Aria pediu ch verde, e Xavier 
e Ella pediram duas taas de Cabernet. Mike tentou pedir Cabernet tambm, mas a garonete fez uma careta e se afastou.
        - E a, soube que vocs moraram na Islndia por um tempo. Eu at fui l algumas vezes.
        - Jura? - soou Aria surpresa.
        - E deixe eu adivinhar... voc amou aquele lugar... - Mike usou um tom de voz cmico, mexendo na pulseira de lacrosse de Rosewood Day ao redor do punho. 
- Porque  to cheio de cultura. Uma terra to pura e intocada. E todo mundo  to instrudo por l.
        Xavier coou o queixo.
        - Na verdade, achei a Islndia estranha. Quem quer tomar banho em guas com cheiro de ovo podre? E qual  a da obsesso pelo cavalo em miniatura? Eu no 
entendi isso.
        Os olhos de Mike quase saltaram do rosto. Ele olhou para Ella, abismado.
        -Voc mandou que ele dissesse isso? - Ella balanou a cabea, parecendo surpresa tambm. Mike virou-se para Xavier, adorando o que acabara de ouvir. - Obrigado. 
 isso o que eu venho tentando explicar para minha famlia h anos! Mas no, todos eles amavam os cavalos! Todo mundo achava que eles eram to fofos. Mas voc 
sabe o que aconteceria se um daqueles cavalinhos bobocas sasse na porrada com um cavalo da raa Clydesdale dos comerciais de Budweiser? O Clydesdale chutaria o 
traseiro dele. Esse cavalinho fresco no dava nem para o comeo!
        - Exatamente! - concordou Xavier, de maneira enftica.
        Mike esfregou as mos, parecendo bem animado. Aria tentou esconder um sorriso de desdm. Ela possua suas prprias suspeitas sobre a verdadeira razo que 
fazia Mike odiar os cavalos islandeses. Poucos dias depois que eles chegaram a Reykjavk, ela e o irmo foram cavalgar em uma trilha vulcnica. Embora o rapaz do 
estbulo tivesse oferecido a Mike o cavalo islands mais velho, gordo e lento, no minuto em que ele pulou na sela seu rosto ficou assustadoramente plido. Ele disse 
que estava com cibra e que por isso ficaria para trs. Mike nunca tivera uma cibra antes... nem depois daquele dia, pra falar a verdade. Mas ele nunca admitira 
que ficara apavorado.
        A garonete trouxe as bebidas, e Mike e Xavier conversaram sobre todas as coisas que eles odiaram na Islndia. Que um dos aperitivos do pas era tubaro 
podre. Como todos os islandeses acreditavam que huldufolk - elfos - moravam em pedras e rochedos. Como todos eles, de forma muito esquisita, chamavam uns aos outros 
apenas pelo primeiro nome, porque todo mundo descendia das mesmas trs tribos vikings incestuosas.
        A todo instante, Ella olhava para Aria, provavelmente imaginando por que Aria no estava defendendo a Islndia. Mas Aria simplesmente no estava com vontade 
de falar.
        No fim do jantar, quando eles estavam terminando um prato de biscoitos caseiros de aveia orgnica, famoso no restaurante, o iPhone de Mike tocou. Ele olhou 
para a tela e se levantou.
        - Espere a - murmurou de forma evasiva, afastando-se da mesa na direo da porta do restaurante.
        Aria e Ella trocaram um olhar cmplice. Em geral, Mike no via nenhum problema em falar no telefone  mesa de jantar, mesmo se a conversa fosse, por exemplo, 
sobre o tamanho dos peitos das meninas.
        - Estamos desconfiadas de que Mike tem uma namorada - sussurrou Ella para Xavier, e se levantou tambm. - Volto em um minuto - disse ela, saindo em direo 
ao banheiro feminino.
        Aria brincou com o guardanapo em seu colo sem saber o que fazer, enquanto observava Ella passando por entre as mesas. Ela desejou seguir a me, mas no podia 
deixar Xavier perceber que no queria ficar a ss com ele. Ela conseguia sentir os olhos de Xavier pousados nela. Ele deu um gole longo e lento de sua segunda taa 
de vinho.
        -Voc passou o jantar to quieta - comentou ele.
        Aria deu de ombros.
        - Talvez eu seja sempre quieta.
        - Eu duvido.
        Aria olhou-o com ateno. Xavier sorriu, mas sua expresso no era particularmente fcil de ler. Ele tirou um lpis verde-escuro do copo  sua frente e comeou 
a rabiscar em seu Jogo. americano.
        -Voc aceita bem essa histria? - perguntou ele. - Sua me e eu?
        - Ah - respondeu Aria de imediato, mexendo com a colher seu cappuccino ps-jantar. Ele estava perguntando aquilo porque percebera que ela gostava dele? 
Ou porque ela era filha de Ella e aquela era a coisa certa a fazer?
        Xavier colocou o lpis verde de volta no copo e pegou um preto.
        - Sua me disse que voc  uma artista tambm.
        - Sim, acho que sou - disse Aria, com ar distante.
        - Quais so as suas influncias?
        Aria mordeu o lbio, sentindo-se posta contra a parede.
        - Eu gosto dos surrealistas. Sabe, Klee, Max Ernst, Magritte, M.C. Escher.
        Xavier fez uma careta.
        - Escher.
        - Qual o problema com Escher? 
        Ele balanou a cabea.
        -Todo mundo na minha escola tinha um pster de Escher no banheiro, pois achavam que eles eram muito profundos. Ohhh, pssaros se transformando em peixe. 
Ahhh, uma das mos desenhando a outra. Perspectivas diferentes. Que viagem.
        Aria se inclinou de volta na cadeira, animada.
        - O que aconteceu, voc conheceu M.C. Escher pessoalmente? Ele chutou voc quando era um garotinho? Roubou seu triciclo?
        - Ele morreu no comeo dos anos 1970, eu acho - disse Xavier, bufando. - Eu no sou to velho assim.
        - Srio? Ento voc engana bem. - Aria ergueu uma sobrancelha.
        Xavier deu uma risada.
        -  s que... Escher  muito vendido ao sistema. 
        Aria balanou a cabea.
        - Ele foi brilhante! Como voc pode se vender ao sistema se est morto?
        Xavier olhou para ela por um momento, sorrindo vagamente.
        - Tudo bem, senhorita f de Escher. O que acha de uma aposta?
        Ele rodopiou um lpis em sua mo.
        - Ns dois desenhamos algo aqui e agora. Quem fizer o melhor desenho tem razo sobre Escher. E o vencedor ganha aquele ltimo biscoito de aveia. - Ele apontou 
para o prato.
- Eu percebi voc dando uma olhada para ele. Ou voc no pegou porque est fazendo uma dieta secreta?
        Aria debochou.
        - Eu nunca fiz dieta na minha vida.
        -  o que toda garota diz. - Os olhos de Xavier brilharam. - Mas todas elas esto mentindo.
        - Como se voc soubesse tudo sobre garotas! - disse Aria, rindo com a provocao. Ela sentiu como se eles estivessem em seu filme antigo favorito, Npcias 
de Escndalo, no qual Katharine Hepburn e Cary Grant estavam sempre apostando um com o outro.
        - Eu aceito a aposta.
        Aria pegou um lpis vermelho. Ela jamais conseguia resistir a uma chance de exibir seu talento.
        - Mas vamos fixar um limite de tempo. Um minuto.
        -Tudo bem. - Xavier olhou para o relgio em formato de tomate no bar. O ponteiro maior estava no doze. -Vamos l.
        Aria procurou ao redor do restaurante algo para desenhar.
        Finalmente, parou em um homem curvado no bar, brincando com uma caneca de cermica. Seu lpis voou habilmente sobre o jogo americano, capturando sua expresso 
cansada mas tranquila. Depois que ela colocou um pouco mais de detalhes em seu desenho, o ponteiro maior do relgio apontou para o nmero doze outra vez.
        - Tempo - disse ela. Xavier cobriu o jogo americano com a mo.
        -Voc primeiro - disse ele.
        Aria empurrou seu desenho para ele. Ele acenou, impressionado, seus olhos indo do papel para o senhor.
        - Como voc fez isso em um minuto?
        - Anos de prtica - respondeu Aria. - Eu costumava desenhar os garotos na minha escola em segredo o tempo todo. Ento isto significa que eu ganhei o biscoito? 
- Ela cutucou a mo de Xavier, que ainda cobria o desenho. - Pobre sr. Pintor Abstrato. O seu est to ruim que est sem graa de mostrar?
        - No - disse Xavier, movendo suas mos do jogo americano.
        Seu desenho, todo em linhas delicadas e sombreado, era de uma garota bonita, de cabelos negros. Ela usava brincos grandes de argola, exatamente como Aria. 
E esta no era a nica semelhana.
        -Ah! -Aria engoliu em seco. Xavier tinha capturado at o pequeno sinal em formato de ma de seu rosto e as sardas que cobriam seu nariz. Era como se ele 
a tivesse estudado a noite toda, esperando por aquele momento.
        O cheiro incisivo de pasta de gergelim flutuou at eles vindo da cozinha, fazendo o estmago de Aria revirar. Por um lado, o desenho de Xavier era muito 
doce: o namorado de sua me estava tentando se aproximar dela. Por outro... era meio errado.
        -Voc no gostou? - perguntou Xavier, parecendo surpreso. Aria estava abrindo a boca para responder quando ouviu um barulho de badalar dentro de sua bolsa.
        - Hum, s um segundo - murmurou ela. Tirou seu Treo do compartimento que havia na bolsa: 2 novas mensagens de imagem. Aria cobriu a pequena tela do telefone 
com as mos para afastar a claridade.
        Xavier ainda olhava para ela com ateno, ento Aria lutou para no engasgar. Algum havia enviado uma foto de Aria e Xavier na exposio de arte no domingo. 
Eles estavam inclinados, muito prximos, os lbios de Xavier quase encostando na orelha de Aria. A foto seguinte abriu logo depois, esta era de Aria e Xavier nesta 
mesa no Rabbit Rabbit. Xavier estava cobrindo o desenho com as mos, e Aria estava se inclinando sobre a mesa, cutucando-o de maneira provocativa, tentando faz-lo 
mostrar. A cmera havia conseguido capturar a frao de segundo em que parecia que eles estavam de mos dadas, alegres. As duas fotos revelavam uma imagem bem convincente.
        E a segunda havia sido apenas uns poucos segundos antes. Com o corao na boca, ela olhou pelo restaurante. L estava Mike, ainda conversando do lado de 
fora de maneira animada. Sua me voltava do banheiro. O homem que ela havia desenhando estava no meio de um acesso de tosse.
        O telefone zumbiu uma ltima vez. Com as mos trmulas, Aria abriu a nova mensagem. Era um poema.
        Artistas gostam de mnage  trois, 
        Talvez a mame tambm goste.
        Mas se voc fermer la bouche com relao a mim... 
        ... Eu farei o mesmo por voc. - A
        O celular escorregou pelos dedos de Aria. Ela ficou de p de forma abrupta, quase derrubando seu copo de gua.
        - Eu tenho que ir - deixou escapar, arrancando o desenho de Xavier da mesa e colocando-o dentro da bolsa.
        - O qu? Por qu? - Xavier parecia confuso. 
        -Apenas... porque sim.-Ela colocou o casaco ao redor dos ombros e apontou para o biscoito no canto do prato em forma de espiga. -  seu. Foi um bom trabalho. 
- Em seguida ela se virou, quase colidindo com a garonete que carregava uma bandeja grande de tofu ligeiramente frito na manteiga. Imitao de A ou no, as fotos 
provavam uma coisa: quanto mais longe ela ficasse de sua me e do novo namorado dela, melhor.
13
ROLANDO QUMICA ABAIXO
Naquele mesmo momento, na quarta-feira, assim que a lua se ergueu sobre as rvores e os grandes refletores do estacionamento de Hollis acenderam, Emily ficou de
p no topo da Colina de Qumica, segurando um tren arredondado nas mos protegidas por luvas.
        -Voc tem certeza de que quer entrar em uma corrida comigo? - provocou Isaac, que segurava seu prprio tren. - Sou a melhor condutora de tren de Rosewood.
        -  Quem foi que disse? - Os olhos de Isaac brilharam. -Voc nunca disputou comigo antes.
        Emily pegou as alas lils do tren.
        - O primeiro que chegar  rvore grande no fundo da colina vence. Em seus lugares... Preparar...
        -Vamos! - Isaac se adiantou, pulando em seu tren e escorregando colina abaixo.
        - Ei! - gritou Emily, cada de barriga sobre o tren.
        Ela ficou de joelhos, erguendo as botas para que no se enterrassem no cho, e inclinou seu tren na direo da parte mais ngreme da colina. Infelizmente, 
Isaac estava guiando o seu tren nesta direo tambm. Emily se aproximou dele em uma velocidade perigosa, e eles colidiram no meio da colina, caindo de seus trens 
e rolando pela neve macia.
        O tren de Isaac continuou colina abaixo sem ele, indo direto para a floresta.
        - Ei! - gritou ele, apontando para o tren enquanto ele deslizava para trs da rvore designada como linha final. - Tecnicamente eu venci!
        -  Voc trapaceou! - rosnou Emily bem-humorada.; - Meu irmo costumava comear corridas antes de mim tambm. Isto me deixava louca.
        - Isto significa que eu deixo voc louca tambm? - Isaac sorriu de forma travessa.
        Emily olhou para suas luvas vermelhas de l.
        - Eu no sei - disse ela, se acalmando. - Talvez.
        As mas de seu rosto comearam a ficar vermelhas. No momento em que Emily entrou no estacionamento do prdio de qumica e avistou Isaac de p perto de sua 
caminhonete com dois trens nas mos, seu corao disparou. Isaac ficava ainda, mais fofo todo arrumado para brincar na neve do que em seu estilo camiseta emo-rock 
e jeans. Seu gorro de l azul-marinho cobria-lhe a testa, amassando o cabelo sobre as orelhas e fazendo com que seus olhos parecessem ainda mais azuis. Suas luvas 
tinham renas costuradas nas palmas. Um pouco envergonhado, ele admitira que a me fazia um par novo para ele todos os anos. E havia algo sobre como seu cachecol 
estava enrolado duas vezes ao redor de seu pescoo, cobrindo cada centmetro de pele, que o fazia parecer doce e vulnervel.
        Emily queria pensar que os sentimentos que queimavam intensamente dentro dela eram s pela empolgao em fazer um novo amigo... ou talvez fossem efeitos 
colaterais de uma hipotermia aguda, j que o termmetro dentro do Volvo de sua me indicava sete graus negativos do lado de fora. Mas a verdade era que ela no tinha 
ideia de como explicar suas emoes.
        - Eu no venho aqui h anos - Emily quebrou o silncio, olhando para o muro do prdio de qumica ao p da colina. - Meus irmos descobriram este lugar. Eles 
esto na faculdade agora, na Califrnia. Eu no entendo como podem ter ido morar em um lugar que nunca neva.
        -Voc tem sorte de ter irmos - admitiu Isaac. - Eu sou filho nico.
        - Antigamente, eu desejava ser filha nica. Minha casa estava sempre cheia demais. E eu nunca ganhava roupas novas... s de segunda mo.
        - Ah, no, ser filho nico  solitrio - comentou Isaac. - Quando eu era pequeno, minha famlia morava em uma vizinhana em que no havia muitas crianas 
por perto, ento eu tinha que me distrair sozinho. Eu costumava caminhar s, fingindo ser um explorador. Eu narrava o que fazia para mim mesmo. Agora, o Grande Isaac 
avana contra a poderosa correnteza. Agora, o Grande Isaac descobriu uma montanha. Tenho certeza de que qualquer um que ouvisse acharia que eu era louco.
        - O Grande Isaac, ? - Emily deu uma risada, achando Isaac um fofo. - Bem, irmos podem ser superestimados. Eu no sou to prxima dos meus irmos. Ns, 
na verdade, tivemos algumas discusses feias nos ltimos tempos.
        Isaac se apoiou sobre um cotovelo, encarando-a.
        - Por qu?
        A neve estava comeando a encharcar os jeans e a cala de l que ela usava como proteo contra o frio, e a umedecer sua pele. Ela estava se referindo  
reao de sua famlia  notcia de que ela gostava de Maya. No apenas Carolyn enlouquecera, como Jake e Beth haviam-na retirado de sua lista de e-mails de piadas 
por um tempo.
        - Oh, s aquelas coisas normais de famlia - disse ela, por fim. - Nada muito interessante.
        Isaac acenou com a cabea, ficou de p e anunciou que era melhor que ele descesse para resgatar o tren dele na floresta antes que ficasse escuro demais. 
Emily o observou descendo a colina, com um sentimento incmodo no peito. Por que ela no havia contado a Isaac a verdade sobre quem ela era? Por que isto parecia 
to... difcil?
        Depois, seus olhos se deslocaram at o estacionamento vazio do prdio de qumica. Um carro estava fazendo um crculo largo ao redor dos espaos do estacionamento, 
parando sob um refletor no p da Colina Hollis, no muito longe de onde ela e Isaac haviam cado. Na lateral do carro era possvel ler Polcia de Rosewood. Emily 
estreitou os olhos, reconhecendo o cabelo castanho familiar do motorista. Era Wilden.
        A testa de Wilden estava enrugada de preocupao, e parecia que ele estava brigando com algum ao telefone, bem irritado. Emily observou por um momento. 
Quando ela era mais jovem, ela e Carolyn costumavam levar a televiso porttil da cozinha para o quarto delas e assistir a filmes de terror de madrugada com o volume 
bem baixinho. A leitura labial de Emily estava enferrujada, mas ela estava bem certa de que havia captado Wilden dizendo a algum no telefone para "ficar longe".
        O corao de Emily acelerou. Fique longe? Naquele momento, Wilden notou que Emily estava na colina. Ele arregalou os olhos. Depois de um segundo, fez um 
aceno discreto e depois baixou a cabea.
        Emily se virou, constrangida, imaginando se Wilden havia ido at l para ter um pouco de privacidade e cuidar de algo pessoal. Era ingenuidade pensar que 
toda a sua vida girava em torno do caso de Ali.
        Quando seu telefone, guardado dentro de um bolso fechado em sua parca, comeou a tocar, Emily deixou escapar um grito. Ela o tirou do bolso, o corpo soltando 
fascas. O nome de Aria piscava no seu identificador de chamadas.
        - Oi. - Emily suspirou, aliviada. - Tudo bem?
        - Voc recebeu mais alguma mensagem estranha? - perguntou Aria.
        Quando Emily mudou de posio, deixou as marcas de seus ps na neve. Ela observou Isaac desaparecer em meio  densa floresta de pinheiro, procurando por 
seu tren.
        - No...
        - Eu recebi. Agora mesmo. Quem quer que seja, tirou uma foto minha, Emily. Esta noite. Esta pessoa sabe onde estamos e o que estamos fazendo.
        Uma rajada de vento atingiu o rosto de Emily, levando lgrimas a seus olhos. 
        -Voc tem certeza?
        -  Liguei para Wilden na delegacia vinte minutos atrs - prosseguiu Aria -, mas ele disse que estava indo a uma reunio importante l e no podia falar.
        - Espera a - Emily coou seu maxilar dormente, confusa -, Wilden no est na delegacia. Eu acabei de v-lo, um segundo atrs.
        Ela olhou novamente para a base da colina. O lugar onde o carro de Wilden estivera agora estava vazio. O n em seu estmago apertou. Wilden deve ter dito 
a Aria que estava dirigindo, no que estava indo a uma reunio. Ela provavelmente entendera errado.
        - Onde voc est afinal? - perguntou Aria.
        Isaac saiu da floresta com seu tren. Ele olhou para ela e acenou. Emily engoliu em seco, o corao na boca.
        - Eu tenho que ir - disse ela de repente. - Ligo para voc depois.
        - Espere! -Aria pareceu preocupada. - Mas eu no... 
        Emily fechou o telefone, cortando Aria no meio da frase. Isaac ergueu o tren sobre a cabea, triunfante.
        - O Grande Isaac teve que lutar por ele contra um urso! - gritou ele. Emily forou um sorriso, tentando se recompor. Tinha que haver uma explicao lgica 
para a mensagem de Aria. No poderia ser nada srio.
        Isaac colocou seu tren no cho e a observou com ateno.
        - Ei, no decidimos meu prmio por vencer a corrida na colina.
        Emily fungou, permitindo-se relaxar no momento.
        - O que acha do ttulo de O Maior Trapaceiro do Mundo? Ou uma bola de neve, direto no seu rosto?
        - Ou que tal isto? - perguntou Isaac. Antes que ela soubesse o que estava acontecendo, Isaac se inclinou em sua direo, beijando seus lbios com suavidade.
        Quando ele se afastou, Emily colocou as mos na boca. Ela sentiu o gosto do Tic Tac que Isaac havia comido, e seus lbios formigaram, como se tivessem sido 
picados.
        Os olhos de Isaac se arregalaram, registrando a expresso de Emily.
        -Est tudo... bem?
        Emily sorriu feito uma tonta.
        - Sim - disse ela devagar. E assim que as palavras deixaram seus lbios, ela sabia que, de alguma forma, estava tudo bem.
        Isaac sorriu enquanto pegava as mos dela. A cabea de Emily girava como se tivesse estado em uma roda-gigante descontrolada.
        De repente, seu telefone apitou outra vez.
        - Desculpe. Minha amiga acabou de ligar - explicou ela, pegando o telefone. - Provavelmente  ela de novo.
        Ela virou ligeiramente e olhou para a tela: 1 nova mensagem.
        O corao de Emily deu uma cambalhota. Olhou ao redor da colina vasta e escura, mas ela e Isaac eram as nicas pessoas ali. Devagar, ela abriu a mensagem.
        Oi, Em!
        A Bblia no diz que bons garotos cristos no deveriam
        beijar garotas como voc?
        Ento, OQEF - O Que Eu Faria? Eu no confessarei seus
        pecados se voc no confessar os meus.
        Bj,-A
14
VIVA LA HANNA!
Um pouco depois naquela noite de quarta-feira, Hanna andou para l e para c na entrada do Rive Gauche, o bistr francs do Shopping King James, contorcendo o punho 
e relaxando depois. A msica de Serge Gainsbourg brotava alegre dos alto-falantes cuidadosamente escondidos, e o ar cheirava a bife, queijo de cabra derretido e 
perfume J'Adore da Dior. Se Hanna fechasse os olhos, praticamente conseguiria imaginar que estava no inverno anterior, com Mona ao seu lado. Nada tinha dado errado 
ainda - o corpo de Ali no havia aparecido naquele buraco terrvel, no havia nenhuma cicatriz horrorosa em seu queixo, no havia um Ian assustador livre andando 
por a, nenhuma mensagem falsa de A a atingia e Hanna e Mona ainda eram melhores amigas, verificando seus reflexos nos espelhos antigos pendurados nas cabines e 
olhando com desejo as novas edies das revistas Elle e Us Weekly.
        Ela fora muitas vezes ao Rive Gauche depois da confuso com Mona, claro - Lucas trabalhava l nos fins de semana, e ele sempre dava Coca-Cola Diet para Hanna 
de graa, com um pouquinho de rum. Mas no era Lucas de p ao lado dela esta noite. Era... Kate.
        Kate parecia bem - fabulosa, at. Seu cabelo castanho estava preso para trs por um uma faixa de seda preta. Ela usava um vestido at o joelho, combinado 
com um par de botas marrom-escuro Loeffier Randall. Hanna estava usando seus sapatos de couro envernizado Marc Jacobs pretos, um gorro magenta de cashmere, calas 
jeans skinny, e batom da Nars ultravermelho. Juntas, elas pareciam um zilho de vezes melhores do que Naomi e Riley, que estavam encolhidas como feios gnomos de 
jardim na legtima mesa de Hanna.
        Hanna brilhava. O cabelo supercurto de Naomi e o pescoo atarracado faziam com que ela parecesse uma tartaruga. O nariz de rato de Riley tremeu enquanto 
ela limpava os lbios quase inexistentes com um guardanapo. Kate olhou para Hanna, registrando o que estava acontecendo.
        - Elas no so mais suas inimigas mortais, lembra? - disse ela pelo canto da boca.
        Hanna deixou escapar um suspiro. Teoricamente, ela apoiou o plano "se voc no pode com elas, junte-se a elas" de Kate. Mas na realidade...
        Kate encarou Hanna e, como era sete centmetros mais alta que ela, precisava olhar para baixo quando falava.
        -  Ns precisamos delas como amigas - disse Kate, com calma. - O poder est nos nmeros.
        -  s...
        -Voc ao menos sabe por que as odeia? - perguntou Kate.
        Hanna no deu de ombros. Ela as odiava porque elas eram cretinas... e porque Ali as odiara. Se bem que Ali nunca explicara a tal coisa odiosa que Naomi e 
Riley haviam feito com ela e que a fizera retribuir dando um gelo nas duas. E no era como se Hanna pudesse perguntar a Naomi e Riley o que elas haviam feito. Ali 
fez Hanna e as outras prometerem nunca falar com Naomi e Riley. Nunca.
        -Vamos l. - Kate colocou as mos nos quadris. -Vamos fazer isso.
        Hanna gemeu, olhando fixamente para sua futura meia-irm. Havia uma microindicao de uma mancha no canto do lbio de Kate. Hanna no tinha certeza se era 
apenas uma espinha... ou outra coisa. Ela estivera obcecada pelo segredo intrigante que Kate mencionara no caf da manh do dia anterior - que ela havia dormido 
com um rapaz, mas isto a levara a uma complicao. Herpes certamente era uma complicao, no era? E herpes no causava feridas na boca?
        - Tudo bem, vamos - rosnou Hanna. Kate sorriu, pegou sua mo outra vez e foi na direo da mesa de Naomi e Riley. As garotas as notaram, acenando para Kate, 
mas olhando com desconfiana para Hanna. Kate foi direto para a banqueta e se estatelou no assento vermelho macio.
        - Como vocs esto, meninas? - perguntou, mandando beijos no ar para elas.
        Naomi e Riley bajularam Kate por alguns minutos, admirando seu vestido, a pulseira e as botas, empurrando as batatas fritas ainda intocadas na direo dela. 
Depois Naomi olhou para Hanna, que permanecera em p perto do carrinho de sobremesa.
        -  O que ela est fazendo aqui? - perguntou Naomi em voz baixa.
        Kate colocou uma batata na boca. Ela era, Hanna havia observado, o tipo de garota que poderia comer pores gigantescas de tudo sem ganhar um quilo. Cretina.
        - Hanna est aqui porque ela tem algo para dizer a vocs - anunciou Kate. Riley ergueu uma sobrancelha.
        - Ela tem?
        Kate afirmou com a cabea, dobrando as mos.
        - Ela quer se desculpar por todas as coisas maldosas que fez a vocs durante estes anos.
        O qu? Hanna estava chocada demais pra falar. Kate tinha sugerido que elas deveriam ser legais, no se humilhar. Por que ela deveria se desculpar com Naomi 
e Riley? Elas fizeram tanto mal a Hanna durantes os ltimos anos quanto Hanna fizera a elas.
        Kate prosseguiu:
        - Quer recomear de uma forma tranquila com vocs. Ela me contou que nem sabia por que vocs estavam brigando, em primeiro lugar.
        Hanna lanou a Kate um olhar que poderia ter congelado lava derretida. Mas Kate no se encolheu. Confie em mim, sua expresso dizia. Isto funcionar.
        Hanna olhou para a frente, correndo as mos pelos cabelos.
        - Bem - murmurou ela, abaixando os olhos. - Desculpem.
        - Muito bom! - cantarolou Kate. Ela olhou para as outras de forma animadora. - Ento, trgua?
        Naomi e Riley se olharam, depois sorriram.
        - Trgua! - exclamou Naomi em voz alta, fazendo as pessoas que comiam na mesa ao lado a delas olharem incomodadas. - Mona sacaneou a gente tambm! Ela agiu 
como se fosse muito nossa amiga e nos deu o fora depois do seu acidente de carro. Por razo nenhuma!
        - Bem, agora ns sabemos a razo - corrigiu Riley, levantando um dedo. - Ela queria se livrar da gente para voltar a ficar do seu lado. Ento, tipo, ningum 
desconfiaria que ela atropelou voc com o carro dela.
        - Deus. - Riley apertou a palma da mo contra o peito. -Que plano demonaco.
        Hanna franziu o cenho. Elas realmente precisavam entrar nesse assunto agora?
        - Enfim, ns nos sentimos to mal pelo que voc teve que passar, Hanna... - Naomi sorriu de maneira afetada. - E nos desculpe tambm a respeito de nossa 
briga. Ento, trgua, definitivamente! - Ela dava pulinhos de empolgao para cima e para baixo.
        - timo! - exclamou Kate. Ela cutucou Hanna, que reuniu coragem para dar um sorriso tambm.
        -  Ento, sente-se, Hanna - disse Naomi. Hanna se sentou com cuidado, sentindo-se como um chihuahua que havia entrado no jardim de um rottweiler impaciente. 
Parecia fcil demais.
        - Ns estvamos vendo a nova Teen Vogue - anunciou Riley, empurrando a revista na direo delas.
        - Neste fim de semana tem aquela festa beneficente. Ns precisamos superar aquelas vacas feias com os melhores vestidos.
        Achando aquilo tudo muito suspeito, Hanna ergueu uma sobrancelha, reparando na data na capa da Teen Vogue.
        - Eu achei que este exemplar ainda fosse demorar mais algumas semanas a chegar.
        Riley tomou um gole de seu suco de cranberry e gua mineral com gs.
        -  Minha prima trabalha l. Este  s um esboo, mas o exemplar j foi finalizado. Ela sempre me manda exemplares adiantados. s vezes at me manda convites 
de bazares locais, coisas para as quais o pblico nunca  convidado.
        Os olhos azuis de Kate ficaram enormes.
        - Que legal!
        Riley folheou algumas pginas da revista e apontou para um glamouroso vestido de noite preto.
        -  Oh, meu Deus, este iria ficar muito bonito em voc, Hanna.
        -  Quem fez este? - Curiosa, Hanna se inclinou para a frente.
        Naomi apontou para um vestido tubinho azul-claro feito pela BCBG.
        - A Prada faz uns sapatos de cetim lindos, exatamente da mesma cor desse tubinho. Voc j foi  loja Prada?  logo ali. - Ela apontou.
        Kate balanou a cabea. Naomi bateu a mo na boca, fingindo estar horrorizada.
        Kate deu uma risada e olhou para a revista outra vez.
        - Eu aposto que podemos levar acompanhantes para esta festa beneficente, certo? - perguntou ela, tocando as pginas brilhantes. - Eu nem conheo os garotos 
daqui.
        -Voc no tem com o que se preocupar. - Naomi revirou os olhos. - Todos os garotos na escola tm falado sobre voc. 
        Riley virou uma pgina.
        - E Hanna, voc j tem um acompanhante.
        Hanna ficou tensa imediatamente. Aquilo que ela havia detectado na voz de Riley era sarcasmo? E o que era aquele sorriso retorcido no rosto de Naomi? De 
repente, ela percebeu - estavam prestes a fazer um comentrio irritante sobre Lucas. Sobre sua obsesso pelas atividades extracurriculares, talvez, ou sobre a camiseta 
esquisita que ele tinha que usar quando servia mesas no Rive Gauche, ou que ele no era um jogador de lacrosse. Havia inclusive aquele rumor ridculo - e falso - 
que Ali havia espalhado anos antes, de que Lucas era hermafrodita.
        Hanna cerrou os punhos, esperando. Ela sabia que esta coisa de perdoe-e-esquea estava boa demais para ser verdade.
        Mas Naomi lhe deu um sorriso meigo. Riley fez um muxoxo.
        - Cretina de sorte.
        Uma garonete magra como uma modelo colocou Q livreto de couro com a conta no canto da mesa. No outro lado do salo, um jovem casal de vinte anos estava 
sentado sob o pster francs, antigo favorito de Hanna, um grande diabo danando com uma garrafa de absinto. Hanna espiou Naomi e Riley, as garotas que tinham sido 
suas inimigas desde que ela conseguia se lembrar. As coisas que ela e Mona faziam para provoc-las de repente no pareciam valer mais. A paixo de Riley por leggings 
era na verdade bem  frente da moda - ela comeara a us-las antes de Rachel Zoe peg-las de Lindsay Lohan. E o novo corte de cabelo de Naomi jazia com que ela parecesse 
chique, e ela definitivamente merecia crdito por experimentar algo to ousado.
        Ela olhou para a revista, de repente se sentindo magnnima.
        - Riley, voc ficaria estonteante neste Foley e Corrina - disse ela, apontando para um vestido verde-esmeralda.
        - Eu estava pensando a mesma coisa! - concordou Riley, batendo a mo na de Hanna. Depois ela olhou animada para as amigas. - Escutem, o shopping ainda fica 
aberto por mais uma hora. Querem dar uma volta na Saks?
        Os olhos de Naomi se iluminaram. Ela olhou para Hanna e Kate.
        - O que vocs acham, meninas?
        Hanna de repente se sentiu como se algum a tivesse enrolado em uma echarpe de cashmere grande e confortvel. Aqui estava ela, no Rive Gauche com um grupo 
de garotas, preparando-se para bater perna em todas as suas lojas favoritas. Isso fazia com que todas as suas preocupaes sumissem. Quem tinha tempo para ficar 
rancoroso ou com medo quando havia compras a fazer com suas novas melhores amigas? Hanna pensou no sonho que havia tido no hospital depois do acidente, em que Ali 
se inclinava sobre Hanna na cama do hospital e dizia que tudo ficaria bem. Talvez a Ali do sonho estivesse se referindo a este momento.
        Quando ela se abaixou para pegar sua bolsa e seguir as outras, percebeu que seu BlackBerry estava piscando com uma nova mensagem. Hanna olhou para os lados. 
Kate estava ocupada encolhendo os ombros para entrar em seu casaco princesa, Naomi estava assinando a conta e Riley retocando o gloss. Os garons circulavam pelo 
Rive Gauche, levando pedidos e limpando pratos. Ela jogou o cabelo atrs dos ombros e abriu a mensagem.
        Querida Porquinha:
        Aqueles que no se lembram do passado esto condena-
        dos a repeti-lo.
        Voc se lembra de seu "acidente" desafortunado? Conte 
        para todo mundo sobre moi, e desta vez eu me certificarei 
        de que voc no acorde.
        Mas s para mostrar que estou querendo jogar limpo, a
        vai uma dica til: algum na sua vida no  o que aparenta
        ser.
        Amo vc! - A
        - Hanna? - Hanna cobriu a tela do BlackBerry rapidinho. Kate estava a alguns passos de distncia, esperando perto do bar de mrmore. - Tudo bem?
        Hanna respirou fundo e, aos poucos, os pontos que danavam na frente de seus olhos recuaram.
        Ela deixou o celular escorregar para dentro de sua bolsa. Que seja.
        Que se dane essa falsa A - qualquer um poderia ter ouvido a respeito daquela coisa da Porquinha e de seu acidente. Ela estava de volta no topo ao qual ela 
pertencia, e no ia deixar qualquer idiota mexer com ela.
        - Tudo perfeito - disse Hanna, fechando a bolsa. Em seguida, andou pelo restaurante e se juntou s outras.
15
NEM AS BIBLIOTECAS ESTO A SALVO
Spencer observava com o olhar vazio enquanto o vapor que saa de sua garrafa de caf de ao inox desaparecia no ar. Andrew Campbell sentou diante dela, folheando 
um enorme livro de exerccios de economia avanada. Ele deu um tapinha num grfico que estava destacado.
        - Certo, esse texto explica que o Banco Central controla a distribuio de dinheiro - explicou Andrew. - Por exemplo, se o Banco Central teme que a economia 
esteja entrando em recesso, ele baixa suas exigncias de reserva e suas taxas de juros para emprstimos de dinheiro. Lembra-se de quando falamos sobre isto na aula?
        -Ah... ah... - balbuciou Spencer vagamente.
        A nica coisa que ela sabia sobre o Banco Central era que quando ele baixava as taxas de juros, seus pais ficavam empolgados porque significava que o volume 
de dinheiro circulando aumentaria e sua me poderia redecorar a sala - mais uma vez. Mas Spencer no se lembrava de forma alguma de esse assunto ter sido discutido 
em sala de aula. Economia avanada a deixava to frustrada e perdida quanto aquele sonho recorrente no qual ela era imobilizada em um quarto subterrneo que aos 
poucos ia enchendo de gua. Toda vez que tentava discar 911, para a emergncia, os nmeros no telefone ficavam mudando de lugar. Em seguida, os botes se transformavam 
em balas de goma em formato de ursinho e a gua cobria seu nariz e sua boca.
        Eram oito da noite de uma quarta-feira e Spencer e Andrew estavam sentados em uma das salas de estudos da Biblioteca Pblica de Rosewood, revisando a ltima 
unidade do livro de economia. Porque Spencer havia plagiado um trabalho de economia, a direo do colgio Rosewood Day decidira que se ela no tirasse nota A naquele 
semestre, seria afastada do curso de forma permanente. Seus pais certamente no iriam gastar dinheiro com um professor particular - e eles ainda no haviam desbloqueado 
o carto de crdito dela -, ento ela cedera, ligando para Andrew, que era o melhor aluno de economia da turma. O mais esquisito era que Andrew ficara contente em 
encontr-la, ainda que eles tivessem toneladas de deveres de ingls avanado, clculo e qumica para fazer naquela noite.
        - E depois, temos uma equao monetria de troca aqui - disse Andrew, dando um tapinha no livro de novo. - Voc se lembra disso? Vamos resolver alguns problemas 
do captulo usando isso aqui.
        Uma mecha do cabelo louro e espesso de Andrew caiu sobre seus olhos e ele apanhou sua calculadora. Spencer pensou ter detectado o cheiro de castanha de seu 
sabonete masculino favorito, Kiehl's Facial Fuel. Ele sempre usara essa marca ou ela era nova? Ela estava certa de que no era isso que ele usava quando a levou 
ao baile de caridade. Aquela fora a ltima vez em que ela estivera to prxima dele.
        - Spencer, Terra chamando! - Andrew acenou com a mo em frente a seu rosto. - Ol?
        Spencer piscou.
        - Desculpe - murmurou ela. 
        Andrew dobrou as mos sobre o livro. 
        -Voc ouviu alguma coisa do que eu disse?
        - Claro - garantiu Spencer, mas quando ela tentava se lembrar de algo que ele dissera, acabava pensando em outras coisas. Como, por exemplo, a mensagem de 
A que elas haviam recebido depois que Ian fora liberado. Ou as notcias sobre o julgamento de Ian na prxima sexta-feira. Ou que sua me estava planejando angariar 
fundos sem ela. Ou, a cereja do bolo, que Spencer no era uma Hastings de nascimento.
        Melissa no tinha muito no que apoiar a teoria que deixara escapar na noite de tera. Sua nica prova de que Spencer talvez fosse adotada era que seu primo 
Smith a provocara a respeito disso quando elas eram bem pequenas. Genevieve dera uns tapas nele e lhe mandara de castigo para o quarto. E pensando bem, Melissa no 
conseguia se lembrar de sua me grvida de Spencer por nove meses.
        No era muito, mas quanto mais Spencer pensava nisto, mais sentia que outra pea do quebra-cabea se encaixava no lugar. Exceto pelo cabelo louro escuro, 
ela e Melissa no eram nada parecidas. E Spencer sempre imaginava por que sua me havia agido de maneira to rude quando pegou Spencer, Ali e as outras jogando Somos 
Irms Secretas no sexto ano. Elas haviam criado uma fantasia em que a me biolgica delas era uma mulher rica e cheia de contatos importantes, mas que perdera suas 
cinco filhas lindas no aeroporto de Kuala Lumpur (principalmente porque elas gostavam das palavras Kuala Lumpur), porque ela era esquizo (principalmente porque elas 
gostavam da palavra esquizo). A sra. Hastings costumava fingir que Spencer e suas amigas no existiam. Mas, ao ouvir a brincadeira das meninas, intercedera no ato, 
dizendo que no era engraado fazer piadas sobre doenas mentais ou mes abandonando suas filhas. Oi? Elas estavam s brincando!
        Uma adoo explicaria muitas outras coisas. Como... O motivo de os pais sempre terem gostados mais de Melissa. Ou o porqu de Spencer ser sempre uma decepo 
para eles. Talvez no fosse decepo - talvez eles a estivessem desprezando porque ela no era realmente uma Hastings. Mas por que no haviam admitido isto anos 
antes? Afinal, no havia nada de mais em uma adoo. Kirsten Cullen era adotada. Sua me biolgica era da frica do Sul. No primeiro mostre-e-conte de todos os anos 
do ensino fundamental, Kirsten levava fotos de sua viagem de vero para Cape Town, sua cidade natal, e todas as garotas da turma de Spencer faziam "ooh" de inveja. 
Spencer costumava desejar ser adotada tambm. Parecia to extico.
        Ela olhou pela janelinha da sala de estudo para o mbile azul num estilo arte moderna pendurado no teto da biblioteca.
        - Desculpe. Estou um pouco estressada - ela teve que admitir.
        Andrew franziu a testa.
        - Por causa da sua nota em economia?
        Spencer respirou profundamente, pronta para dar uma resposta grosseira, dizendo que aquilo no era da conta dele. Mas Andrew olhava para ela com tanto entusiasmo... 
E ele estava ajudando-a. Ela pensou mais sobre aquela terrvel noite do baile de caridade. Andrew realmente ficara empolgado quando pensou que eles estavam num encontro. 
E ficara triste e com raiva quando descobriu que ela o estava usando. Toda aquela coisa de A e Toby Cavanaugh havia acontecido logo depois que Andrew descobrira 
que Spencer estava se encontrando com outra pessoa. Ela havia ao menos se desculpado de maneira apropriada?
        Spencer comeou a tampar seus marcadores de texto coloridos e coloc-los cuidadosamente de volta no estojo, certificando-se de que todos estivessem virados 
exatamente na mesma posio. Assim que colocou a caneta azul-eltrico no lugar, tudo dentro dela comeou a borbulhar, como se ela fosse um daqueles vulces expostos 
em feiras de cincias, entrando em erupo.
        - Recebi a ficha de inscrio para um curso de vero em Yale ontem, mas minha me jogou fora antes que eu pudesse preench-la - ela deixou escapar. Ela no 
podia contar para Andrew a respeito de Ian ou de A, mas era bom poder dizer alguma coisa. - Ela disse que no havia chance alguma de Yale me deixar entrar no programa 
de vero deles. E... meus pais estavam planejando uma arrecadao de fundos em Rosewood Day neste fim de semana, mas minha me no me contou a respeito. Eu costumo 
ajud-la a planejar esse tipo de coisa. E alm disso minha av morreu na segunda e...
        - Sua av morreu? -Andrew arregalou os olhos. - Por que voc no disse nada?
        Spencer piscou, sem entender. Por que ela contaria a Andrew que sua av havia morrido? No era como se eles fossem amigos.
        - Eu no sei. Mas enfim, ela deixou um testamento e eu no fui includa nele - prosseguiu ela. - Primeiro, pensei que fosse por causa da coisa toda com o 
Orqudea Dourada, mas depois minha irm ficou falando de como o testamento se referia a netos naturais. No levei a srio no incio, mas depois comecei a pensar 
no assunto. Faz muito sentido. Eu deveria ter percebido.
        - Espere - disse Andrew, sacudindo a cabea. - No entendi. Voc deveria ter percebido... o qu?
        Spencer respirou fundo.
        -  Desculpe - disse ela com calma. - Netos naturais quer dizer que um de ns no  neto biolgico dela. Quer dizer que eu sou... adotada.
        Spencer tamborilou as unhas na grande mesa de mogno na sala de estudos. Algum havia carvado Angela  uma galinha no tampo. Parecia estranho para Spencer 
dizer as palavras em voz alta: Eu sou adotada.
        -Talvez isso seja uma coisa boa - Spencer divagou, esticando suas longas pernas sob a mesa. - Talvez minha me biolgica possa realmente gostar de mim. E 
talvez eu possa dar o fora de Rosewood.
        Andrew estava quieto. Spencer olhou para ele, imaginando se havia dito algo ofensivo. Finalmente, ele se virou e olhou diretamente nos olhos dela.
        - Eu amo voc - disse ele.
        Os olhos de Spencer quase saltaram.
        -  Como  que ?
        -  um site - continuou Andrew com calma. Sua cadeira rangia enquanto ele se inclinava para trs. - Eu amo voc ponto com. Talvez o "voc" seja escrito "vc", 
no tenho certeza. Rene crianas adotadas com suas mes biolgicas. Uma garota que conheci na viagem para a Grcia me falou a respeito dele. Ela me escreveu um 
dia desses dizendo que funcionou. Iria se encontrar pessoalmente com a me biolgica na semana seguinte.
        - Ah. - Spencer fingiu esticar sua saia j perfeitamente passada, sentindo-se um pouco perturbada. Claro que ela no havia pensado que Andrew estava mesmo 
dizendo que a amava, nem nada.
        -Voc quer se cadastrar nele? -Andrew comeou a guardar seus livros na mochila. - Se voc no for adotada, eles simplesmente no encontraro uma combinao. 
Se voc for... talvez encontrem.
        - Hum... - A cabea de Spencer girava. - Certo. Claro. 
        Andrew andou em linha reta atravs da biblioteca at o laboratrio de informtica, e Spencer foi atrs. O salo principal de leitura estava praticamente 
vazio, exceto por alguns estudantes noturnos, dois garotos parados perto da copiadora - sem dvida tentando decidir se iriam xerocar seus rostos ou seus traseiros 
- e o que parecia uma reunio cult, com mulheres de meia-idade usando chapus azuis. Spencer pensou ter visto algum se abaixar atrs das estantes de autobiografia, 
mas quando olhou outra vez, no havia ningum l.
        O laboratrio de informtica ficava na parte da frente da biblioteca, isolado por grandes janelas de vidro. Andrew se sentou em frente a um terminal e Spencer 
puxou uma cadeira para perto dele. Ele mexeu o mouse e a tela acendeu.
        -Vamos l. - Andrew comeou a digitar e virou a tela na direo de Spencer. - Olha s.
        Reconectando famlias, anunciavam os dizeres em tons rosados no topo da pgina. Do lado esquerdo da tela havia uma srie de fotos e depoimentos de pessoas 
que haviam usado os servios do site. Spencer se perguntou se a amiguinha da Grcia de Andrew estaria ali - e se ela era bonita. No que ela tivesse ficado com cimes 
ou coisa do tipo.
        Spencer clicou em um link que dizia Cadastre-se aqui. Uma nova pgina se abriu, pedindo que ela respondesse vrias questes sobre si, que o site usaria depois 
para conectar Spencer  sua me em potencial.
        Os olhos de Spencer flutuaram de volta para os depoimentos. "Eu pensei que nunca encontraria. meu filho!" Sadie, quarenta e nove anos, escrevera. "Agora 
estamos juntos e somos os melhores amigos do mundo!" Uma garota chamada Angela, vinte e quatro anos, disse: "Eu sempre imaginei quem seria minha me verdadeira. 
Agora eu a encontrei, e estamos comeando uma loja de acessrios juntas!" Spencer sabia que o mundo no era to inocente e ingnuo assim - as coisas no funcionavam 
exatamente daquele jeito. Mas l no fundo, desejava que o mesmo acontecesse com ela.
        Ela engoliu em seco.
        - E se funcionar de verdade?
        Andrew colocou as mos nos bolsos de seu blazer.
        - Bem, isso seria bom, no seria?
        Spencer coou o maxilar, respirou fundo e comeou a digitar seu nome, nmero do celular e endereo de e-mail. Ela preencheu os espaos referentes  data 
e local de seu nascimento, os problemas de sade que enfrentara e seu tipo sanguneo. Quando chegou  questo que dizia "Por favor, explique por que voc est fazendo 
esta busca", seus dedos pairaram sobre o teclado, buscando a resposta apropriada. Porque minha famlia me odeia, ela quis digitar. Porque eu no significo nada para 
eles.
        Andrew lia por cima do ombro dela. Curiosidade, Spencer finalmente digitou. Em seguida respirou fundo e apertou "enviar".
        Brilha, brilha, estrelinha tocou nos pequenos alto-falantes do computador e a figura animada de uma cegonha voando ao redor do mundo apareceu na tela, como 
se buscasse, cuidadosamente, a pessoa ligada a Spencer.
        Spencer estalou as juntas dos dedos das mos, anestesiada com o que acabara de fazer. Quando olhou ao redor, de repente tudo parecia estranho. Frequentara 
aquela biblioteca durante toda a sua vida, mas nunca percebera que todas as pinturas a leo nas paredes da sala de informtica eram de florestas. Ou que havia uma 
placa grande atrs da porta que dizia USURIOS
DA BIBLIOTECA, QUANDO ESTIVERAM NA INTERNET, NUNCA USEM O
FACEBOOK OU O MYSPACE. Ela nunca reparara nos pisos de madeira cor de areia, ou nas enormes luminrias em forma de pentgono que pendiam majestosamente do teto da 
biblioteca.
        Quando ela olhou para Andrew, ele parecia um pouco diferente tambm - no bom sentido. Spencer ficou vermelha, se sentindo vulnervel.
        - Obrigada.
        - De nada. -Andrew ficou de p e se apoiou no batente da porta. - Ento, est se sentindo mais calma?
        Ela confirmou com a cabea.
        - Sim, estou.
        - Que bom. - Andrew sorriu e olhou o relgio. - Eu tenho que ir, mas vejo voc na aula amanh.
        Spencer observou enquanto ele andava pela biblioteca, acenava para a sra. Jamison, a bibliotecria, e passava pela catraca. Ela voltou seus olhos para o 
computador e acessou sua conta de e-mail. O site de adoo havia mandado uma mensagem de boas-vindas, avisando que era provvel que ela recebesse algum tipo de resposta 
num perodo que poderia variar entre alguns dias ou seis meses. Quando ela estava para desligar o computador, um novo e-mail apareceu na caixa de mensagens. O nome 
do remetente era uma confuso de letras e nmeros e o assunto do e-mail era Eu estou de olho.
        Arrepios percorreram as costas de Spencer. Ela abriu o e-mail e leu com ateno.
        Pensei que voc era minha amiga, Spence. 
        Mandei uma mensagenzinha fofa e voc ligou para a pol-
        cia... O que eu preciso fazer para manter vocs, meninas, 
        caladas?  srio, no me provoquem! - A
        - Ai, meu Deus - sussurrou Spencer.
        Houve um rudo atrs dela. Spencer se virou, tensa. No havia ningum na sala de informtica. Um holofote brilhava no ptio atrs da biblioteca, mas no 
havia uma nica pegada na neve branca resplandecente. Ento Spencer percebeu alguma coisa no lado de fora dos vidros da janela - uma respirao condensada no vidro, 
que desaparecia rapidamente.
        O sangue de Spencer congelou. Eu estou de olho. Algum estivera bem ali poucos segundos antes... e ela nem tinha percebido.
16
ESQUISITO ATRAI ESQUISITO
Na manh seguinte, Aria desceu as escadas esfregando os olhos. O cheiro do caf orgnico que Ella comprava na cooperativa dos agricultores - um dos poucos itens 
pelos quais ela pagava caro sem reclamar - foi o que a atraiu at a cozinha. Ella j havia sado para o trabalho, mas Mike estava comendo sua tigela de cereal Fruity 
Pebbles e twittando em seu iPhone. Quando Aria viu quem estava sentado prximo a Mike, deu um grito.
        -Ah!
        Xavier olhou para cima, alarmado.
        - Oi Aria, e a?
        Xavier vestia uma camisa branca simples e uma cala de pijama xadrez muito familiar. Primeiro, Aria pensou que poderia ser uma das que Byron havia deixado 
para trs, mas depois percebeu que eram de Ella. A caneca de caf da Hollis College favorita de Byron estava diante de Xavier, assim como o criptograma do Philadelphia 
Inquirer daquele dia. Aria cruzou os braos sobre o peito, castamente. Ela no pensara em vestir um suti para o caf da manh.
        Uma buzina tocou do lado de fora. A cadeira fez um barulho alto quando Mike ficou de p, leite escorrendo pelo queixo.
        -  o Noel. - Ele pegou sua enorme bolsa de lacrosse e se despediu de Xavier. - Wii hoje  noite, certo?
        - Estarei l - respondeu Xavier. 
        Aria olhou para o relgio.
        - So sete e vinte. - A escola s comeava em uma hora e Mike geralmente enrolava at o ltimo segundo.
        - Ns vamos pegar lugares timos no Steam pra podermos espiar Hanna Marin e a gostosa da meia-irm dela. - os olhos de Mike brilharam. -Voc j viu essa 
Kate? Eu no consigo acreditar que as duas moram juntas! Voc fala com Hanna s vezes... Sabe se elas dormem na mesma cama?
        Aria lhe lanou um olhar exasperado.
        -Voc honestamente espera que eu responda?
        Mike jogou sua bolsa sobre o ombro e atravessou o corredor derrubando o enorme totem com rosto de sapo que Ella havia encontrado em um brech na Turquia. 
A porta da frente bateu com fora. Aria escutou um motor ligando... E depois
nada.
        A casa estava desesperadamente quieta. A nica coisa que Aria ouvia era o som de uma ctara, de um CD de msica indiana que Ella sempre escutava antes de 
trabalhar - era comum que ela deixasse o CD tocando o dia todo, porque afirmava que aquela musica era tranquilizante para o gato deles, Polo, e para as plantas.
        -Voc quer uma parte do jornal? - disse Xavier, quebrando o silncio.
        Ele segurava a pgina da frente. No topo da pgina, podia-se ler em letras garrafais a manchete Ian Thomas jura encontrar o verdadeiro assassino de DiLaurentis 
antes do julgamento amanh. Aria tremeu.
        - No, tudo bem. - Ela se serviu com pressa de uma xcara de caf e disparou na direo da escada.
        - Espere. - Aria parou de maneira to abrupta que derramou parte de seu caf no cho. - Desculpe se eu deixei voc desconfortvel no restaurante ontem  
noite - disse Xavier, com ar srio. - Era a ltima coisa que eu tinha inteno de fazer. E eu queria ter ido embora antes de voc descer hoje. No queria deix-la 
ainda mais desconfortvel. Sei o quanto tudo isso deve ser estranho para voc.
        Aria desejou perguntar se ele queria dizer que aquilo tudo era estranho porque ele sabia que ela tinha ficado interessada nele, ou porque ele estava passando 
a noite com sua ainda-no-divorciada-me.
        - Est... tudo bem. - Aria colocou sua xcara de caf sobre a mesa de telefone perto da porta. Estava cheia de folhetos e cartes-postais dos recentes vernissages 
de Xavier. Ella devia ter pesquisado a fundo seu trabalho. Depois Aria ajeitou o short de seu pijama curtinho de algodo. Se ela ao menos no estivesse vestindo 
aquele pijama que tinha um enorme Pegasus cor-de-rosa estampado na traseira...
        Aria pensou na mensagem de A que recebera no Rabbit Rabbit no dia anterior. Wilden havia prometido ligar para ela assim que investigasse a origem da ltima 
mensagem de A. Ela esperava notcias dele para poder esquecer toda essa histria.
        Aria se perguntara se deveria explicar as fotos dela e Xavier para Ella antes que A tivesse a chance de fazer isso. Ela tentou imaginar como seria. Bem, 
eu meio que gostei de Xavier antes de voc comear a se encontrar com ele, ela poderia dizer. Mas no  que eu goste agora! Ento, se algum mandar uma mensagem 
com fotos para voc, ignore-as, tudo bem? Mas a relao delas estava frgil demais para levantar questes como esta - especialmente se no fosse absolutamente necessrio.
        A verdade  que Wilden devia ter razo. As mensagens deviam estar vindo de alguma garota idiota. E no havia motivo para Ella ficar com raiva de Xavier - 
ele apenas desenhara Aria, um desenho realmente bom. S isso. Mesmo que ela visse as fotos que A enviara para Aria, Xavier poderia se intrometer e explicar que nada 
acontecera. Ele provavelmente nem tinha notado o que fizera, desenhando o retrato de Aria to detalhadamente. Xavier era um artista, antes de mais nada, e artistas 
no so as criaturas mais sociveis no mundo. Veja Byron: quando ele promovia coquetis para seus estudantes de Hollis, com frequncia se escondia no quarto, forando 
Ella a distrair os convidados.
        Xavier se levantou, limpando o queixo com um guardanapo.
        - O que acha de uma recompensa? Vou me vestir e depois dou uma carona a voc.
        Aria baixou os ombros. Ella havia levado o carro para o trabalho nesta manh, e uma carona definitivamente pouparia o trabalho de pegar o nibus de Rosewood 
Day, que era cheio de garotos do primrio que nunca se cansavam de concursos de pum.
        - Tudo bem - concordou ela. - Obrigada.
        Vinte minutos depois, Aria estava colocando o casaco de botes que havia comprado em um brech em Paris e andando at a varanda da frente. Xavier aguardava 
por ela em seu BMW 2002 do fim dos anos 1970, impecavelmente restaurado e com o escapamento barulhento, na entrada de carros da casa deles. Aria se acomodou no banco 
da frente, admirando o lustroso interior cromado.
        -  assim que carros antigos devem ser! - Ela assobiou impressionada. - J viu o Honda velho da minha me? H mofo crescendo no bando de trs.
        Xavier deu uma risada.
        - Meu pai tinha um desses quando eu era mais novo. - Ele manobrou na estrada de carros. - Depois que meus pais se separaram e ele se mudou para o Oregon, 
senti mais falta do carro do que dele.
        Ele deu uma olhada amistosa para Aria.
        - Eu sei o quanto isso tudo  estranho. Minha me comeou a namorar logo depois que eles se separaram. Eu odiei cada momento.
        Ento, era isto que ele queria dizer. Aria olhou fixamente para a outra direo, observando alguns estudantes mais novos da escola pblica esmagando os montes 
de neve que rapidamente derretiam no ponto de nibus. A ltima coisa que ela queria ouvir era mais uma histria estilo eu j passei por isso. Sean Ackard, com quem 
ela havia sado por mais ou menos um minuto no ltimo outono, tinha falado seriamente sobre as dificuldades que enfrentara com a morte da me e o novo casamento 
do pai. E Ezra ficou se lamentando, dizendo que quando seus pais se separaram, ele fumou toneladas de haxixe. Uhuh, a vida de todo mundo era uma droga tambm, mas 
saber disso no tornava os problemas de Aria mais fceis.
        -Todos os namorados da minha me tentaram se aproximar de mim - prosseguiu Xavier. - Eles me compravam equipamentos de esporte, como luvas de beisebol, bolas 
de basquete, uma vez at um uniforme completo de hquei, com acessrios e tudo. Se realmente tivessem tentado aprender alguma coisa a meu respeito, teriam descoberto 
que eu queria uma batedeira. Ou formas de bolo. Ou formas de muffin. 
        Aria olhou intrigada para ele.
        - Formas de muffin? 
        Xavier sorriu sem jeito.
        -  Eu gostava mesmo era de cozinhar. - Ele freou antes da faixa de pedestres para esperar que um bando de crianas passasse. - Ajudava a me acalmar. Eu era 
especialmente bom em suspiros. Mas isso foi antes de eu descobrir a =. Eu era o nico rapaz do clube de economia domstica da escola. Na verdade,  da que vem o 
meu apelido no Match.com, Wolfgang. Eu era obcecado por Wolfgang Puck quando estava no ensino mdio. Ele era o dono de um restaurante em Los Angeles chamado Spago, 
e uma vez no ensino mdio, dirigi de Seattle at l, pensando que poderia simplesmente entrar sem reserva. - Ele revirou os olhos. - Acabei a noite jantando no Arby's.
        Aria olhou para ele, percebendo sua expresso sria. Ela riu. 
        -Voc  to menininha.
        - Eu sei. - Xavier abaixou a cabea. - Eu no era muito popular no colgio. Ningum me entendia.
        Aria correu os dedos atravs de seu longo rabo de cavalo preto.
        - Eu tambm j fui nem um pouco popular. 
        -Voc? - Xavier balanou a mo. - No acredito.
        -  Verdade - disse Aria com calma. - Ningum me entendia mesmo.
        Ela se recostou no banco do carro, perdida em seus pensamentos.Aria sempre tentara no pensar nos anos solitrios, sem amigas de verdade, que precederam 
sua amizade com Ali, mas ver aquela foto em preto e branco dela no outro dia - a foto da poca em que a Cpsula do Tempo fora anunciada - havia reavivado um monte 
de lembranas.
        Quando Aria estava no quarto ano, todo mundo na sua turma em Rosewood Day era amigo de todo mundo. Mas no quinto ano, de repente as coisas... mudaram. Panelinhas 
de fofoca surgiram literalmente da noite para o dia, e todo mundo sabia o seu lugar. Era como um jogo das cadeiras: depois que a msica parava, todas as suas companheiras 
de turma logo encontravam uma cadeira, enquanto Aria andava para l e para c, sem rumo, sem cadeira.
        Ela bem que tentou encontrar um grupo. Uma semana, ela usava roupas pretas e coturnos e andava com os desajustados que furtavam qualquer coisa no supermercado 
Wawa e dividiam cigarros atrs do escorregador em formato de drago antes das aulas. Mas ela no tinha nada em comum com eles. Todos eles desprezavam a leitura, 
mesmo coisas divertidas como Nrnia. Na semana seguinte, ela desencavava suas roupas vintage cheias de babado e tentava se juntar s garotas enjoadas que amavam 
Helio Kitty e achavam os garotos rudes. Elas eram difceis de aguentar. Uma dessas meninas chorou por trs horas depois de pisar sem querer em uma joaninha durante 
o intervalo. Aria no se encaixava em nenhum grupo, e, por fim, parara de tentar. Passava muito tempo sozinha, ignorando todo mundo o mximo que conseguia.
        Bem, ela ignorava todo mundo que no fosse Ali. Claro, Ali era uma Tpica Garota de Rosewood, mas havia algo nela que deixava Aria fascinada. No dia em que 
Ali desfilara pela escola anunciando que encontraria o pedao de bandeira da Cpsula do Tempo, Aria no conseguiu evitar desenhar o lindo rosto de Ali, aquele rosto 
em formato de corao, com seu sorriso estonteante. Ela invejava a maneira como Ali conseguia se tornar querida pelos garotos sem esforo nenhum, inclusive os mais 
velhos, como Ian. Mas a coisa de que Aria mais gostava em Ali era de seu irmo mais velho, sensvel e lindo.
        No dia em que Jason foi para cima de Ian mandando que deixasse Ali em paz, Aria j tinha se apaixonado por ele de forma irrefrevel e muito dolorosa. Durante 
semanas, ela tinha entrado furtivamente pela biblioteca do ensino mdio 4urante seus perodos livres para observ-lo com seu grupo de estudos de alemo. Escondia-se 
atrs de uma rvore que oferecia uma viso panormica dos campos de futebol para espi-lo enquanto ele, que jogava na posio de goleiro, se agachava abaixo da trave. 
Em alguns momentos, ela folheou os antigos Livros do Ano na sala do Livro do Ano para encontrar todas as informaes que pudesse a respeito de Jason. Era uma das 
poucas ocasies em que Aria ficava satisfeita de no ter amigos. Ela podia curtir sua paixo no correspondida em paz, sem ter que explicar nada a ningum.
        Logo depois de a Cpsula do Tempo ser anunciada, ela colocou o exemplar assinado de Matadouro 5, de Vonnegut, na mochila. Uma das coisas que havia lido sobre 
Jason era o quanto ele amava Kurt Vonnegut. O corao de Aria saltava enquanto ela esperava Jason voltar da sala de jornalismo depois de sua aula de fundamentos 
de redao jornalstica. Quando o viu, pegou o livro na bolsa, esperando mostr-lo para ele quando passasse. Quando Jason descobrisse que Aria tambm gostava de 
Vonnegut, talvez percebesse que os dois eram almas gmeas.
        Mas a sra. Wagner, a secretria-chefe, passou na frente de Aria no ltimo minuto e pegou o brao de Jason. Havia uma ligao importante para ele no escritrio.
        - Uma garota - explicou a sra. Wagner. Ele passou por Aria sem nem mesmo olhar para ela.
        Aria colocou o livro de volta na mochila, desconcertada. A garota no telefone provavelmente era da idade de Jason e de uma beleza estonteante, enquanto Aria 
no passava de uma esquisitona do sexto ano. No dia seguinte a este, Aria, Emily, Spencer e Hanna apareceram todas ao mesmo tempo no quintal de Ali. Elas tinham 
claramente a mesma esperana, o mesmo plano: roubar a bandeira da Cpsula do Tempo de Ali. Aria nem ligava tanto para roubar a bandeira - ela queria apenas outra 
oportunidade para ver Jason. Mal sabia ela que teria finalmente seu desejo atendido.
        Xavier puxou o freio da antiga BMW, arrastando Aria de volta para a realidade. Eles estavam em uma vaga de estacionamento bem em frente a Rosewood Day.
        - Eu ainda no acho que as pessoas me entendam - concluiu Aria, olhando para o imponente muro da escola na frente deles -, nem mesmo agora.
        - Bem, talvez seja porque voc  uma artista - comentou Xavier, gentilmente. - Artistas nunca se sentem compreendidos. Mas  o que torna voc especial.
        Aria correu os dedos na parte lateral de sua bolsa de pelo de iaque.
        - Obrigada - disse ela, apreciando de verdade as palavras dele. Em seguida, acrescentou, com um sorriso afetado: - Wolfgang.
        Xavier franziu a testa.
        - At mais. - Ele acenou e saiu com o carro.
        Aria observou enquanto a BMW serpenteou pela pista em direo  rua principal. Depois ouviu o que parecia uma risada perto de seu ouvido. Ela virou, tentando 
adivinhar de onde vinha, mas ningum estava olhando para ela. O estacionamento da escola estava cheio de garotos. Devon Arliss e Mason Byers tentavam empurrar um 
ao outro em uma poa de lama. Scott Chin, o fotgrafo do Livro do Ano, estava apontando sua cmera para os galhos nus e tortos no topo de uma rvore, e, um pouco 
afastada dele, estava Jenna Cavanaugh com seu co-guia, seguindo pelo caminho escorregadio. A cabea de Jenna estava erguida, sua pele plida brilhava, e o cabelo 
escuro esvoaava sobre sua capa de veludo vermelha. Se no fosse o basto branco e o co-guia, Jenna seria uma linda Tpica Garota de Rosewood.
        Jenna parou apenas a alguns passos de Aria, parecendo olhar para ela.
        Aria parou por um instante.
        - Oi, Jenna - disse, devagar.
        Jenna inclinou a cabea, sem ouvir, e certamente sem ver, antes de puxar a coleira do cachorro e continuar caminhando at a escola.
        Os braos e as pernas de Aria se arrepiaram e um tremor gelado correu de sua cabea at a ponta dos dedos dos ps. Ainda que estivesse gelado do lado de 
fora, Aria estava bem certa de que a temperatura no era responsvel por aquelas sensaes.
17
AH, OS SACRIFCIOS PARA SER POPULAR
- Parece que Kirsten Cullen engordou um pouco - sussurrou Naomi no ouvido de Hanna. - Os braos dela no esto mais cheios?
        - Definitivamente - cochichou Hanna de volta. - Mas isso acontece quando voc bebe cerveja nas festas de Natal.
        Ela observou enquanto Sienna Morgan, uma linda garota do terceiro ano passou por elas, sua bolsa Vuitton pendendo do ombro.
        - E vocs sabem a verdade a respeito da bolsa de Sienna, no , meninas? - Ela olhou para as outras, parando para um efeito dramtico. - Ela comprou em um 
outlet.
        Naomi ps a mo na boca. Riley colocou a lngua para fora, enojada. Kate sacudiu o cabelo castanho sobre o ombro, buscando um batom dentro de sua autntica 
Vuitton.
        - Ouvi que as coisas em outlets so falsas - murmurou Kate. 
        Era quinta-feira de manh, antes das aulas, e Hanna estava sentada com Kate, Naomi e Riley na melhor mesa do Steam. Msica clssica comeou a tocar nos alto-falantes, 
o que significava que era hora da primeira aula. Hanna e Kate se levantaram e saram de braos dados, e Naomi e Riley seguiram atrs. Elas eram uma parada de quatro 
garotas, seguida por um squito de rapazes. O cabelo ruivo de Hanna balanava no ritmo de seus passos. Naomi parecia avanada na moda com suas botas verde-floresta 
at o tornozelo. Normalmente reta como uma tbua, Riley parecia mais... cheinha naquele dia, graas ao suti Wonderbra que as amigas a haviam obrigado a comprar 
no Shopping King James no dia anterior. Sem dvida nenhuma fora a maior farra de compras que Hanna tivera nos ltimos tempos. No era de se estranhar que um pequeno 
grupo de meninas do ,terceiro ano perto do Achados e perdidos lanasse olhares carregados de inveja para elas. No era de se estranhar que Noel Kahn, Mike Montgomery, 
James Freed e o restante do time de lacrosse estivessem dando uma olhadela para elas da mesa no fundo da cafeteria. Fazia pouco tempo desde que Hanna se desculpara 
com Naomi e Riley, mas todo mundo na escola j entendera que elas formavam o novo grupo de garotas a se invejar, as garotas que todos deveriam conhecer. E aquela 
era uma sensao muito boa.
        De repente, Hanna sentiu a mo de algum em seu brao.
        -Voc tem um segundo?
        Spencer encolhia-se contra os armrios. Seu cabelo louro escuro estava puxado para trs e seus olhos iam de um lado para o outro. Parecia um brinquedo de 
corda cuja chave tivesse recebido todas as voltas que podia.
        - Ah... Eu estou ocupada - disse Hanna, tentando se livrar da amiga.
        Mesmo assim, Spencer a empurrou no vo que ficava ao lado da alcova da fonte de gua. Kate olhou por sobre o ombro para ela, levantando uma sobrancelha, 
mas Hanna fez um gesto indicando que estava tudo bem.
        Depois se virou para sua antiga amiga.
        - Meu Deus, o que foi? - perguntou ela.
        - Recebi outra mensagem ontem  noite. - Spencer enfiou seu Sidekick sob o nariz de Hanna. - Olhe.
        Hanna leu a mensagem em silncio. Eu pensei que fssemos amigas, Spence! Bl-bl-bl.
        - Sei. E da? - respondeu Hanna.
        - Eu estava na biblioteca de Rosewood na hora. E quando virei, vi o vidro da janela embaado. Marcas de respirao. Eu juro por Deus que  Ian. Ele est 
nos observando.
        Hanna fungou. Aquele provavelmente era o momento de mostrar a mensagem que tambm recebera de A no dia anterior, mas isso significaria que ela acreditava 
que as mensagens fossem algo a temer.
        - Wilden nos disse que  algum imitando A - sussurrou ela. - No  Ian!
        - Tem que ser Ian! - gritou Spencer, perdendo o controle, e um grupo de garotas mais jovens vestidas com uniformes de inverno de chefes de torcida olharam 
com espanto na direo delas. - Ele est fora da cadeia. Ele no quer que ns testemunhemos contra ele, ento est tentando nos assustar. Faz muito sentido, no 
faz?
        - Ian est em priso domiciliar - Hanna lembrou a ela. -  mais provvel que essas mensagens venham de algum garoto idiota de Rosewood que a viu no noticirio, 
achou que voc era sexy, e acredita que esta seja uma forma de conseguir sua ateno. E voc sabe o qu? Ele conseguiu sua ateno. Ele venceu. A melhor coisa que 
voc pode fazer  ignor-lo.
        - Aria tambm recebeu outra mensagem. - Spencer virou a cabea e deu uma olhada no corredor, como se Aria fosse se materializar ali miraculosamente. - Ela 
falou sobre isso com voc?Voc sabe se Emily recebeu alguma?
        - Por que voc no vai incomodar Wilden com isso? - disse Hanna apressada, dando um passo para trs.
        -Voc acha que eu deveria? - Spencer colocou o dedo no queixo. - A mensagem diz que eu deveria ficar quieta.
        Hanna zombou dela.
        -Voc  to boba - disse ela. - ... um... imitador.
        Com isto, ela deu de ombros e virou-se. Spencer deu um gritinho de indignao, mas Hanna a ignorou. Ela no ia deixar esse falso A manipul-la - ela no 
seria a mesma garotinha fraca e assustada de poucos meses atrs. Sua vida estava diferente
agora.
        Kate, Naomi e Riley estavam juntas no fim do corredor, perto da janela que dava para o campo de futebol coberto de neve. Hanna foi at elas, esperando no 
ter perdido nada legal. Elas estavam conversando sobre o que vestiriam na festa de arrecadao de fundos para Rosewood Day na casa de Spencer no sbado  noite. 
O plano era fazer uma sesso de bronzeamento artificial na Sun Land pela manh, depois fazer ps e mos no Fermanata  tarde para, em seguida, ir  casa de Naomi 
trocar de roupa e fazer a maquiagem antes de entrarem em um carro alugado. Elas consideraram alugar uma grande limusine Hummer, mas Kate as informara que Hummers 
eram to dois
anos atrs...
        - Os fotgrafos das colunas sociais podem estar l, ento vou usar meu vestido frente nica Derek Lam. - Naomi tirou uma mecha de franjas de seu cabelo louro 
clarssimo dos olhos. - Minha me disse que eu tenho que guard-lo para o baile, mas eu sei que ela esquecer em uma semana e me deixar comprar outra coisa.
        - Ou todas ns poderamos usar vestidos parecidos - sugeriu Riley, parando para olhar seu estojo de p compacto Dior. - O que acham daqueles vestidos da 
Sweetface que ns vimos na Saks ontem?
        - Sweetface, eca. - Naomi colocou a lngua para fora.
        - No deveriam deixar celebridades desenharem roupas.
        -  Aqueles vestidos so  curtos  e muito fofos - insistiu Riley.
        - Parem de brigar - disse Kate, incomodada. - Ns vamos ao King James outra vez hoje  tarde, tudo bem? Deve haver toneladas de lojas l que ainda no vimos. 
Todas ns encontraremos alguma coisa fabulosa. O que voc acha, Hanna?
        - Combinado. - Hanna balanou a cabea. Naomi e Riley logo concordaram.
        - E ns precisamos encontrar um namorado para voc tambm, Kate. - Naomi abraou Kate pela cintura. - H tantos meninos fofos nesta cidade.
        - E o irmo do Noel, Eric? - sugeriu Riley, encaixando seu traseiro magricela na sada de ar quente. - Ele  to sexy.
        - Ele saiu com Mona. - Naomi olhou para Hanna. - Isso no , tipo, estranho?
        -  No - disse Hanna rapidamente. Pela primeira vez ela no sentira uma pontada de dor ao ouvir o nome de Mona.
        - Eric seria mesmo perfeito para Kate. - Naomi arregalou os olhos. - Ouvi dizer que quando ele estava namorando Briony Kogan, eles escaparam para Nova York 
e ficaram em uma cobertura no Mandarin Oriental. Eric a levou em um passeio de carruagem pelo Central Park e comprou para ela uma pulseira do amor da Cartier.
        - Eu tambm ouvi falar sobre isto! - Riley se empolgou.
        - Bem, eu no reclamaria de namorar um cara romntico assim - admitiu Kate. Fazendo um beicinho dissimulado, Hanna acenou com a cabea, entendendo sua referncia 
 relao secreta, desastrosa e complicada com o Garoto Herpes em Annapolis. Ainda que Kate no tivesse confirmado que era herpes, ela havia pedido que Hanna no 
tocasse neste assunto com suas novas amigas.
        Hanna sentiu outra mo em seu brao e virou assustada, achando que fosse Spencer outra vez. Mas era Lucas.
        - Oh, oi. - Hanna passou a mo pelo cabelo fazendo charme. Nos ltimos dias, ela havia se comunicado com Lucas apenas por e-mails e mensagens rpidas, ignorando 
suas muitas ligaes. Ela estivera ocupada, cultivando seu novo grupo, que era uma arte to delicada quanto bordar um vestido de alta-costura. Com certeza Lucas 
entenderia.
        Hanna percebeu uma pequena mancha do que deveria ser um restinho da cobertura de uma rosquinha na ponta do nariz de Lucas. Geralmente, ela achava fofa esta 
falta de habilidade que ele tinha de conseguir colocar toda a comida na boca, mas, na frente de Kate, Naomi e Riley, era desconcertante. Ela limpou aquilo. A vontade 
dela era tambm colocar a camisa dele dentro da cala, amarrar os cadaros de seus tnis Converse bem apertados e arrumar seu cabelo - parecia que ele havia esquecido 
de usar o gel Ceylon-scented que ela havia comprado para ele na Sephora -, mas aquilo a faria parecer esnobe.
        Kate deu um passo para a frente, rindo alto.
        - Oi, Lucas. Legal ver voc outra vez.
        Os olhos de Lucas foram do brao de Kate, que estava de braos dados com Hanna, para o rosto de Hanna, depois de volta para o brao de Kate. Hanna sorriu 
de maneira tola, rezando para Lucas ficar de boca calada. A ltima vez que ele havia visto Hanna e Kate juntas havia sido nas frias de inverno, quando ele fora 
apanhar Hanna para esquiar. Hanna nem havia se incomodado em apresentar Kate a ele, fingindo que sua meia-irm no era nada alm de uma pea na moblia da sala. 
Ela no tivera tempo de contar a ele a respeito das ltimas reviravoltas.
        Kate tossiu, parecendo se divertir.
        -  Bem, ns deveramos deixar os pombinhos a ss, meninas.
        - Eu alcano vocs - disse Hanna de maneira discreta.
        - Tchau, Lucas - disse Kate enquanto ela, Naomi e Riley desciam o corredor.
        Lucas mudou os livros de brao. 
        -Bem...
        - Eu sei o que voc vai dizer - interrompeu Hanna, com a voz tensa. - Decidi dar uma chance a Kate.
        - Mas eu achei que voc tinha dito que ela era demonaca. 
        Hanna colocou as mos na cintura.
        - E o que eu devo fazer? Ela vive na minha casa. Meu pai praticamente disse que me rejeitaria se eu no fosse legal com ela. Ela se desculpou, e eu decidi 
aceitar as desculpas. Por que voc no pode simplesmente aceitar e ficar feliz por mim?
        - Tudo bem, tudo bem. - Lucas deu um passo para trs, rendendo-se. - Eu estou feliz por voc. No tive a inteno de parecer que no estava. Desculpe.
        Hanna suspirou.
        -Tudo bem. - Mas Lucas tinha acabado com sua pacincia. Ela tentou ouvir o que Kate, Naomi e Riley estavam dizendo, mas elas estavam longe demais. Ser que 
ainda estavam falando sobre vestidos ou teriam mudado para sapatos?
        Lucas abanou a mo na frente de Hanna com um olhar preocupado no rosto.
        -Voc est bem? Voc parece meio... estranha.
        Hanna deu seu melhor sorriso.
        - Eu estou bem. tima, na verdade. Mas ns deveramos ir, certo? Vamos nos atrasar para a aula.
        Lucas concordou, ainda olhando engraado para Hanna. Finalmente, ele suspirou, inclinou-se e beijou seu pescoo.
        - Falamos mais sobre isto depois.
        Hanna observou enquanto Lucas se dirigia para a o setor das salas de cincias da escola. Nas frias de inverno, Hanna e Lucas haviam construdo uma grande 
mulher de neve, algo que Hanna no fazia desde que era pequena. Lucas dera  mulher de neve grandes seios de cirurgia plstica, e Hanna havia amarrado seu cachecol 
da Burberry ao redor do pescoo dela. Depois que terminaram, tiveram uma guerra de bola de neve, em seguida entraram e fizeram cookies de chocolate. Hanna, polidamente, 
comera apenas dois.
        Aquela era sua lembrana preferida das frias de inverno, mas agora Hanna se perguntava se ela e Lucas no deveriam ter feito algo mais maduro. Tipo dar 
uma escapada para o Mandarin Oriental em Nova York, por exemplo, e comprar joias na Quinta Avenida.
        Os corredores estavam quase vazios, e muitos professores j fechavam as portas de suas salas de aula. Hanna comeou a andar pelo corredor, balanando o cabelo 
e tentando ao mximo espantar aquela sensao de estranheza. Um pequeno toque soou dentro de sua bolsa, fazendo-a pular. Seu celular.
        Um n de preocupao comeou a pulsar no estmago de Hanna. Quando ela olhou para a tela, ficou aliviada ao ver que era de Lucas.
        Esqueci de perguntar: ns ainda vamos nos encontrar esta 
        tarde? Mande uma mensagem quando voc receber esta.
        A msica clssica que eventualmente servia de sinal j silenciara, o que significava que Hanna estava atrasada. Ela havia esquecido que oferecera ajuda a 
Lucas para escolher novas calas jeans no shopping. Mas ela odiava a ideia de Kate, Naomi e Riley comprando vestidos sem ela, e parecia estranho ter a companhia 
de Lucas.
        No posso, respondeu ela, digitando enquanto andava. Desculpe.
        Ela apertou enviar e fechou o telefone. Quando virou a esquina, viu suas novas melhores amigas de p no fim do corredor, esperando por ela. Hanna sorriu 
e as alcanou, afastando a sensao de culpa e desolao. Afinal, ela era Hanna Marin, e era fabulosa.
18
UM JRI DE UM S JURADO
Na noite de quinta-feira, Spencer se sentou  mesa de jantar sozinha. Melissa havia ido se encontrar com uns amigos uma hora antes, e seus pais saram porta afora, 
mal dizendo adeus. Ela teve que vasculhar na geladeira em busca de algumas caixas de comida chinesa velha para jantar.
        Spencer olhou para a pilha de correspondncia sobre a mesa. Fenniworth College, uma escola insignificante do centro da Pensilvnia, lhe enviara um catlogo 
e uma carta dizendo que seria um prazer mostrar o campus para ela. Mas a nica razo pela qual Fenniworth ainda desejava que Spencer se inscrevesse era provavelmente 
o dinheiro de sua famlia. Dinheiro ao qual ela pensara ter direito - at agora.
        Ela tirou o celular Sidekick do bolso e verificou sua caixa de e-mail pela terceira vez em quinze minutos. Nenhuma novidade do site de adoo. Nenhuma novidade 
do novo assustador A. E, infelizmente, nenhuma novidade de Wilden. Seguindo a sugesto de Hanna, Spencer ligara para ele para contar sobre a mensagem recebida na 
biblioteca, acrescentando que estava certa de que algum a estava observando pelas janelas.
        Mas Wilden parecera distrado. Ou talvez ele no acreditasse nela - talvez a considerasse uma testemunha no confivel tambm. Ele lhe garantira mais uma 
vez que aquilo era apenas uma brincadeira sem graa de algum garoto entediado atrs de confuso, e que ele e o restante da fora policial de Rosewood estavam investigando 
a origem das mensagens. Em seguida, ele desligou o telefone enquanto Spencer estava no meio de uma frase. Ela olhou para o celular, louca de raiva.
        Candace, a empregada, comeou a esfregar o fogo, enchendo o ambiente com o cheiro de eucalipto do produto de limpeza. A ltima temporada de America's Next 
Top Model, o programa favorito de Candace, soava baixinho na tela da TV sobre os armrios. O pessoal do buffet tinha acabado de deixar parte da comida para a festa 
de angariao de fundos de sbado e a adega j entregara vrias caixas de vinho. Algumas garrafas grandes estavam sobre a bancada da cozinha, recordaes constantes 
de que Spencer no estava includa nos preparativos da festa. Se ela estivesse, certamente no teria pedido Merlot -teria pedido algo com mais classe, como Barolo.
        Spencer olhou para a televiso enquanto um monte de garotas lindas desfilavam em uma passarela improvisada em um necrotrio, exibindo o que parecia ser uma 
cruza entre biqunis e camisas de fora. De repente, a tela da televiso escureceu. Spencer ergueu a cabea. Candace deixou escapar um grunhido frustrado. O logo 
do noticirio local surgiu na tela.
        - Furo de reportagem em Rosewood! - disse um jornalista. Spencer pegou o controle remoto e aumentou o volume.
        Um reprter com olhos de besouro cercado por um grupo de pessoas estava diante do frum de Rosewood.
        -Temos novas informaes sobre o julgamento antecipado do caso Alison DiLaurentis. Apesar da especulao sobre a falta de evidncias, a promotoria anunciou 
h poucos minutos que o julgamento acontecer na data marcada.
        Spencer apertou o cardig de cashmere ao redor do pescoo, deixando escapar um grande suspiro de alivio. Depois a reportagem passou a mostrar a imagem da 
grande casa de Ian, com uma bandeira americana se agitando na varanda da frente.
        - O sr. Thomas foi liberado em fiana temporria at o inicio de seu julgamento - anunciou o reprter. - Falamos com ele na noite passada para saber como 
estava.
        A imagem de Ian surgiu na tela.
        - Eu sou inocente - protestou ele, os olhos arregalados. - Algum  responsvel por isto, no eu.
        - Credo - disse Candace, balanando a cabea. - No posso acreditar que esse garoto j esteve nesta casa.
        Ela pegou uma lata do purificador de ar Febreeze e jogou um jato na direo da televiso, como se a mera presena de Ian na tela tivesse deixado um odor 
ruim no ambiente.
        O reprter terminou e ANTM voltou. Spencer ficou de p, sentindo-se tonta. Ela precisava de um pouco de ar... e tirar Ian da cabea. Com passos incertos, 
saiu pela porta dos fundos em direo ao jardim, quando uma rajada de ar gelado atingiu seu rosto. O termmetro em forma de gara que balanava em uma estaca perto 
da churrasqueira indicava que a temperatura era de apenas um grau, mas Spencer no se preocupou em entrar em casa para pegar um casaco.
        Estava calmo e escuro na varanda. A floresta atrs do celeiro - o ltimo lugar em que Spencer vira Ali viva - parecia mais sombria que de costume. Quando 
ela virou e olhou para o seu quintal da frente, uma luz na casa dos Cavanaugh acendeu. Uma figura alta, de cabelos escuros, andou perto da janela da sala. Jenna. 
Ela estava passando por ali, falando ao telefone, seus lbios movendo-se com rapidez. Spencer sentiu um calafrio, incomodada. Era de uma estranheza to grande ver 
algum usando culos escuros dentro de casa... e  noite. 
        - Spencer - algum sussurrou muito perto. 
        Spencer virou na direo da voz e seus joelhos falharam. Ian estava de p no outro lado da varanda. Ele vestia uma jaqueta preta da North Face fechada at 
o nariz e um gorro de esqui preto que cobria suas sobrancelhas. A nica coisa que Spencer conseguia ver eram seus olhos. Ela comeou a gritar, mas Ian levantou a 
mo.
        - Shhhh. Escute s um segundo.
        Spencer estava to assustada que poderia jurar que seu corao estava saltando no peito.
        - Co-como voc saiu da sua casa? 
        Os olhos de Ian brilharam.
        - Eu tenho os meus meios.
        Ela deu uma olhada para a janela da cozinha, mas Candace havia sado de l. Seu Sidekick estava a uma pequena distncia, guardado em sua capa verde-hortel 
de couro Kate Spade, sobre a mesa molhada do jardim. Ela tentou alcan-lo.
        - No - implorou Ian, falando num tom mais suave. Ele abriu um pouco seu casaco e tirou o gorro. Seu rosto parecia mais magro e o cabelo ficou bagunado.
        - Eu s quero falar com voc - disse ele. - Ns costumvamos ser bons amigos. Por que voc fez isso comigo?
        Spencer ficou boquiaberta.
        - Porque voc matou minha melhor amiga, por isso!
        Ian vasculhou o bolso do casaco, sem que seus olhos se desviassem dela em nenhum momento. Devagar, ele tirou uma caixa de cigarros Parliament do bolso e 
acendeu um com seu isqueiro Zippo. Era algo que Spencer pensava que nunca veria. Ian costumava fazer propagandas das campanhas governamentais de combate ao fumo 
ao lado de outros garotos bem-comportados de Rosewood.
        Uma nuvem de fumaa azulada serpenteou para fora de sua boca.
        - Voc sabe que eu no matei Alison. Eu no tocaria em um fio de cabelo dela.
        Spencer segurou as estacas lisas de madeira ao longo da lateral da varanda para se equilibrar.
        -Voc a matou - reiterou ela, sua voz vacilante. - E se voc acha que as mensagens que nos enviou vo nos assustar para no testemunharmos contra voc, est 
enganado. Ns no temos medo de voc.
        Ian inclinou a cabea, triste.
        - Que mensagens?
        - No banque o idiota - grunhiu Spencer.
        Ian fungou, ainda confuso. Spencer olhou para o buraco no quintal dos DiLaurentis. Estava to pr6xmo. Seus olhos se deslocaram para o celeiro, o lugar onde 
dormiram juntas pela ltima vez. Todas elas estavam muito empolgadas porque o stimo ano tinha acabado. Claro, havia alguma tenso entre todas elas, e claro, Ali 
havia feito muitas coisas que irritaram Spencer, mas ela estava certa de que se passassem tempo suficiente juntas naquele vero, longe de todo mundo do colgio, 
se tornariam to prximas quanto antes.
        Mas houve aquela briga estpida sobre fechar as cortinas para que Ali pudesse hipnotiz-las. Antes que Spencer percebesse, a discusso sara do controle. 
Ela disse a Ali para ir embora... e Ali foi.
        Por muito tempo, Spencer se sentiu mal pelo que havia acontecido. Se ela no tivesse dito a Ali para ir embora, talvez a amiga no estivesse morta. Mas agora 
ela sabia que nada que tivesse feito teria feito diferena. Ali planejara escapar dali. Ela provavelmente estava doida para encontrar Ian, para saber o que ele havia 
decidido - terminar com Melissa, ou deixar Ali contar para todo mundo a respeito da relao ooooh-to-inapropriada deles. Ali se empolgava com coisas assim, com 
a possibilidade de medir seu poder de manipulao sobre as pessoas. Ainda assim, aquilo no dava a Ian o direito de assassin-la.
        Os olhos de Spencer se encheram de lgrimas. Ela pensou na foto antiga que elas viram antes de os noticirios anunciarem a liberao de Ian, a foto do dia 
do anncio da Cpsula do Tempo. Ian tivera a audcia de ir at Ali e dizer que a mataria. Quem sabe, talvez ele quisesse mesmo mat-la j naquela poca. Talvez ele 
desejasse v-la morta desde ento. E talvez pensasse ter cometido o crime perfeito. Ningum nunca suspeitar de mim, ele poderia ter pensado. Afinal de contas, eu 
sou Ian Thomas.
        Tremendo, ela olhou para Ian.
        - Voc realmente achou que fosse escapar depois do que fez? O que estava passando pela sua cabea enquanto voc se divertia com Ali? Voc no sabia que era 
errado? Voc no percebeu que estava se aproveitando dela?
        Um corvo grasnou na distncia, um som alto e feio.
        - Eu no estava me aproveitando dela - disse Ian. 
        Spencer fungou.
        - Ela estava no stimo ano... voc estava no fim do ensino mdio. Isto no parece estranho para voc? - Ian piscou. - Ento ela importunou voc com um ultimato 
idiota - prosseguiu Spencer, com as narinas dilatadas. -Voc no precisava lev-la a srio. Voc deveria ter simplesmente dito a ela que no queria
mais v-la!
        -  isso que voc acha que aconteceu? - Ian parecia mesmo espantado. - Que Ali gostava mais de mim do que eu dela? - Ele sorriu. - Ali e eu flertvamos muito, 
mas era s isso. Ela nunca pareceu interessada em levar nada adiante.
        - Ah, t bom    - disse Spencer com os dentes cerrados.
        - Mas ento    de repente... ela mudou de ideia - prosseguiu Ian. - Primeiro, pensei que ela estava me dando ateno para irritar algum.
        Os segundos se arrastavam, lentos. Um pssaro pousou no comedouro, na parte de trs da varanda, bicando o alpiste. Spencer colocou as mos na cintura.
        - E eu suponho que seria eu, certo? Ali decidiu gostar de voc porque isto me irritaria?
        - O qu? - Uma rajada de vento ergueu as pontas do cachecol preto de Ian.
        Spencer bufou. Ela teria que soletrar?
        - Eu gostava. De voc. No stimo ano. Eu sei que Ali contou para voc. Ela o convenceu a me beijar.
        Ian suspirou, a sobrancelha ainda franzida.
        - Eu no sei. Foi h muito tempo.
        -  Pare de mentir! - exclamou Spencer, suas bochechas queimando. -Voc matou Ali - repetiu ela. - Pare de fingir que no.
        Ian abriu a boca, mas nenhum som saiu.
        - E se eu disser que h algo que voc no sabe? - ele finalmente deixou escapar.
        O som de um avio distante ecoou sobre eles. Poucas casas adiante, o sr. Hurst ligava sua mquina de limpar neve.
        - Do que voc est falando? - perguntou ela, aos sussurros.
        Ian deu outra tragada em seu cigarro.
        -  algo importante. Acho que os policiais sabem disto tambm, mas esto ignorando. Eles esto tentando me enquadrar, mas amanh terei em minhas mos uma 
evidncia que provar minha inocncia. - Ele se aproximou ainda mais de Spencer, soprando fumaa em seu rosto. - Acredite.  algo que vai virar sua vida de cabea 
para baixo.
        O corpo inteiro de Spencer entorpeceu.
        - Ento me diga o que . 
        Ian olhou para longe.
        - Ainda no posso dizer. Quero ter certeza. 
        Spencer sorriu com amargura.
        -Voc espera que eu... acredite na sua palavra? Eu no devo a voc nenhum favor. Talvez fosse melhor voc conversar com Melissa em vez de tentar me convencer. 
Acho que ela ser mais receptiva a sua historinha chorosa.
        Um olhar desconfiado que Spencer no conseguiu entender cruzou o rosto de Ian, como se ele no gostasse nada daquela ideia. A fumaa txica do cigarro de 
Ian se acomodou sobre eles como uma mortalha.
        - Eu podia estar bbado naquele noite, mas sei o que eu vi - disse Ian. - Eu sa de l com a inteno de me encontrar com Ali... Mas vi duas loiras junto 
s rvores em vez disto. Uma delas era Alison. A outra... - Ele ergueu a sobrancelha de maneira sugestiva.
        Duas loiras na floresta.
        Spencer balanou a cabea com rapidez, entendendo o que Ian estava sugerindo.
        - No era eu. Eu segui Ali at que ela sasse do celeiro. Mas depois ela me deixou... Para encontrar voc.
        - Era outra loira, ento.
        - Se voc viu algum, por que no disse aos policiais quando Ali desapareceu?
        Os olhos de Ian se desviaram para a esquerda. Ele deu uma nova tragada nervosa. Spencer estalou os dedos e apontou para ele.
        -Voc nunca disse nada porque nunca viu nada. No h um grande segredo que os policiais esto ignorando de propsito... ponto. Voc a matou, Ian, e vai pagar 
por isso. Fim da histria.
        Ian a encarou por longos segundos. E depois arremessou a ponta de cigarro no quintal.
        - Voc no entendeu nada - disse ele, com voz sombria. Depois deu as costas para ela e deixou a varanda, fugindo pelo ptio de Spencer e desaparecendo por 
entre as rvores. Spencer esperou at que ele sumisse para ento desabar de joelhos no cho, sem foras, mal percebendo quando a lama encharcou sua cala jeans. 
Lgrimas quentes de pavor escorreram pelo seu rosto. Vrios minutos se passaram at ela perceber que seu Sidekick, ainda sobre a mesa do ptio, estava tocando.
        De um salto, ela pegou o telefone. Havia uma nova mensagem na caixa postal.
        Pergunta:
        Se a pequena-senhorita-no-to-perfeita-assim desapare-
        cer, algum se importaria? Voc me dedurou duas vezes. 
        Trs jogadas e ns descobriremos se seus "pais" choraro 
        pela perda de sua vida pattica. 
        Se liga, Spence. - A
        Spencer olhou na direo das rvores na parte de trs da propriedade.
        - No est enviando mensagens, no , Ian? - gritou ela para o vazio, sua voz spera. - Aparea para que possa v-lo!
        O vento rodopiou em silncio. Ian no respondeu. A nica evidncia de que ele estivera ali era a ponta com brasa avermelhada de seu cigarro, que aos poucos 
ia se apagando no meio do quintal.
19
BISCOITOS DA SORTE NO
COSTUMAM FAZER REVELAES
TO EMOCIONANTES ASSIM
Na noite de quinta-feira, depois do treino de natao, Emily se colocou diante do grande espelho do vestirio de natao de Rosewood Day, examinando sua roupa. Vestia 
suas calas favoritas, de veludo cotel chocolate, uma blusa rosa-claro com apenas um pouco de babado, e rasteirinhas pink. O traje era apropriado para o jantar 
no China Rose com Isaac? Ou era muito menininha e pouco Emily? No que ela soubesse o que seria o estilo Emily nos ltimos tempos.
        - Por que voc est to fofa? - Carolyn apareceu de repente ao lado de Emily, fazendo-a pular. -Voc tem um encontro?
        - No! - disse Emily, assustada. 
        Carolyn ergueu a cabea, maliciosa.
        - Quem  ela? Algum que eu conheo? 
        Ela. Emily estalou a lngua.
        -  Eu s estou indo encontrar um rapaz para jantar. Um amigo. S isso.
        Carolyn andou ao redor da irm e ajustou o colar dela.
        -  esta a histria que voc contou para a mame tambm?
        Na verdade, esta era a histria que Emily havia contado para sua me. Ela era provavelmente a nica garota em Rosewood que poderia contar a seus pais que 
ia sair com um garoto sem ter que ouvir um sermo paranoico sobre como sexo  uma coisa sria que deve acontecer entre duas pessoas que so muito mais velhas e que 
esto apaixonadas.
        Desde seu beijo com Isaac no dia anterior, estivera vagando em uma bruma de perplexidade. Ela no tinha a mnima ideia do que acontecera em suas aulas naquele 
dia. Seu sanduche de geleia com manteiga de amendoim no almoo poderia ter sido feito com serragem e sardinhas que ela no teria notado. E mal piscou quando Mike 
Montgomery e Noel Kahn acenaram para ela no estacionamento depois do treino, perguntando se ela tivera boas frias de Natal.
        - H uma verso lsbica do Papai Noel? - gritara Mike, todo animado. -Voc sentou no colo dela? Existem elfas lsbicas?
        Emily no se ofendera com aquilo, o que tambm a preocupava. Se piadas sobre gays no a incomodavam mais, significava que ela no era gay? Mas aquela no 
tinha sido a coisa mais sria e assustadora que descobrira sobre si nos ltimos meses? A razo de ter sido enviada para Iowa por seus pais? Se ela nutria por Isaac 
os mesmo sentimentos que tinha por Maya e Ali, o que isto fazia dela? Htero? Bi? Confusa?
        Mas, ao mesmo tempo que queria contar a sua famlia sobre Isaac - ele era, ironicamente, o tipo certo de rapaz para levar em casa e apresentar a seus pais 
-, ela se sentia envergonhada. E se no acreditassem nela? E se rissem? E se ficassem com raiva? Ela causara muita confuso na famlia no outono anterior. Agora 
ela gostava de um garoto outra vez, assim, do nada? E a mensagem que recebera de A tocara em um ponto importante. Ela no sabia se Isaac era conservador e como ele 
reagiria aos segredos de seu passado. E se a revelao o deixasse constrangido e ele nunca mais falasse com ela?
        Emily bateu a porta de seu armrio, fechou o cadeado e depois pegou sua bolsa de lona.
        - Boa sorte - cantarolou Carolyn, enquanto Emily deixava o quarto de vestir. - Tenho certeza de que ela vai achar voc linda.
        Emily fez uma careta, mas no a corrigiu. 
        O restaurante China Rose ficava a alguns quilmetros da Route 30, um pequeno prdio jovial que se erguia, solitrio, ao lado de uma estrutura de pedra bastante 
desgastada que, em outros tempos, costumava ser uma fonte. Para chegar l, Emily precisava dirigir pelo estacionamento de uma Kinko, uma loja de aviamentos e o mercado 
Amish, que vendia manteiga de ma caseira e pinturas de animais de fazenda em tbuas envernizadas de madeira. Quando ela saiu do carro, o estacionamento estava 
estranhamente silencioso. Silencioso demais? Os cabelos de sua nuca comearam a ficar arrepiados. Emily no ligara de volta para Aria para discutir sobre o novo 
A. Na verdade, Emily estava com medo demais de falar com qualquer um a respeito, e decidiu que se no pensasse no assunto, talvez tudo desaparecesse. Aria tambm 
no ligara de volta. Emily se perguntou se ela tambm estava tentando esquecer a histria toda.
        O boliche, The Rosewood Bowl-O-Rama, tambm fazia parte do complexo de lojas, apesar de estar sendo reformado para virar outro Whole Foods.
        Emily, Ali e as outras costumavam jogar boliche naquela ruela s sextas  noite no comeo do sexto ano, logo depois que se tornaram amigas. Primeiro, Emily 
pensara que aquilo era meio esquisito. Ela presumira que se encontrariam no Shopping King James, onde Ali e seu antigo grupo costumavam ir nos fins de semana. Mas 
Ali disse que precisava de um tempo do King James - e de todo mundo em Rosewood Day.
        -  Novas amigas precisam de tempo sozinhas, vocs no acham? - perguntara Ali a elas. - E ningum da escola nos encontrar l.
        Fora ali que Emily fizera a Ali sua nica pergunta sobre o jogo da Cpsula do Tempo - e a coisa assombrosa que Ian dissera a Ali naquele dia. Elas estavam 
de bobeira em uma das pistas de boliche, consumindo montes de refrigerante aucarado e vendo quem conseguia derrubar mais pinos jogando a bola por entre as pernas. 
Emily se sentia corajosa naquela noite, disposta a escavar o passado que todas elas tentavam tanto evitar. Quando Spencer ficou de p para jogar e Hanna e Aria escaparam 
at as mquinas de refrigerante, Emily se virou para Ali, que estava ocupada desenhando carinhas sorridentes nas bordas do carto de pontos.
        -Voc se lembra daquela briga que Ian Thomas e o seu irmo tiveram no dia em que a Cpsula do Tempo foi anunciada?
        Emily fez a pergunta de maneira casual, como se no tivesse pensado naquilo por semanas. Ali deitou a caneta do carto de pontos e olhou para Emily por quase 
um minuto. Finalmente, ela se inclinou e refez o lao em seu sapato.
        - Jason  um doido - murmurou ela. - Eu reclamei com ele sobre isso quando ele me deu uma carona para casa naquele dia.
        Mas Jason no dera uma carona para Ali naquele dia - ele fora embora em um carro preto, e Ali e seu grupo seguiram na direo da floresta.
        - Ento aquela briga no chateou voc? 
        Ali olhou para cima, sorrindo.
        - Calma a, Delegada! Eu sei cuidar de mim! - Aquela foi a primeira vez que Ali a chamara de Delegada, como se ela fosse sua pitbull, sua guarda-costas particular, 
e o apelido pegara.
        Olhando agora para o passado, Emily se perguntava se Ali no fora na verdade se encontrar com Ian e escondido o fato com a mentira sobre pegar carona para 
casa com Jason. Livrando a cabea de todos os pensamentos sobre Ali, Emily bateu a porta do Volvo, colocou as chaves no bolso e seguiu pela pequena passagem murada 
que levava at a porta de entrada do China Rose. O interior do restaurante era decorado para parecer uma cabana com telhado de palha, com teto coberto de bambu e 
havia um grande aqurio cheio de peixes dourados brilhantes e gordos. Emily deu uma volta na rea de entregas, o cheiro de gengibre e cebolinha fazendo ccegas em 
seu nariz. Na catica cozinha aberta, era possvel ver um bando de cozinheiros pairando sobre as woks. Felizmente, ela no viu ningum de Rosewood Day.
        Isaac acenou para ela de uma mesa nos fundos. Emily acenou de volta, imaginando se seu rosto deixava transparecer seu nervosismo. Vacilante, ela foi em direo 
a ele, tentando no bater em nenhuma mesa naquele lugar apertado.
        - Oi - disse Isaac. Ele vestia uma camisa azul-escura que realava-lhe os olhos. Seu cabelo estava penteado para trs, mostrando mas do rosto bem marcadas.
        - Oi - respondeu Emily. Houve uma pausa esquisita quando eles sentaram.
        - Obrigado por vir - disse Isaac, um pouco formal demais.
        - De nada - disse Emily, tentando parecer tmida e modesta.
        - Eu senti saudades - acrescentou ele.
        - Ah! - Emily arrulhou, sem saber como responder.
        Ela deu um gole em sua gua para no ter que dizer nada. Uma garonete os interrompeu, entregando menus e toalhas para as mos. Emily colocou a toalha sobre 
os pulsos, tentando se acalmar. Sentir o calor mido contra a sua pele a fez pensar na ocasio em que ela e Maya foram nadar no crrego de Marwyn no outono. A gua 
estava to morna por causa do sol da tarde, to relaxante quanto uma banheira.
        O barulho de panelas que chegava da cozinha interrompeu os pensamentos de Emily. Por que estava com a cabea em Maya? Isaac olhava para ela curioso, como 
se soubesse o que ela estava pensando. Isto a fez ficar mais vermelha ainda.
        Ela encarou o jogo americano com figuras do zodaco chins, louca para parar de pensar em Maya. Pelas bordas do jogo americano havia smbolos do zodaco 
tradicional tambm.
        - Qual  o seu signo? - perguntou ela de forma brusca. 
        -Virgem - respondeu Isaac. - Generoso, envergonhado e perfeccionista. Qual  o seu?
        - Touro - respondeu Emily.
        - Isto significa que somos compatveis. - Isaac deu um pequeno sorriso para ela.
        Emily ergueu uma sobrancelha, surpresa. 
        -Voc conhece astrologia?
        - Minha tia entende disso - explicou Isaac, passando a toalha quente por sobre as palmas das mos. - Ela est sempre em nossa casa e faz meu mapa algumas 
vezes por ano. Sei tudo a respeito da minha lua e de meu signo ascendente desde que tinha seis anos. Ela pode fazer seu mapa, se voc quiser. 
        Emily sorriu, empolgada.
        - Eu adoraria.
        - Mas na verdade, voc sabia que ns no somos realmente os signos astrolgicos que temos? - Isaac tomou um gole de ch verde. - Eu vi alguma coisa a respeito 
disso no Science Channel. As pessoas criaram o zodaco milhares de anos atrs, mas entre aquela poca e agora, a Terra aos poucos mudou seu eixo. As constelaes 
do zodaco e os meses aos quais eles correspondem no cu esto fora de sincronia. Eu no entendi bem toda a logstica, mas tecnicamente, voc no  taurina.Voc 
 de ries.
        Emily hesitou. ries? Impossvel. Sua vida toda se alinhava perfeitamente com o que era certo para um taurino, desde escolher as cores para vestir at qual 
era seu melhor meio de competio. Ali costumava brincar que taurinos confiveis e teimosos sempre tinham os horscopos mais entediantes, mas Emily gostava de seu 
signo. A nica coisa que ela sabia a respeito de ries era que eles eram impacientes, tinham que ser o centro das atenes, e s vezes eram meio promscuos. Spencer 
era ariana. Ali tambm. Ou na verdade elas eram piscianas?
        Isaac se inclinou para a frente, colocando o menu de lado.
        - E eu sou de Leo. Ns ainda somos compatveis. - Ele abaixou seu cardpio. - Ento, agora que resolvemos a questo astrolgica, o que mais devo saber sobre 
voc?
        Uma pequena voz incmoda na cabea de Emily dizia que havia muitas coisas que ele deveria saber, mas ela a ignorou solenemente.
        - Por que no falamos sobre voc primeiro?
        - Tudo bem... - Isaac tomou um gole de gua, pensando. - Bem, alm de tocar violo, tambm toco piano. Fao aulas de msica desde os trs anos.
        - Nossa! - Emily arregalou os olhos. -Tive aulas quando era mais nova, mas achei muito chato. Meus pais costumavam brigar comigo porque eu nunca praticava.
        Isaac sorriu.
        - Meus pais me foraram a praticar tambm. Ento, o que mais? Bem, meu pai tem um buffet. E porque eu sou um cara legal e filho dele, alm de mo de obra 
barata, trabalho em muitos dos eventos.
        Emily sorriu.
        - Ento voc sabe cozinhar? 
        Isaac balanou a cabea.
        - No, sou uma tragdia. No consigo nem fazer uma torrada. Tudo o que eu fao  servir. Na prxima semana, vou trabalhar em uma arrecadao de fundos em 
um lugar para reabilitao de vtimas de queimaduras.  um hospital de cirurgia plstica tambm, mas ainda bem que a festa no  para levantar dinheiro para nada 
disto. - Ele fez uma careta.
        Emily arregalou os olhos. Havia apenas uma clnica de reabilitao de queimadura/cirurgia plstica nas redondezas.
        -Voc est falando da clnica William Atlantic?
        Isaac confirmou com a cabea, sorrindo com curiosidade.
        Emily o fitou, sem pensar em nada, olhando fixamente o grande gongo de bronze perto da bancada da recepcionista. Um menininho sem dois dentes da frente estava 
tentando desesperadamente chut-lo enquanto seu pai o detinha. Fora na William Atlantic - ou Bill Beach, como muitas pessoas chamavam - que Jenna Cavanaugh havia 
sido tratada de suas queimaduras depois que Ali sem querer a cegara com os fogos de artifcio. Ou talvez Ali a tivesse queimado de propsito... Emily no sabia mais 
o que era verdade. Mona Vanderwaal fora tratada l por causa das queimaduras que tivera na mesma noite. 
        Isaac baixou os olhos.
        - Qual  o problema? Eu disse algo errado? 
        Emily deu de ombros.
        - Eu, ah... Eu conheo o garoto cujo pai fundou a clnica. 
        -Voc conhece o filho de David Ackard?
        - Ele frequenta a mesma escola que eu. 
        Isaac concordou.
        -Verdade. Rosewood Day.
        - Eu sou bolsista parcial - disse Emily. A ltima coisa que ela queria era que ele pensasse que ela era uma daquelas garotas ricas mimadas, privilegiadas.
        -Voc deve ser muito inteligente - disse Isaac. 
        Emily abaixou a cabea.
        - Que nada.
        Uma garonete passou carregando vrios pratos de General Tso's Chicken.
        - Meu pai tambm vai servir comida em uma arrecadao de fundos de Rosewood Day no sbado.  em alguma casa de fazenda de dez quartos.
        - Ah,  mesmo? - O corao de Emily quase parou. 
        Isaac obviamente estava falando do evento na casa de Spencer. Os alunos ouviram um pronunciamento sobre a arrecadao de fundos naquela manh durante a chamada. 
Quase todos os pais iam s arrecadaes de fundos da escola, e a maioria dos estudantes tambm, j que ningum conseguia resistir  oportunidade de se arrumar e 
roubar taas de champanhe enquanto seus pais no estavam observando.
        - Ento eu vejo voc l? - O rosto de Isaac se iluminou. 
        Emily pressionou os dentes de seu garfo na palma da mo. Se ela fosse, as pessoas perguntariam por que eles estavam juntos. Mas se ela no fosse e Isaac 
perguntasse por ela, algum poderia contar a verdade sobre o passado dela. Algum como Noel Kahn ou Mike Montgomery ou at Ben, o antigo namorado de Emily. Talvez 
o novo A tambm estivesse l.
        - Acho que voc me ver l.
        - timo! - Isaac sorriu. - Serei um dos garons vestindo smoking.
        Emily ficou vermelha.
        - Talvez voc possa me dar servir pessoalmente - disse ela, num tom de flerte.
        -  Combinado - disse Isaac. Ele apertou a mo dela, e o corao de Emily deu uma cambalhota.
        De repente, Isaac olhou para alm da cabea de Emily, sorrindo para algo que estava atrs dela. Quando Emily girou, seu corao afundou at o joelho. Ela 
piscou vrias vezes, esperando que a garota de p ali fosse apenas uma miragem.
        - Oi, Emily. - Maya St. Germain tirou uma mecha de cabelo encaracolado da frente dos olhos amarelos tigrados. Ela usava um suter branco pesado, uma saia 
de brim, e uma malha branca amarrada na cintura. Seus olhos iam de Emily para Isaac, tentando imaginar o que faziam juntos.
        Emily afastou sua mo da mo de Isaac.
        - Isaac - ela desafinou -, esta  Maya. Ns somos da mesma escola.
        Isaac se levantou um pouco, oferecendo a mo.
        - Oi, eu sou o namorado de Emily.
        Maya arregalou os olhos e deu um passo para trs, como se Isaac tivesse acabado de dizer que era um esterco de vaca.
        - Certo - ironizou ela. - Namorado dela. Boa. 
        Isaac ficou srio.
        - Desculpe?
        Maya franziu a testa. E depois o tempo pareceu passar mais devagar. Emily viu o momento preciso em que o entendimento cruzou os olhos de Maya - no, isso 
no  piada. Um sorriso lento e divertido brotou em seus lbios. Voc est mesmo namorando com ele. Os olhos de Maya brilhavam de forma perversa. E voc no disse 
a ele a verdade sobre voc, assim como no contou para Toby Cavanaugh. Emily entendeu como Maya deveria estar com raiva dela. Emily sacaneara Maya o outono inteiro, 
a trara com Trista, uma garota que conhecera em Iowa, acusara Maya de ser A, e depois no trocara uma palavra com ela por meses. Naquele momento era a grande chance 
de Maya dar o troco em Emily por tudo aquilo.
        Quando Maya abriu a boca para falar, Emily se levantou de repente, arrancou seu casaco das costas da cadeira, pegou a bolsa e comeou a andar por entre as 
mesas na direo da porta. No havia razo para estar ali quando Maya contasse a Isaac. Ela no queria ver a decepo - e mais certamente, o desgosto - no rosto 
dele.
        O ar gelado atingiu seu rosto em cheio. Quando alcanou seu carro, inclinou-se sobre o cap, tentando se recompor. Ela no ousou olhar para dentro do restaurante. 
O melhor a fazer era entrar no carro, dirigir para longe, e nunca mais voltar a esse centro comercial.
        O vento rodopiava no estacionamento de forma desoladora. Um grande poste acima da cabea de Emily piscava e balanava um pouco. Em seguida, algo farfalhou 
atrs de um enorme Cadilac Escalade. Emily ergueu-se na ponta dos ps. Aquilo era uma sombra? Algum estava ali? Ela vasculhou em busca das chaves, mas estavam no 
fundo de sua bolsa. O celular tocou e Emily deixou escapar um grito abafado. Ela se atrapalhou para peg-lo no bolso, suas mos tremendo. 1 nova mensagem. Ela abriu 
o telefone.
        Oi Em!
        Voc no odeia quando sua ex aparece e acaba com uma 
        noite romntica? Imagino como ela soube onde encontrar 
        voc... Que isto sirva de aviso. Fale, e seu passado ser o 
        ltimo de seus problemas. - A
        Emily correu as mos pelo cabelo. Fazia total sentido. A havia enviado uma mensagem a Maya dizendo que ela estava no restaurante. E Maya, querendo vingana, 
mordera a isca. Ou ainda pior, talvez Maya fosse a nova A.
        - Emily?
        Ela se virou, seu corao disparando. Isaac estava atrs dela. Ele no colocara o casaco, e suas bochechas estavam vermelhas por causa do frio.
        - O que voc est fazendo aqui fora? - perguntou ele. 
        Emily olhou para as luzes fluorescentes que demarcavam os lugares no estacionamento, incapaz de encarar os olhos dele.
        - E-eu pensei que seria melhor eu ir embora.
        - Por qu?
        Ela parou. Isaac no parecia aborrecido. Ele parecia... confuso. Ela olhou atravs das janelas do restaurante, observando enquanto as garonetes andavam 
para cima e para baixo no corredor de mesas. Era possvel que Maya no tivesse dito nada?
        - Desculpe pelo que eu disse l dentro - prosseguiu Isaac, tremendo. - Que eu era seu namorado. Eu no tinha a inteno de definir nosso relacionamento assim.
        O rosto dele demonstrava arrependimento sincero. De repente, Emily viu a cena da perspectiva dele - o que ele havia deixado escapar, o erro bobo que pensou 
ter cometido.
        -  No se desculpe - apressou-se ela, firmando suas mos geladas. - Deus, por favor no se desculpe!
        Isaac piscou. Um canto de sua boca levantou em uma tentativa de sorriso.
        -  Eu queria que isso fosse um namoro. - Emily respirou fundo. Assim que ela disse isto, sabia que era a verdade absoluta. - Alis, ser que seu pai no 
daria a voc uma folga na noite da arrecadao de fundos para Rosewood Day? Eu adoraria que voc fosse comigo... como meu namorado.
        Isaac sorriu.
        - Eu acho que ele poderia me dar uma folga desta vez. - Depois de dizer isso, ele apertou as mos dela com fora, a puxou para mais perto e murmurou: - Ento, 
quem era aquela garota no restaurante, afinal?
        Emily enrijeceu, uma sensao aguda de culpa cutucando suas costelas. Ela deveria contar a verdade a Isaac antes que A contasse. Ser que seria realmente 
to ruim? Ela no passara todo o outono pensando em como falar sobre aquilo de forma natural e assumir quem e o que era?
        Mas no, o trato era: se Emily mantivesse a boca fechada a respeito de A, A no falaria de sua vida para Isaac. Certo? Os braos dele eram to confortveis 
e acolhedores, e parecia uma pena arruinar o momento.
        - Oh,  s uma garota que estuda comigo - respondeu ela finalmente, empurrando a verdade para o lado. - Ningum importante.
20
QUE BELA FIGURA PATERNA
Uma hora depois na quinta-feira, Aria sentou ereta no sof do escritrio de sua casa. Mike sentou ao lado dela, mexendo na configurao de seu Wii, que Byron comprara 
para ele de presente Natal como pedido de desculpas por destruir a famlia e engravidar Meredith. Mike estava montando um novo personagem Mii, escolhendo as opes 
possveis para olhos, orelhas e nariz.
        - Por que eu no posso fazer com que meus bceps fiquem maiores? - rosnou ele, avaliando seu personagem. - Pareo to fraco.
        - Voc deveria fazer sua cabea ficar maior - resmungou Aria.
        -  Quer ver o Mii que Noel Kahn fez de voc? - Mike clicou de volta na tela principal, lanando a Aria um olhar de algum ainda gosta de voc. Noel tivera 
uma quedinha por Aria no outono. - Ele fez um dele mesmo tambm. Vocs dois se dariam bem na Wii-lndia.
        Aria afundou no sof, pegou um biscoito de queijo em uma grande tigela de plstico e no disse nada.
        - Aqui est o Mii que Xavier fez. - Mike clicou sobre o personagem de cabea grande, com um cabelo curto e grandes olhos castanhos. -Aquele cara  fogo no 
boliche, mas eu acabei com ele no tnis.
        Aria coou a nuca, um peso contraditrio no peito.
        - Ento voc... gosta do Xavier?
        -  Sim, ele  bem legal. - Mike clicou de volta no menu principal do Wii. - Por qu, voc no?
        - Ele ... legal. - Aria lambeu os lbios. Ela queria ressaltar que Mike de repente parecia estar superando muito bem o divrcio dos pais deles, considerando 
que depois que eles se separaram, ele havia jogado lacrosse na chuva obsessivamente. Mas se ela dissesse algo sobre aquilo, o irmo reviraria os olhos e a ignoraria 
por uma semana.
        Mike olhou para ela, desligando o Wii e mudando para os noticirios da televiso.
        - Voc est agindo como se estivesse drogada ou alguma coisa do tipo. Voc est nervosa com o julgamento de amanh? Voc vai fazer o maior sucesso naquele 
banco de testemunhas. Toma algumas doses de Jger antes de subir l e tudo vai ficar bem.
        Aria fungou e olhou para o seu colo. 
        -Amanh ser apenas a abertura dos depoimentos. Eu no vou testemunhar at o fim de semana que vem, pelo menos.
        - E da? Tome uma dose de Jger mesmo assim.
        Aria lhe lanou um olhar aborrecido. Se uma dose de Jger pudesse resolver todos os problemas dela...
        O noticirio das seis da tarde estava no ar mostrando a fachada do frum de Rosewood. Uma reprter perguntava a opinio de cidados a respeito do grande 
julgamento do dia seguinte. Aria enterrou a cabea na almofada, sem vontade de assistir.
        -  Ei, voc no conhece essa garota? - perguntou Mike, apontando para a TV.
        - Que garota? - perguntou Aria, sua voz abafada pelo travesseiro.
        - Aquela garota cega.
        Aria levantou rapidamente a cabea. Era verdade, Jenna Cavanaugh estava na televiso, um microfone sob o queixo. Usava culos escuros Gucci, enormes e fabulosos, 
e u~ casaco de l vermelho vibrante. Seu co-guia estava sentado obedientemente ao seu lado.
        -  Espero que este julgamento termine logo - disse Jenna  reprter. - Eu acho que traz publicidade ruim para Rosewood.
        - Sabe, ela  bem sexy para uma cega - observou Mike. - Eu transaria com ela.
        Aria rosnou e bateu nele com a almofada. Ento o iPhone de Mike tocou, ele se levantou de um salto e saiu da sala correndo. Enquanto ele subia as escadas, 
Aria voltou sua ateno para a televiso. A imagem de Ian apareceu na tela. Seu cabelo estava uma baguna, e ele no sorria. Depois, o jornal mostrou o buraco coberto 
de neve no quintal dos DiLaurentis onde o corpo de Aria fora encontrado. O vento fazia a fita da polcia sacudir e danar. Uma sombra embaada tremeluzia entre dois 
pinhos enormes. Aria se inclinou para a frente, sua pulsao de repente acelerando. Aquilo era... uma pessoa? O noticirio voltou a mostrar a reprter na frente 
do frum.
        - O caso corre como planejado - disse a reprter -, mas muitos ainda afirmam que as evidncias so muito fracas.
        -Voc no deveria se torturar com isso.
        Aria se virou. Xavier estava apoiado no batente do escritrio. Usava uma camisa listrada para fora da cala e tnis Adidas. Um relgio largo balanava em 
seu pulso esquerdo. Seus olhos se alternavam entre a tela da TV e o rosto de Aria.
        - Eu acho que... hum, acho que Ella ainda est na galeria - disse Aria. - Ela precisava trabalhar em uma mostra particular.
        Xavier entrou no escritrio.
        - Eu sei. Tomamos caf antes de ela voltar para o trabalho. Minha casa est sem energia eltrica. Acho que a neve derrubou alguns cabos de energia. Ela disse 
que eu poderia ficar aqui at ns termos certeza de que voltou. - Ele sorriu. -Tudo bem para voc? Eu posso fazer o jantar.
        Aria passou as mos no cabelo.
        - Claro - disse ela, tentando agir naturalmente. Estava tudo bem entre eles, afinal. Ela pulou para o canto do sof e colocou a vasilha de biscoito de queijo 
na mesa de caf. - Voc quer sentar?
        Xavier sentou a duas almofadas de distncia. O noticirio mostrava uma encenao da verso da emissora para a noite do assassinato de Ali. Dez e trinta da 
noite, Alison e Spencer Hastings comeam uma discusso. Alison deixa o celeiro, dizia o narrador. A garota que interpretava Spencer parecia aflita e mal-humorada. 
A loirinha que interpretava Ali no era nem de perto to bonita quanto ela fora. Dez e quarenta, Melissa Hastings levanta aps um cochilo e percebe que Ian Thomas 
no est ao seu lado. A garota que interpretava a irm de Spencer parecia ter mais ou menos uns trinta e cinco anos.
        Xavier olhou para ela hesitante.
        - Sua me disse que voc estava com Alison naquela noite. 
        Aria se retraiu e concordou.
        Dez e cinquenta da noite, Ian Thomas e Alison esto perto do buraco no quintal dos DiLaurentis, continuou a narrao. Um Ian sombreado brigava com Ali. Considera-se 
que houve uma luta, Thomas empurrou DiLaurentis e voltou para dentro de casa mais ou menos s onze e cinco.
        - Sinto muito - disse Xavier de maneira suave -, no consigo nem imaginar como deve ser isto.
        Aria mordeu o lbio, abraando uma das almofadas do sof contra o peito. Xavier coou a cabea.
        - E tenho que dizer, fiquei surpreso quando eles anunciaram que Ian Thomas era o suspeito. Parecia que o garoto tinha de tudo.
        Aria se arrepiou. E da que Ian fosse um garoto rico, educado e arrumadinho? Isto no o tornava um santo.
        - Bem, foi ele - respondeu Aria de forma abrupta. - Fim da histria.
        Xavier assentiu, tmido.
        - Eu no tive a inteno que soasse assim. Isso serve para ensinar que no conhecemos ningum de verdade, no ?
        - Eu que o diga - rosnou Aria.
        Xavier deu um gole grande de sua garrafa d'gua.
        - H alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?
        Aria olhou, sem expresso, em torno da sala. Sua me ainda no havia retirado nenhuma das fotos de famlia com Byron, incluindo a favorita de Aria, que mostrava 
os quatro em p na beira da Queda-D'gua Gullfoss na Islndia. Eles haviam feito todo o caminho at a ponta escorregadia do penhasco a p. 
        -Voc poderia me mandar de volta para a Islndia - disse Aria de um jeito melanclico. - Porque, diferente de voc e do meu irmo, eu adorava aquele lugar, 
com seus cavalinhos e todo o resto.
        Xavier sorriu. Seus olhos cintilaram.
        - Na verdade, tenho que contar um segredo. Gosto muito da Islndia. Eu disse aquelas coisas para que Mike gostasse de mim.
        Aria arregalou os olhos.
        - No acredito! - Ela golpeou Xavier com a almofada. -Voc  um puxa-saco!
        Xavier pegou uma almofada ao seu lado e a segurou de forma ameaadora sobre a cabea dela.
        - Um puxa-saco, ?  melhor voc retirar isso!
        - Tudo bem, tudo bem. - Aria deu uma risada, levantando um dedo. -Trgua.
        -  tarde demais para isto! - Xavier gargalhou.
        Ele ficou de joelhos, o rosto perto. Perto demais. E de repente, seus lbios se pressionaram contra os dela. Aria demorou alguns segundos, atordoada, para 
perceber o que estava acontecendo. Xavier segurou os ombros dela, as mos dele afundando em sua pele. Aria deixou escapar um gritinho e afastou a cabea.
        - O que foi isso? - balbuciou ela.
        Xavier olhou de volta. Por um momento, Aria ficou perplexa demais para se mexer. Ento se levantou o mais rpido que pde.
        - Aria... - O rosto de Xavier se contorceu. - Espere. Eu estou...
        Ela no conseguiu responder. Seus joelhos falharam e ela quase torceu o tornozelo ao sair do sof.
        - Aria! - chamou Xavier outra vez.
        Mas Aria continuou sem parar. Quando alcanou o topo da escada, seu Treo, que estava sobre sua escrivaninha comeou a tocar. 1 nova mensagem, a tela acusou. 
Ofegante, ela o agarrou e o abriu. A mensagem era simples:
        Peguei voc!
        E, como de hbito, estava assinada com uma concisa e ntida letra A.
21
SPENCER PRENDE A RESPIRAO
O panfleto estava preso sobre o bicicletrio para todos verem. A Cpsula do Tempo Comea Amanh, dizia em grandes letras pretas. Prepare-se!
        O ltimo sinal do dia tocou. Spencer notou Aria sentada sobre o muro de pedra, rabiscando. Hanna, com suas bochechas redondas e fofas, estava ao lado de 
Scott Chin. Emily cochichava com algumas meninas da equipe de natao, Mona Vanderwaal estava destravando sua scooter, e Toby Cavanaugh estava agachado sob uma rvore 
distante, cutucando uma pequena pilha de lixo com uma vara. Ali atravessou a multido e arrancou o panfleto.
        -  Jason que vai esconder uma das peas. E ele vai me contar onde est.
        Todo mundo se animou. Arrogante, Ali foi at Spencer e a cumprimentou batendo a palma da mo na dela. O que era surpreendente -Ali nunca havia prestado ateno 
em Spencer antes, ainda que elas morassem perto uma da outra.
        Mas naquele momento parecia que elas eram amigas. Ali bateu na cintura de Spencer.
        -Voc no est feliz por mim?
        - Oh, claro - balbuciou Spencer. 
        Ali encarou Spencer com ateno.
        -Voc no vai tentar roubar a bandeira de mim, vai? 
        Spencer balanou a cabea.
        - Claro que no!
        - Sim, ela vai - disse uma voz atrs delas. Uma segunda Ali, uma Ali mais velha, estava de p na calada. Ela era um pouco mais alta que a primeira e seu 
rosto, um pouco mais fino. Uma pulseira de fios estava amarrada em seu pulso, a mesma pulseira que Ali havia feito para elas depois da Coisa com Jenna, e ela vestia 
uma camisa American Apparel azul-claro e um saiote de hquei. Era a mesma roupa que Ali vestia no dia em que elas passaram a noite no celeiro de Spencer, no fim 
do stimo ano.
        - Claro que ela vai tentar roubar de voc - reafirmou a segunda Ali, lanando  Ali Mais Nova um olhar de soslaio. - Mas ela no vai conseguir, outra pessoa 
vai chegar antes.
        Ali Mais Nova estreitou os olhos.
        -  Certo. Algum vai ter que me matar para conseguir a bandeira.
        O grupo de estudantes de Rosewood Day se dividiu e Ian passou por entre eles. Ele abriu a boca, um olhar diablico no rosto. Se isto for necessrio, ele 
ia dizer a Ali. Mas quando tomou flego para falar, ele fez um barulho mecnico, estridente e penetrante.
        As duas Alis cobriram os ouvidos. A Ali Mais Nova deu um passo para trs. A Ali Mais Velha colocou as mos na cintura, cutucando a Ali Mais Nova com a lateral 
do p.
        - O que h de errado com voc? V flertar com ele. Ele  lindo.
        - No! - disse a Ali Mais Nova.
        - Sim! - insistiu a Ali Mais Velha. Elas estavam brigando de forma to amarga quanto Spencer e Melissa brigavam.
        A Ali Mais Velha virou os olhos e encarou Spencer.
        -Voc no deveria ter jogado fora, Spencer. Tudo de que voc precisava estava l. Todas as respostas.
        -Jogado... o que fora? - perguntou Spencer, confusa.
        A Ali Mais Nova e a Ali Mais Velha trocaram olhares. Uma expresso de espanto tomou o rosto da Ali Mais Nova, como se ela de repente entendesse o que a Ali 
Mais Velha estava falando.
        - Aquilo - disse a Ali Mais Nova. - Foi um grande erro, Spencer. E  praticamente tarde demais.
        - O que voc quer dizer? - perguntou Spencer. - O que  aquilo? E por que  praticamente tarde demais?
        - Voc vai ter que consertar isto - falaram em unssono a Ali Mais Nova e a Ali Mais Velha com suas vozes idnticas. Elas deram as mos e se fundiram em 
apenas uma Ali. - Depende de voc, Spencer. Voc no deveria ter jogado fora.
        O som de sirene que Ian fazia foi ficando cada vez mais alto. Uma rajada de ventou bateu, fazendo voar o folheto da Cpsula do Tempo das mos de Ali. Ele 
pairou no ar por um tempo, depois foi direto na direo de Spencer, atingindo o rosto dela com fora, parecendo mais uma pedra do que um pedao de papel. Prepare-se! 
estava escrito bem diante dos olhos dela.
        Spencer sentou de repente na cama, o suor escorrendo por seu pescoo. O cheiro do hidratante de baunilha de Ali fazia ccegas em seu nariz, mas ela no estava 
mais no ptio de Rosewood Day - estava em seu quarto silencioso e impecvel. Raios de sol se insinuavam pela janela. Os ces corriam no quintal da frente, sujos 
de lama. Era sexta-feira, o primeiro dia do julgamento de Ian.
        - Spencer? - Melissa apareceu de repente em seu campo de viso. Ela estava em cima da cama de Spencer, seu cabelo louro repicado escorrendo sobre o rosto, 
os cadaros de seu casaco com capuz listrado de azul e branco quase encostando no nariz de Spencer. -Voc est bem?
        Spencer fechou os olhos e se lembrou da noite anterior. De como Ian havia se materializado na varanda, fumando aquele cigarro, dizendo um monte de coisas 
loucas e assustadoras. E depois a mensagem: Se a Pequena-Senhorita-No-To-Perfeita-Assim desaparecer, algum se importaria? Por mais que quisesse, Spencer estava 
com muito medo de contar a qualquer um a respeito do que acontecera. Ligar para Wilden e dizer a ele que Ian havia violado sua priso domiciliar teria provavelmente 
mandado o garoto de volta para a cadeia, mas Spencer tinha medo que, assim que ela contasse a Wilden, algo terrvel acontecesse com ela - ou com outra pessoa. Depois 
do que acontecera com Mona, ela no suportaria ter mais sangue em suas mos. 
        Spencer engoliu em seco, encarando a irm. 
        -Vou testemunhar contra Ian. Sei que voc no quer que ele seja preso, mas tenho que dizer a verdade sobre o que eu vi. 
        O rosto de Melissa permaneceu sereno. Seus brincos de diamante refletiram a luz.
        - Eu sei - respondeu ela de forma vaga, como se sua mente estivesse em outro lugar. - No estou pedindo a voc que minta.
        Com isto, Melissa fez um carinho no ombro de Spencer e deixou o quarto. Spencer lentamente se levantou, fazendo os exerccios de respirao de ioga. As vozes 
das duas Alis ainda soavam em seus ouvidos. Ela deu mais uma olhada em seu quarto, meio esperando que uma delas estivesse de p l. Mas, claro, ela estava sozinha.
Uma hora depois, Spencer parou sua Mercedes no estacionamento de Rosewood Day e se apressou na direo do prdio do ensino fundamental. A maior parte da neve j 
havia derretido, mas algumas crianas ainda estavam deitadas no cho do lado de fora, fazendo anjinhos patticos e jogando Encontre a Neve Amarela. Suas amigas estavam 
esperando perto dos balanos da escola primria, seu antigo lugar secreto de encontro. O julgamento de Ian comearia  uma da tarde, e elas queriam conversar antes.
        Aria, tremendo visivelmente sob seu casaco de capuz forrado de pele, acenou enquanto Spencer se aproximava. Hanna tinha crculos roxos sob os olhos, e batia 
de leve a ponta de sua bota Jimmy Choo no cho. Emily parecia prestes a cair no choro. V-las juntas em seu antigo refgio fazia algo dentro de Spencer se partir. 
Voc deveria dizer a elas o que aconteceu, ela pensou. No parecia certo manter em segredo a visita de Ian. Mas a mensagem de Ian ainda estava viva em sua mente: 
Se voc contar a algum sobre mim...
        - Ento, estamos prontas? - perguntou Hanna, mordendo os lbios, nervosa.
        - Eu acho que sim - respondeu Emily. -Vai ser estranho... voc sabe. Ver Ian.
        - Srio - sussurrou Aria.
        - Ah - balbuciou Spencer, nervosa, mantendo seus olhos fixos em uma rachadura que fazia zigue-zague no cho.
        Raios de sol atravessavam uma nuvem, e eram refletidos pela neve remanescente. Uma sombra se mexeu atrs do balano, mas quando Spencer virou, viu apenas 
um pssaro. Ela pensou no sonho que tivera. A Ali Mais Nova parecera desinteressada, mas a Ali Mais Velha tinha nsia em flertar com Ian - ele era lindo. Combinava 
com o que Ian dissera a ela no dia anterior. Primeiro, Ali no o levara muito a srio. Quando ela comeou a gostar dele, foi instantneo, como se uma luz tivesse
se acendido.
        - Meninas, vocs lembram se Ali, em algum momento, disse algo... negativo... sobre Ian? - perguntou Spencer de repente. - Como se ela talvez achasse que 
ele era velho demais ou muito atrevido?
        Aria piscou, parecendo confusa.
        - No...
        Emily balanou a cabea tambm, seu rabo de cavalo loiro acobreado balanando de um lado para outro.
        - Ali falou comigo sobre Ian algumas vezes. Ela nunca disse o nome dele, apenas que era mais velho, e que ela estava totalmente louca por ele. - Ela deu 
de ombros, olhando para o cho enlameado.
        - Foi o que eu pensei - disse Spencer, satisfeita. 
        Hanna passou os dedos sobre sua cicatriz.
        - Na verdade, eu ouvi uma coisa estranha no noticirio outro dia. Eles estavam entrevistando pessoas na estao de trem sobre a audincia de fiana de Ian. 
E uma garota, Alexandra alguma coisa, disse que tinha bastante certeza de que Ali achava Ian um pervertido.
        Spencer olhou para ela.
        - Alexandra Pratt?
        Hanna confirmou com a cabea, dando de ombros.
        - Eu acho que sim. Ela  bem mais velha que a gente, no ? 
        Spencer deixou um suspiro trmulo sair. Alexandra Pratt cursava o ltimo ano do ensino mdio quando Spencer e Ali estavam do sexto ano. Como capit do maior 
time de hquei da escola, Alexandra havia sido a juza principal dos testes do time iniciante. Em Rosewood Day, estudantes do sexto ano eram autorizados a tentar 
entrar para a equipe jnior de hquei, mas apenas um aluno novo era admitido por ano. Ali se gabava de ter vantagem sobre as outras porque treinara com Alexandra 
e com as outras jogadoras mais velhas algumas vezes no outono, mas Spencer havia simplesmente sorrido - Ali no era nem de perto to boa quanto ela.
        Por um motivo qualquer, Alexandra no gostava de Spencer. Ela estava sempre criticando seus dribles e dizendo que ela segurava o basto de hquei do jeito 
errado - como se Spencer no tivesse passado cada vero de sua vida em um campo de hquei, aprendendo com os melhores. Quando o time foi anunciado e o nome de Ali 
estava na lista e o de Spencer no, Spencer voou para casa sem acreditar, louca de raiva, sem esperar por Ali.
        -Voc pode sempre tentar no ano seguinte - disse Ali depois, com um sorriso afetado para Spencer ao telefone. - E, vamos l, Spence.Voc no pode ser a melhor 
em tudo.
        Ento, Ali dera uma risada alegre. Naquela mesma noite, Ali passou a pendurar seu uniforme novinho da equipe jnior na janela do quarto todos os dias, sabendo 
que Spencer olharia e o veria.
        E no era apenas com o hquei. Tudo entre Spencer e Ali havia sido uma competio. No stimo ano, elas fizeram uma aposta sobre quem conseguiria ficar com 
o cara mais velho. Ainda que nenhuma delas fosse dizer em voz alta, as duas sabiam que seu alvo nmero um era Ian. Toda vez que elas estavam na casa de Spencer e 
Melissa e Ian estavam l tambm, Ali dava um jeito de andar perto dele, desfilando sua camisa de hquei ou se ajeitando para empinar os peitos.
        Ela certamente no havia agido como se achasse que Ian era um pervertido. Claro que Alexandra Pratt estava errada.
        Um nibus parou no ponto fazendo barulho, o que assustou Spencer. Aria olhava para ela curiosa.
        - Por que voc est perguntando isso, afinal?
        Spencer engoliu em seco. Conte a elas, ela pensou. Mas sua boca continuou fechada.
        - S curiosidade - respondeu ela, por fim. Depois respirou fundo.
        - Eu gostaria que houvesse algo que pudssemos encontrar, algo concreto que mantivesse Ian preso para sempre.
        Hanna chutou um monte pesado de neve.
        - Sim, mas o qu?
        - Hoje cedo Ali ficou falando que eu estava deixando algo passar - disse Spencer de maneira pensativa. - Alguma evidncia muito importante.
        - Ali? - O sol brilhou incisivo, refletindo nas argolas prateadas de Emily.
        - Sonhei com ela - explicou Spencer, colocando as mos nos bolsos. - Na verdade, havia duas Alis no sonho. Uma Ali estava no sexto ano e a outra, no stimo. 
As duas estavam com raiva de mim, agindo como se houvesse algo realmente bvio que eu no estava vendo. Elas disseram que tudo dependia de mim... E que se demorasse 
muito, seria tarde demais.
        Ela massageou o ossinho de seu nariz, tentando fazer com que sua dor de cabea diminusse.
        Aria mordeu o polegar.
        - Eu tive um sonho com Ali muito parecido com o seu, alguns meses atrs. Foi logo que ns percebemos que ela estava se encontrando com Ian em segredo e ela 
ficava dizendo "A verdade est logo na sua frente, a verdade est logo na sua frente".
        - E eu tive um sonho com Ali no hospital - lembrou Hanna depois. - Ela estava de p bem na minha frente. Ela ficava dizendo para eu parar de me preocupar, 
porque ela estava bem.
        Um calafrio percorreu a espinha de Spencer. Ela trocou olhares com as outras, tentando desfazer o enorme n na garganta.
        Mais nibus apareceram no meio-fio. Criancinhas vinham correndo pelas caladas do prdio do ensino fundamental, suas lancheiras balanando, todas falando 
ao mesmo tempo. Spencer pensou outra vez em como Ian havia sorrido com desdm para ela no dia anterior e desaparecido por entre as rvores. Era quase como se ele 
pensasse que tudo isso no passava de um jogo.
        S mais algumas horas, ela lembrou a si mesma. O promotor faria Ian ceder e admitir que ele havia matado Ali no fim das contas. Talvez ele inclusive conseguisse 
fazer Ian confessar que zombara de Spencer e das outras, fingindo ser um novo A. Ian tinha muito dinheiro - ele poderia contratar um time todo de espies A e dirigir 
toda a operao direto de sua priso domiciliar. E fazia sentido o fato de ele mandar mensagens: no queria que nenhuma delas testemunhasse contra ele. Queria assustar 
Spencer para desmerecer seu depoimento, queria que ela dissesse que no havia visto Ian com Ali naquela noite em que ela desaparecera. Queria que ela confessasse 
ter inventado a histria toda.
        - Estou feliz porque Ian vai ser preso outra vez depois de hoje - suspirou Emily. - Todas ns poderemos relaxar na festa beneficente amanh.
        - Eu no vou ficar calma at ele ter ido embora para sempre - respondeu Spencer, um bolo de lgrimas trancando sua garganta. Sua voz alcanou alm dos galhos 
tortuosos da rvore, chegando ao cu azul-turquesa de inverno. Ela enrolou uma mecha de cabelo em volta do dedo at quase arrebentar. S mais algumas horas, repetiu 
para si mesma. Mas aquelas horas de repente pareceram uma eternidade.
22
UM NOVO DJ-VU
Hanna tirou a jaqueta Chlo de couro vermelho-escuro e guardou em seu armrio enquanto a Sinfonia do Novo Mundo de Dvork tocava alto nos alto-falantes dos corredores 
de Rosewood Day. Naomi, Riley e Kate estavam perto dela, conversando sobre todos os garotos que estavam encantados por Kate.
        - Talvez voc devesse manter suas opes em aberto - dizia Naomi enquanto dava o ltimo gole em seu cappuccino de avel. - Eric Kahn  muito bonito, mas 
Mason Byers  o gato de Rosewood Day. Quando ele abre a boca, tenho vontade de arrancar as roupas dele.
        A famlia de Mason havia morado em Sidney por dez anos, ento ele falava com um suave sotaque australiano. Dava a impresso de ter passado a vida inteira 
em uma praia banhada pelo sol.
        - Mason est no time de vlei. - Os olhos de Riley brilharam. - Eu vi uma foto que vai entrar no Livro do Ano, era ele participando de um torneio. Estava 
sem camisa. Ma-ra-vi-lho-so.
        - O time de vlei no treina depois da aula? - Naomi esfregou as mos, empolgada. -Talvez ns devssemos fazer uma apario especial: a torcida particular 
de Mason. - Ela olhou para Kate em busca de aprovao.
        Kate levantou a mo para um high five.
        - Eu estou dentro. - Ela se virou para Hanna. - O que acha, Han? Vamos?
        Hanna olhou de uma para a outra, aflita.
        - Eu tenho que ir embora cedo hoje... Tenho o julgamento.
        - Ah, ! - Uma sombra atravessou o rosto de Kate. -  verdade.
        Hanna fez uma pausa, esperando Kate dizer mais alguma coisa, mas ela, Naomi e Riley simplesmente voltaram a fofocar sobre Mason. Hanna pressionou as unhas 
contra a palma da mo, sentindo um pouco de dor ao fazer isso. Parte dela imaginara que elas a acompanhariam ao julgamento de Ian para dar apoio moral. Naomi estava 
fazendo graa sobre o tamanho do didgeridoo, o instrumento dos aborgenes australianos que Mason Byers tocava, quando Hanna sentiu algum batendo em seu ombro.
        - Hanna? - O rosto de Lucas surgiu na frente dela. Como sempre, ele estava carregando uma parafernlia de coisas dos clubes que participava: uma escala das 
prximas reunies do clube de Qumica, uma lista de nomes para a petio "Parem de colocar bebidas com acar nas mquinas de venda" que ele estava tentando fazer 
com que fosse aprovada, um broche na lapela com os dizeres Futuros Polticos da Amrica. -Tudo bem?
        Hanna puxou uma mecha de cabelo por sobre o ombro, aborrecida. Kate, Naomi e Riley olharam para eles e se afastaram alguns passos.
        - No muito - murmurou ela.
        Houve uma pausa estranha. Com o canto dos olhos, ela viu Jenna Cavanaugh entrando em uma sala de aula vazia, com seu cachorro ao lado. Toda vez que Hanna 
via Jenna pela escola, era tomada por uma sensao desconfortvel.
        - Senti sua falta ontem - disse Lucas. -Acabei no indo ao shopping. Eu quis esperar para ir com voc.
        - Ah - murmurou Hanna, ouvindo sem prestar ateno. Seu olhar pousou em Kate e nas outras meninas. Elas agora estavam no fim do corredor perto da sala do 
curso de aquarela II, sussurrando e dando risadas. Hanna imaginou o que poderia ser to engraado.
        Quando ela olhou de volta para Lucas, ele estava franzindo a testa.
        - O que est acontecendo? - perguntou ele. - Est chateada comigo?
        - No. - Hanna mexeu na manga de seu blazer. - Eu s tenho estado... ocupada.
        Lucas tocou o pulso dela.
        - Voc est ansiosa para o julgamento do Ian? Precisa de uma carona?
        A irritao repentina de Hanna era palpvel, como se tivesse sido cutucada com um atiador de lareira.
        - No v ao julgamento! - exclamou ela.
        Lucas pulou para trs como se tivesse levado um tapa.
        - Mas... pensei que voc queria que eu fosse. 
        Hanna se afastou.
        - No vai ser nada interessante - resmungou ela, desanimada. -  s a abertura dos depoimentos. Voc ficar maluco de to entediado.
        Lucas olhou para ela, ignorando o fluxo de estudantes que passava. Um monte deles eram crianas indo para as aulas de autoescola, com os livretos de regras 
de direo da Pensilvnia nas mos.
        - Mas eu quero estar l por voc.
        Hanna cerrou o maxilar e olhou para o nada.
        - Srio. Eu ficarei bem.
        - H uma razo para voc no querer que eu v?
        - Deixe para l, est bem? - Hanna gesticulou, fazendo de seus braos uma barreira entre eles. - Tenho que ir para a aula. Vejo voc na festa beneficente 
amanh.
        Com isto, ela trancou o armrio e deixou Lucas parado ali. Ela no conseguia explicar por que no se virou, pegou a mo dele e se desculpou por ser ridcula. 
Por que ela queria que Kate, Naomi e Riley a acompanhassem no julgamento, e quando Lucas se ofereceu - to leal e sincero - ela simplesmente ficara incomodada? Lucas 
era o namorado dela, e os ltimos meses com ele haviam sido timos. Depois que Mona morrera, Hanna ficara perdida, at que ela e Lucas voltaram a namorar. Quando 
voltaram, passaram todo o tempo juntos, encontrando-se na casa dele, jogando GrandTheft Auto, passando horas e horas esquiando na montanha Elk Ridge. Hanna no havia 
ido ao shopping ou a um spa nem uma vez durante os nove dias que eles tiveram de intervalo no Natal. Na metade do tempo que ela passou com Lucas, ela nem mesmo usara 
maquiagem, exceto o necessrio para cobrir a cicatriz.
        Aqueles ltimos meses com Lucas deviam ter sido a primeira vez na vida em que ela se sentira feliz, pura e simplesmente. Por que aquilo no era suficiente?
        Apenas no era, e ela sabia disso. Quando ela e Lucas voltaram, ela no pensara que havia muita chance de ela voltar a ser a Fabulosa Hanna Marin - e agora 
havia. Ser a garota mais popular de Rosewood Day estava enfiado em cada molcula do DNA de Hanna. Desde o quarto ano, ela memorizara at os estilistas mais insignificantes 
da Vogue, Women's Wear Daily e Nylon. Na poca, ela ensaiava comentrios maldosos sobre as garotas em sua turma com Scott Chin, um de seus nicos amigos, que ria 
alegremente e dizia ela era uma perfeita "nojenta em treinamento".
        No sexto ano, logo depois que a Cpsula do Tempo terminou, Hanna fora ao bazar de caridade de Rosewood Day e encontrara uma echarpe Herms que algum havia 
cometido o estpido erro de colocar na pilha de cinquenta centavos. Poucos segundos depois, Ali andou de maneira furtiva at ela e elogiou o olhar perspicaz de Hanna. 
E ento elas comearam a conversar. Hanna tinha certeza de que Ali a escolhera para ser sua nova amiga no porque era a mais bonita, no porque era a mais magra, 
nem mesmo porque ela havia sido corajosa suficiente para aparecer em seu quintal para roubar sua parte da bandeira da Cpsula do Tempo, mas porque Hanna era a mais 
qualificada para o trabalho. E porque era ela quem o queria mais.
        Hanna alisou o cabelo, tentando com vontade esquecer tudo que acabara de acontecer com Lucas. Quando ela virou a esquina, viu Kate, Naomi e Riley olharem 
direto para ela antes de irromper em risadas maldosas.
        Os olhos de Hanna comearam a ficar turvos e, de repente, no era Kate em p ali, sorrindo - era Mona. Era alguns meses atrs, poucos dias antes da festa 
de dezessete anos de Mona. Hanna nunca esqueceria os pensamentos de descrena quando ela vira Mona de p com Naomi e Riley, agindo como se elas fossem suas novas 
melhores amigas, sussurrando sobre o quanto Hanna era uma perdedora.
        Aqueles que esquecem o passado esto fadados a repeti-lo. Kate, Naomi e Riley no estavam rindo dela, estavam?
        E depois a viso de Hanna clareou. Kate viu Hanna e acenou de um jeito entusiasmado. Vamos nos encontrar no Steam no prximo tempo livre?, ela gesticulou 
com a boca, apontando na direo do caf.
        Hanna concordou, pouco empolgada. Kate mandou um beijo e desapareceu.
        Dando voltas, Hanna entrou no banheiro feminino. Felizmente, estava vazio. Ela foi at uma das pias e se inclinou sobre ela, seu estmago se revirando. O 
cheiro incisivo de amnia dos produtos de limpeza encheu seu nariz. Ela olhou para o espelho, aproximando-se para que pudesse ver cada poro.
        Elas no estavam rindo de voc. Voc  Hanna Marin, disse ela sem emitir som para seu reflexo. A garota mais popular da escola. Todo mundo quer ser voc.
        Seu BlackBerry, que estava enfiado dentro de um dos compartimentos laterais de sua bolsa, comeou a tocar. Hanna se encolheu e retirou o telefone. 1 nova 
mensagem.
        O pequeno banheiro ladrilhado em mosaico estava sossegado. Uma gota de gua pingava da torneira na pia. Os secadores cromados refletiam o rosto bulboso e 
deformado de Hanna. Ela olhou debaixo das portas das cabines em busca de ps. Ningum.
        Hanna respirou fundo e abriu a mensagem.
        Hanna - Louca por cheetos... e por castigo tambm, ao 
        que tudo indica. Acabe com ela, antes que ela acabe com 
        voc. - A
        Uma enorme onda de fria tomou conta de Hanna. Ela havia tido o suficiente do nouveau A. clicou em "responder" e comeou a digitar desajeitadamente.
        Apodrea no inferno. Voc no sabe nada sobre mim.
        Seu BlackBerry fez um pequeno ping eficiente para indicar que a mensagem havia sido enviada. Quando Hanna estava colocando o aparelho de volta na bolsa de 
camura, ele tocou outra vez.
        Eu sei que algum s vezes se obriga a vomitar no banhei-
        ro feminino. E eu sei que algum est triste porque no  
        mais a nica garotinha do papai. E eu ainda sei que algum 
        sente ternamente a falta de sua antiga melhor amiga, ainda 
        que ela a quisesse morta. Como eu sei tanto? Porque cres-
        ci em Rosewood, Hannakins. 
        Assim como voc. - A
23
O TRIBUNAL MAIS QUIETO DE MAIN LANE
Aria saiu do Mercedes de Spencer em meio  aglomerao da mdia no frum de Rosewood. A escadaria estava tomada por reprteres, cmeras e homens com jaquetas acolchoadas
manuseando microfones, comuns e suspensos. Havia grupos de pessoas com placas tambm. Alguns tericos da conspirao protestavam sob a alegao de que o julgamento
era uma caa s bruxas promovida pela esquerda - e Ian fora escolhido como alvo porque o pai dele era o diretor executivo de uma empresa farmacutica na Filadlfia.
Pessoas zangadas do outro lado da escada exigiam que Ian fosse mandado para a cadeira eltrica pelo que fizera. E havia,  claro, aqueles que eram Ias de Ali, presentes
simplesmente para segurar fotos enormes dela e placas com os dizeres SENTIMOS SUA FALTA, ALI; ainda que a maioria nem a tivesse conhecido.
        - Ai meu deus - sussurrou Aria, o estmago revirando.
        No meio da calada, Aria notou duas pessoas andando devagar, vindas do estacionamento lateral. O brao de Ella estava enroscado ao de Xavier, e ambos usavam 
grossos casacos de l. 
        Aria se escondeu debaixo de seu enorme capuz forrado de pele. Na noite anterior, depois que Xavier a beijara, ela havia corrido escada acima e se trancado 
em seu quarto. Quando finalmente saiu, algumas horas depois, encontrou Mike comendo uma tigela enorme de Count Chocula. Ele franziu a testa quando ela entrou na 
cozinha.
        -Voc falou alguma besteira para o Xavier? - perguntou o irmo sem rodeios. - Quando desliguei o telefone, ele estava saindo daqui feito um foguete. Voc 
est tentando estragar tudo para a mame?
        Aria deu meia-volta, envergonhada demais para responder qualquer coisa. Tinha certeza de que o beijo fora um erro, um ato impensado. At Xavier pareceu surpreso 
e arrependido pelo que tinha acabado de fazer. Mas ela certamente no queria que Mike - nem ningum mais - soubesse daquilo. Infelizmente, algum sabia: A. E Aria 
havia enfurecido A ao contar a Wilden sobre sua mensagem anterior. A noite toda, Aria esperou por uma ligao de Ella, dizendo que recebera uma mensagem misteriosa 
que dizia que Aria tinha dado em cima em Xavier e no o contrrio. Se Ella descobrisse, era bem provvel que Aria fosse banida da famlia pelo resto da vida.
        -Aria! - chamou Ella, espiando Aria por debaixo do capuz. Ela comeou a acenar, gesticulando para que Aria fosse at eles. Xavier tinha uma expresso envergonhada. 
Assim que Xavier tivesse um segundo sozinho com ela, Aria tinha certeza de que ele pediria desculpas. Mas havia coisas demais na cabea dela para que conseguisse 
lidar com aquela situao no momento. J bastava todo o resto.
        Ela pegou no brao de Spencer, dando as costas para sua me.
        - Vamos entrar - disse ela, apressada. - Agora. 
        Spencer deu de ombros. Elas encararam a multido que ocupava a escada. Aria tornou a cobrir a cabea com o capuz, e Spencer tentou esconder o rosto com as 
mos, mas ainda assim os reprteres vieram na direo delas.
        - Spencer! O que voc acha que vai acontecer no julgamento hoje? - gritavam eles.
        - Aria! Que efeito tudo isto teve sobre voc?
        Aria e Spencer entrelaaram as mos com fora, andando o mais rpido que podiam. Um policial de Rosewood estava na porta do frum, e a manteve aberta para 
elas. Elas driblaram a multido e conseguiram entrar, ofegantes.
        O corredor cheirava a cera de piso e loo ps-barba. Ian e seus advogados ainda no haviam chegado, por isso havia muitas pessoas alvoroadas na frente 
do frum. Muitas delas eram policiais de Rosewood e funcionrios municipais, mas havia tambm vizinhos e amigos. Aria e Spencer acenaram para Jackson Hughes, o procurador 
bonito. Quando Jackson se moveu, o chiclete de menta de Aria escorregou garganta abaixo. A famlia de Ali estava bem atrs dele. L estavam a sra. DiLaurentis, 
o sr. DiLaurentis e... Jason. No fazia muito tempo que Aria vira o irmo de Ali - ele tinha ido ao velrio da irm e depois aparecera no dia em que Ian se apresentara 
no tribunal -, mas cada vez que ela o via, ficava abismada ao constatar, de novo, que ele era mesmo muito lindo.
        - Ol, meninas. - A sra. DiLaurentis foi at elas. As linhas abaixo dos olhos dela estavam mais pronunciadas do que Aria se lembrava, mas ela ainda era esbelta 
e elegante. Ela observou Aria e Spencer. -Vocs duas ficaram to altas - disse ela com tristeza, como querendo dizer que se Ali ainda estivesse viva, tambm seria 
alta.
        -  Como vocs esto? - perguntou Spencer com sua voz mais adulta.
        -Vamos indo. - A sra. DiLaurentis deu um sorriso encorajador.
        -Vocs esto hospedados na cidade de novo? - perguntou Aria. A famlia estava na Filadlfia no dia em que Ian se apresentou perante o juiz, alguns meses 
atrs.
        A sra. DiLaurentis fez que no com a cabea.
        - Alugamos uma casa em uma cidade prxima pelo tempo que durar o julgamento. Achamos que seria muito difcil vir da cidade para c todos os dias. Preferimos 
ficar em algum lugar mais prximo.
        Aria ergueu uma sobrancelha, surpresa.
        -  Podemos fazer alguma coisa por vocs? - perguntou Aria.- Como... Ajudar com as tarefas de casa? Vocs precisam que a neve da entrada da garagem seja retirada? 
Meu irmo e eu poderamos ir at l.
        Uma expresso ambgua brincou no rosto da sra. DiLaurentis. Suas mos trmulas alcanaram o colar de prolas de gua doce em seu pescoo.
        - Obrigada, querida, mas no ser necessrio. - Ela deu um sorriso distante e distrado, pediu licena e se afastou.
        Aria viu a sra. DiLaurentis caminhar de volta para o lobby, onde estava sua famlia. Ela andava com a cabea to dura e reta que parecia que tinha um livro 
equilibrado em cima.
        - Ela est... estranha - murmurou Aria.
        -  No consigo nem imaginar pelo que est passando. - Spencer teve um calafrio. - Este julgamento deve ser um inferno para ela.
        Elas empurraram as pesadas portas de madeira e entraram no tribunal. Hanna e Emily j estavam sentadas na segunda fileira, bem atrs das grandes mesas dos 
advogados. Hanna havia tirado seu blazer de Rosewood Day e o pendurara no encosto da cadeira. Emily catava fiapinhos na saia plissada do uniforme. As duas meninas 
acenaram com a cabea enquanto elas se dirigiam at os assentos ao seu lado.
        A sala do tribunal logo ficou lotada. Jackson tinha colocado uma poro de pastas e arquivos sobre sua mesa. O advogado de Ian chegou e tomou seu lugar do 
outro lado do corredor. Na lateral da sala, havia doze pessoas que Aria nunca tinha visto antes no recinto do jri. Elas haviam sido escolhidas pelos dois advogados. 
O tribunal estava fechado para a mdia e para a maioria dos moradores de Rosewood. Apenas familiares prximos e amigos, a polcia e as testemunhas poderiam assistir
ao julgamento. Quando Aria olhou em volta, viu os pais de Emily, o pai de Hanna e sua futura madrasta e a irm de Spencer, Melissa. Do outro lado do tribunal, Aria 
observava seu pai, Byron. Ele estava ajudando Meredith a se sentar lentamente, mesmo ela no estando to grvida assim.
        Byron olhou em volta, como se houvesse sentido o olhar de Aria. Ele a viu e acenou com a mo. Aria balbuciou um oi. Byron sorriu. Meredith a notou tambm, 
arregalou os olhos e balbuciou: Voc est bem?
        Aria se perguntou se Byron sabia que Ella estava l - e que ela trouxera seu novo namorado. 
        Emily cutucou Aria.
        - Sabe aquela noite em que voc me ligou dizendo que recebeu uma mensagem do novo A? Eu tambm recebi uma mensagem naquela noite.
        Um estremecimento percorreu a espinha de Aria.
        - O que dizia?
        Emily abaixou a cabea mexendo com um boto solto de sua blusa.
        - S... Bem, nada, na verdade. Wilden chegou a falar para voc de quem elas poderiam ser?
        - No. - Aria olhou para os lados, pensando que Wilden poderia estar por l, mas no o viu. Ela se esticou para ver Hanna desviando de Emily.
        -Voc recebeu alguma?
        A expresso de Hanna tornou-se cautelosa.
        - No quero falar sobre isso agora.
        Aria franziu a testa. Isso queria dizer que ela havia recebido novas mensagens ou no?
        - E voc, Spencer?
        Spencer olhou para elas parecendo nervosa. Ela no respondeu.
        Aria sentiu um gosto amargo. Isto significava que todas elas tinham recebido mais mensagens do novo A?
        Emily mordeu o lbio inferior.
        - Bem, acho que isto no importar em breve, certo? Se foi mesmo Ian, isso vai acabar assim que ele voltar para a cadeia...
        - Vamos torcer para que voc esteja certa - murmurou Aria.
        Finalmente, os DiLaurentis entraram e se sentaram no banco bem em frente a elas. Jason se acomodou perto dos pais, mas no parava quieto, primeiro abotoando 
sua jaqueta, depois desabotoando, para ento pegar seu celular, verificar a tela, desligar e tornar a ligar. De repente, Jason se virou e encarou Aria. Seus olhos 
azuis permaneceram nela por uns bons trs segundos. Ele tinha exatamente os mesmos olhos de Ali - era como olhar para um fantasma.
        Um lado da boca de Jason curvou-se em um sorriso de reconhecimento. Ele fez um pequeno aceno para Aria - e aparentemente apenas para Aria - como se lembrasse 
melhor dela do que das outras meninas. Aria verificou se alguma de suas velhas amigas havia notado, mas Hanna estava retocando o batom, e Spencer e Emily estavam 
cochichando sobre a novidade contada pela sra. DiLaurentis de que a famlia havia se mudado para uma cidade mais prxima de Rosewood por causa do julgamento. Quando 
Aria olhou de volta para Jason, suas costas estavam viradas para ela de novo.
        Mais vinte minutos se passaram lentamente. O lugar de Ian ainda estava vazio.
        -  Ele j no deveria ter chegado? - sussurrou Aria para Spencer.
        As sobrancelhas de Spencer se uniram.
        - Por que voc est me perguntando isto? - sibilou ela. - Como  que eu vou saber?
        Aria arregalou os olhos e afundou na cadeira.
        - Desculpe - sussurrou, de modo spero. - Eu no perguntei a voc especificamente.
        Spencer suspirou amuada e olhou para a frente. Ela estava apertando sua mandbula com fora.
        O advogado de Ian levantou-se e andou para o fundo do tribunal, com um olhar preocupado. Aria olhou para as portas de madeira que davam para o lobby, esperando 
que Ian e os policiais que o acompanhavam entrassem a qualquer momento, prontos para comear o julgamento. Mas as portas permaneceram fechadas. Ela passou a mo 
na nuca, ansiosa. Os murmrios no tribunal ficaram mais altos.
        Aria olhou pela janela lateral tentando se acalmar. O tribunal ficava em uma colina cheia de neve que dava para o vale de Rosewood. No vero, a folhagem 
densa bloqueava a vista, mas agora que as rvores estavam desfolhadas, era possvel ver toda Rosewood espalhada l embaixo. A torre de Hollis parecia to pequena 
que Aria poderia esmag-la entre seu dedo e seu indicador. As casas vitorianas pequeninas l embaixo eram como casas de boneca, e Aria conseguia distinguir o smbolo 
de neon em forma de estrela do Snooker, onde ela se encontrara com Ezra pela primeira vez. Mais adiante ficavam os vastos e intocados campos de golfe do Clube de 
Campo de Rosewood. Ela, Ali e as outras passaram todos os dias do primeiro vero em que se tornaram amigas em volta da piscina do clube de campo, cobiando os salva-vidas 
com os olhos. O salva-vidas que elas mais cobiaram foi Ian.
        Ela gostaria de poder voltar para aquele vero e revisar tudo que havia acontecido com Ali - voltar para antes de os trabalhadores comearem a cavar aquele 
buraco para o gazebo dos DiLaurentis, com capacidade para vinte pessoas. A primeira vez que Aria estivera no quintal de Ali, ela pisara quase que no mesmo lugar 
em que aquele buraco - e o corpo de Ali - ficariam, na parte dos fundos da propriedade, bem perto do bosque. Foi naquele fatdico sbado no comeo do sexto ano, 
que todas elas foram at o quintal de Ali para roubar um pedao de sua bandeira da Cpsula do Tempo. Aria gostaria de poder voltar e mudar o que aconteceu naquele 
dia tambm.
        O juiz Baxter saiu de seu escritrio. Ele era corpulento, tinha o rosto bem vermelho, um nariz amassado e pequeno e olhos arredondados. Provavelmente tinha 
cheiro de charuto, pensou Aria. Quando Baxter pediu que os dois advogados se aproximassem de sua mesa, Aria se endireitou na cadeira. Os trs discutiram acaloradamente, 
apontando de vez em quando para a cadeira vazia de Ian.
        - Isto  loucura - murmurou Hanna, olhando por sobre o ombro. - Ian est muito atrasado.
        A porta do tribunal foi aberta de modo abrupto e as meninas pularam. Um policial, que Aria reconheceu do dia em que Ian se apresentara ao tribunal, entrou 
caminhando rapidamente pelo corredor, como se aquilo fosse um saloon de faroeste, indo
direto at o juiz.
        - Acabo de encontrar a famlia dele - disse ele de um jeito rude. Seu distintivo prateado refletia os raios de sol, espalhando raios de luz pela sala toda. 
- Eles o esto procurando.
        A garganta de Aria ficou seca.
        - Procurando? - Ela trocou olhares com as outras.
        - O que eles querem dizer com isso? - esganiou Emily. 
        Spencer mordeu a unha do dedo.
        - Ai meu Deus.
        Pela porta que ainda estava aberta, Aria pde ver um carro preto parado no meio-fio. O pai de Ian saiu do banco de trs. Ele estava de preto, como se fosse 
a um funeral, e tinha um ar solene e assustado. Aria presumiu que a me de Ian no estivesse l, pois estava no hospital.
        Um carro da polcia parou atrs deste carro, mas apenas dois policiais de Rosewood saram.
        Em segundos, o pai de Ian entrou pelo corredor e foi at a banca.
        - Ele estava no quarto dele na noite passada - murmurou o sr. Thomas baixinho para o juiz Baxter, mas no baixo o suficiente. - Eu no sei como isso foi 
acontecer.
        O rosto do juiz se contorceu por um momento.
        - O que voc quer dizer? - perguntou ele. 
        O pai de Ian baixou a cabea solenemente.
        - Ele... sumiu.
        Aria ficou boquiaberta, seu corao batendo rpido e forte dentro do peito. Emily gemeu. Hanna sentiu seu estmago contrair, um barulho estranho escapou 
de sua garganta.
        Spencer se levantou um pouco.
        - Eu acho que eu deveria... - comeou ela, mas desistiu e sentou-se outra vez.
        O juiz Baxter bateu o martelo.
        - Estamos em recesso - gritou ele para a multido. - At segunda ordem. Convocaremos vocs quando estivermos prontos.
        Ele fez um sinal com as mos. De uma s vez, cerca de vinte policiais de Rosewood se aproximaram da mesa, os radio-comunicadores berrando, as armas em seus 
coldres, prontas para serem usadas. Depois de algumas instrues, os policiais se viraram e comearam a marchar para fora do tribunal em direo aos seus carros.
        Ele sumiu. Aria olhou pela janela de novo, l para baixo do vale. Havia uma boa parte de Rosewood l. Muitos lugares para Ian se esconder.
        Emily se encolheu no banco, passando as mos nos cabelos.
        - Como isso foi acontecer?
        - No havia um policial vigiando o tempo todo? - completou Hanna. - Quer dizer, como ele poderia ter escapado de casa sem ser visto? No  possvel!
        - Sim, .
        Todas olharam para Spencer. Seus olhos se moviam para um lado e para outro mecanicamente, e suas mos tremiam. Lentamente, ela ergueu a cabea e olhou para 
as outras trs, a expresso cheia de culpa.
        -Tem algo que preciso dizer a vocs - sussurrou ela. - Sobre... Ian. E vocs no vo gostar.
24
AT TU, KATE?
- Licena! - gritou Hanna.
        Uma mulher passeando com um cachorro com a forma de salsicha deu um pulo ligeiro e saiu da frente de Hanna. Era sexta-feira  noite depois do jantar, e Hanna
estava correndo pela Trilha Stockbridge, uma volta de quase cinco quilmetros que passava por trs da velha manso de pedra, de propriedade de Rosewood Y. Provavelmente, 
aquela no era a coisa mais segura a se fazer, correr em uma trilha isolada com Ian Thomas teoricamente  solta. Entretanto, se Spencer tivesse reunido alguma coragem 
e contado aos policiais que Ian driblara a priso domiciliar e a visitara no dia anterior, ele no teria fugido.
        Que se danasse o Ian - Hanna precisava correr esta noite. Ela costumava fazer aquela trilha para esvaziar ajudar na digesto depois de ter se acabar de comer 
cheetos, mas naquela noite, era a memria de Hanna que precisava ser esvaziada.
        As mensagens de A estavam deixando-a doida. Ela no queria acreditar que esse novo A fosse real... Mas e se o que as mensagens diziam fossem verdade? Se 
o novo A fosse Ian e ele tivesse conseguido fugir da priso domiciliar, fazia sentido que ele soubesse o que Kate andava fazendo, certo?
        Hanna passou voando pelos bancos cobertos de neve e por uma grande placa verde que dizia POR FAVOR, LIMPE A SUJEIRA DE SEU CO!. Ser que ela tinha sido 
boba por ter ficado amiga de Kate com tanta facilidade? Seria outro truque dela? E se Kate fosse to diablica quanto Mona, e se isso fosse um plano bem-feito para 
arruinar sua vida? Lentamente, ela deixou sua mente passear sobre os detalhes intrincados de sua amizade com Mona - ou talvez ela devesse dizer inimizade. Elas haviam 
se tornado amigas no oitavo ano, alguns meses depois de Ali desaparecer. Mona se aproximara de Hanna, elogiara seus tnis D&G e a pulseira Davis Yurman que ela ganhara 
de aniversrio. Hanna achou aquilo esquisito logo de cara - Mona era uma idiota, afinal de contas -, mas com o tempo, ela passou a ver alm do exterior de Mona. 
Alm disso, ela precisava de uma melhor amiga.
        Mas talvez ela nunca tivesse sido a melhor amiga de Hanna. Talvez Mona estivesse apenas esperando o momento oportuno para derrub-la, para se vingar de todas 
as coisas horrveis que Hanna e suas amigas haviam dito sobre ela. Foi Mona que afastou Hanna de suas velhas amigas e foi ela tambm que estimulou a animosidade 
com Naomi e Riley. Hanna havia pensado em tentar reparar as coisas com elas depois que Ali foi considerada morta, mas Mona no aceitou de jeito nenhum. Naomi e Riley 
eram estritamente da lista B e no deviam ter nada a ver com elas duas.
        Foi Mona tambm que sugeriu que elas roubassem coisas, dizendo a Hanna que isto faria com que ela sentisse um barato
enorme. E depois, havia as coisas que 
Mona tinha feito se passando por A. E era to fcil para Mona fazer aquilo com ela - Mona foi testemunha dos piores erros de Hanna. Muitos, muitos deles. Quem estava 
sentada ao seu lado na noite em que ela destrura a BMW do pai de Sean Ackard? Quem estava com Hanna quando ela foi pega roubando na Tiffany?
        Seus ps se afundavam nas poas de neve derretida, mas ela continuou correndo. Tudo o mais que Mona havia feito passava por sua mente, de modo to descuidado 
e incontrolvel quanto champanhe borbulhando em uma garrafa sem rolha. Mona, se passando por A, mandara para ela aquele vestido minsculo, sabendo que Hanna iria 
us-lo em seu aniversrio e que as costuras iriam arrebentar. Mona, se passando por A, alegremente enviara uma mensagem para Hanna, dizendo que Sean estava no baile 
de caridade com Aria, sabendo que certamente Hanna correria de volta a Rosewood para brigar com ele, estragando com o jantar que planejara com o pai e fazendo Kate 
parecer a filhinha perfeita e obediente mais uma vez.
        Espere um momento. Hanna parou bem perto de um aglomerado de rvores. Alguma coisa ali no se encaixava. Hanna contara a Mona que ela voltara a ter contato 
com o pai, mas ela no contara que no iria ao baile de caridade para sair com ele na Filadlfia. Mesmo que, de algum modo, Mona tivesse descoberto sobre aquilo, 
ela no tinha como saber que Kate e Isabel estariam l tambm. Hanna se lembrou de como Isabel e Kate bateram na porta da sute de seu pai no Four Seasons.
        - Surpresa! - gritaram elas.
        Mona no tinha como saber que isso aconteceria!
        A no ser que...
        Hanna inspirou fundo. O cu parecia ter escurecido um pouco. S havia um jeito de Mona ter sabido que Isabel e Kate iriam aparecer na Filadlfia: se Mona 
e Kate estivessem se correspondendo em segredo.
        Fazia sentido. Mona sabia de Kate,  claro. Uma das mensagens de A era um recorte de jornal sobre Kate recebendo outro prmio na escola.Talvez Mona tivesse 
ligado para Kate e contado sobre seu esquema diablico. E j que Kate odiava tanto Hanna, ela teria concordado. Isto poderia explicar como Kate a pressionara a contar 
o que havia de errado no banheiro do Le Bec-Fin. Ou como Kate sabia o que procurar na bolsa de Hanna - talvez Kate j soubesse que Hanna tinha um monte de Percocet.
        - Ela se gabou por ter Percocet - Mona pode ter sussurrado para Kate pelo telefone, preparando-a. - E ela vai acreditar que voc no contar nada se disser 
que quer um tambm. Mas, mais ou menos uma hora depois que ela sair, quando o pai dela comear a enlouquecer, conte tudo. Conte a ele que Hanna
forou voc a pegar um Percocet.
        - Ai meu Deus - sussurrou Hanna, olhando em volta.
        O suor gelado em seu pescoo comeou a escorrer pelas suas costas. Kate e Hanna se dando bem sendo as meninas mais populares da escola, Naomi e Riley virando 
as suas melhores amigas - e se tudo isso fosse parte do grande esquema de Mona? E se Kate estivesse fazendo o que Mona pediu... E se ela realmente estivesse planejando 
acabar com Hanna?
        Os joelhos de Hanna falharam. Ela se abaixou at o cho, caindo de maneira estranha sobre seu brao direito.
        E se aquilo nunca acabasse?
        Seu estmago revirou. Ela se virou de repente para a beirada da trilha e vomitou na grama. Seus olhos se encheram de lgrimas e sua garganta queimou. Hanna 
se sentiu perdida. E muito s. Ela no fazia a menor ideia do que era verdade em sua vida e o que no era.
        Depois de alguns minutos, ela limpou a boca e voltou para a trilha pavimentada, que estava vazia. Estava to quieto que Hanna podia ouvir seu estmago borbulhar 
bem alto. Os arbustos pelo caminho comearam a se mexer. Parecia que havia algo entre eles tentando sair. Ela tentou se mover, mas todos os seus membros pareciam 
estar iguais ao seu brao depois do acidente: inteis. O farfalhar nos arbustos ficou cada vez mais forte.
         o fantasma de Mona, gritou uma voz na cabea de Hanna. Ou o fantasma de Ali. Ou de Ian.
        Os arbustos se abriram. Hanna deu um grito estrangulado e fechou os olhos com fora. Mas quando ela os abriu, alguns segundos depois, o caminho ainda estava 
vazio. Hanna piscou, olhando em volta. E ento ela viu o que havia feito todo aquele estardalhao - um coelho cinzento, fazendo barulhinhos perto de um canteiro 
seco de trevos.
        - Voc me assustou - Hanna deu uma bronca no coelho. Seu nariz queimou com o cheiro de seu vmito. Uma mulher usando jaqueta Windbreaker passou correndo, 
ainda cheirando a perfume Marc Jacobs Daisy que provavelmente passara ao sair para trabalhar. Depois um cara com um enorme dogue alemo preto e branco passou. O 
mundo estava cheio de pessoas de novo.
        Quando o coelho desapareceu nos arbustos, a cabea de Hanna comeou a clarear. Ela respirou fundo algumas vezes, ajustando sua perspectiva das coisas. Era 
s um truque para mexer com sua cabea - de Ian ou de outro garoto qualquer que estivesse fingindo ser o novo A. Mona no podia controlar o universo do alm-tmulo. 
Alm do mais, Kate tinha comentado sobre sua desastrosa relao com o Garoto Herpes. Kate no teria admitido algo deste tipo se estivesse fazendo um compl para 
destruir Hanna definitivamente.
        Hanna correu de volta os oitocentos metros que faltavam at o estacionamento, sentindo-se muito melhor de repente. Seu BlackBerry estava sobre o banco do 
passageiro de seu Prius e no havia novas mensagens na caixa de entrada. Enquanto ia para casa, Hanna queria abri-lo e responder  ltima mensagem de A, escrevendo 
tima tentativa, falso A, voc quase me pegou. Sentiu-se culpada tambm por ignorar as mensagens daquele dia de Kate e por ter fugido dela nos corredores da escola. 
Talvez houvesse um jeito de compens-la. Talvez amanh elas pudessem ir ao Jamba Juice antes de se preparar para o evento beneficente, e Hanna poderia, ento, pagar 
um Mantra de Manga sem acar.
        Quando ela chegou em casa, o lugar estava escuro e quieto.
        -  Ol? - chamou Hanna, deixando seu tnis de corrida suado na lavanderia e tirando o elstico do cabelo. Ela se perguntou onde estariam todos. - Kate?
        Conforme subia a escada, Hanna ouviu uma vozinha abafada vindo de cima. A porta do quarto de Kate estava fechada e uma msica que Hanna no reconhecia vinha 
de l.
        - Kate? - chamou Hanna baixinho.
        Nenhuma resposta. Hanna levantou a mo fechada para bater na porta, quando Kate falou de maneira aguda.
        -Vai funcionar - disse Kate. - Prometo.
        Hanna franziu a testa. Parecia que Kate estava falando ao telefone. Ela apertou a orelha contra a porta, curiosa.
        - No, eu prometo - insistiu Kate em voz baixa. - Confie em mim! E j est quase na hora! Mal posso esperar!
        Ento Kate deu uma risada baixa horrvel. Hanna se afastou da porta como se ela estivesse pegando fogo, cobrindo a boca. A risada de Kate se transformou 
em uma gargalhada assustadora. Hanna voltou para baixo, horrorizada. Era o tipo de risada que ela no podia deixar de reconhecer - ela e Mona costumavam rir daquele 
jeito quando estavam planejando algo grandioso. Elas gargalhavam assim quando Hanna tramava uma amizade falsa com Naomi porque ela havia roubado o acompanhante de 
Mona para o Baile Sweetheart. E elas haviam rido assim quando Mona criou uma pgina falsa no MySpace para Aiden Stewart, um cara lindo da escola Quaker, e a usou 
para atormentar Rebecca Lowry, porque ela havia se autodenominado Rainha da Neve, uma honra que sem dvida deveria ser de Hanna. Isto no vai ser bonito, era o que 
a risada sempre queria dizer, mas  o que a vadia merece. E ns temos certeza de que vamos achar tudo tremendamente engraado.
        Todas as preocupaes de Hanna voltaram com a fora de um deslizamento de terra montanha abaixo. Parecia que Kate estava planejando algo grandioso tambm, 
e Hanna tinha uma boa ideia do que poderia ser.
25
NO BANHEIRO... MAS FORA DO ARMRIO
Assim que Emily e Isaac pararam na entrada da garagem da famlia Hastings no sbado  noite, um homem correu at a porta do carro e pediu suas identidades.
        - Queremos manter um registro de todos que esto aqui - disse o rapaz. Emily notou que havia uma arma em seu cinto. Isaac olhou para a arma, depois para 
Emily. Ele tocou a mo dela.
        - No se preocupe. Ian provavelmente j est do outro lado do mundo hoje.
        Emily tentou esconder o estremecimento. Ian estava desaparecido havia um dia. Emily contara a Isaac que ela era uma das melhores amigas de Ali e que tinha 
ido ao julgamento no dia anterior, sem mencionar,  claro, o fato de que ela vinha recebendo mensagens ameaadoras do novo A. - que Emily estava convencida de que 
era Ian. Infelizmente, Emily tinha certeza de que Ian no estava do outro lado do mundo, e sim em Rosewood, tentando descobrir algum grande segredo que ele acreditava 
que os policiais estavam escondendo.
        Uma parte de Emily estava furiosa com Spencer por no ter contado a elas antes sobre a visita macabra de Ian. Ao mesmo tempo, Emily sabia por que Spencer 
no tinha contado. Ela lhes mostrara a mensagem que Ian havia mandado depois de sua visita, aquela que dizia que Spencer iria sofrer se dissesse uma nica palavra 
sobre aquilo para algum. Alm do mais, Emily no tinha falado muito sobre a mensagem que recebera de A, aquela na qual A ameaava contar a Isaac toda a verdade 
caso ela abrisse a boca. Parecia que Ian era to astuto quanto Mona fora um dia, e sabia exatamente como manter todas elas caladas.
        Mesmo assim, logo depois que Spencer admitiu a verdade, as meninas procuraram um policial para contar o que estava acontecendo, mas todo o departamento de 
policia de Rosewood estava  procura de Ian. Os pais de Spencer haviam discutido se seria melhor cancelar o jantar para angariar fundos naquela noite, mas decidiram 
apenas ser muito, muito cautelosos. Spencer havia convidado Emily e suas antigas amigas na noite anterior e implorara que elas fossem para que pudessem estar juntas 
e servirem de apoio moral umas para as outras.
        Emily segurou a barra do vestido que pegara emprestado de Carolyn e saiu do Volvo.A casa de Spencer estava toda acesa, como um bolo de aniversrio. O carro 
de policia de Wilden estava estacionado na frente, bem no meio do ptio, e alguns homens estavam controlando a movimentao dos veculos. Quando Isaac pegou sua 
mo, Emily viu Seth Cardiff, o melhor amigo de Ben, seu ex-namorado, saindo de um carro atrs deles. Ela tensionou os ombros e segurou no brao de Isaac.
        -Vamos por aqui - disse ela apressadamente, empurrando Isaac sem delicadeza pela porta da frente. Ento ela viu Eric Kahn parado na varanda. Se Eric estava 
l, Noel estava por perto, sem sombra de dvida.
        -Ah... Espere um pouco. - Ela puxou Isaac para um ponto onde havia uma sombra, perto de um grande arbusto carregado de neve e fingiu que estava procurando 
algo em sua bolsa de mo prateada. O vento balanou os galhos do pinheiro perto deles. Emily de repente se perguntou se o que estava fazendo era loucura. Aqui estava 
ela, parada no escuro, quando havia um assassino enlouquecido  solta.
        Isaac riu constrangido.
        - Tem alguma coisa errada? Voc est se escondendo de algum?
        -  Claro que no! - mentiu Emily. Eric Kahn finalmente entrou. Emily se ajeitou e saiu pelo caminho outra vez. Ela respirou fundo e abriu a porta da frente. 
Uma luz brilhante veio ao encontro deles. Aqui vamos ns.
        Um quarteto de cordas estava acomodado no canto, tocando um minueto elegante. Mulheres em vestidos de festa de seda e lantejoulas riam, acompanhadas de homens 
em ternos escuros impecveis. Uma garonete deslizou ente Emily e Isaac, carregando uma grande bandeja cheia de taas de champanhe. Isaac pegou duas taas e entregou 
uma para Emily, Ela deu um gole, tentando no fazer barulho ao engolir.
        - Emily. - Spencer parou na frente dela, usando um vestido preto curto com uma fenda na pena em volta da barra e sapatos Chanel extremamente altos. Seu olhar 
desceu at a mo de Isaac, que estava enroscada  de Emily, Uma ruga se formou entre suas sobrancelhas.
        - H... Isaac, esta  Spencer. So os pais dela que esto dando esta festa - falou Emily bem rpido, lentamente soltando a mo de Isaac. - Spencer, este 
 Isaac. - Ela queria acrescentar, "e ele  meu namorado", mas havia pessoas demais em volta.
        - Rick Colbert, o dono do bule que est aqui esta noite,  meu pai - explicou Isaac, estendendo a mo para d-la a Spencer. -Voc o conheceu?
        -  Eu no acompanhei os preparativos - disse Spencer, amargamente. Ela se virou para Emily outra vez. - Ento, Wilden falou com voc sobre as regras? No 
podemos ir l fora. Se algum precisar de algo que esteja no carro,  s dizer ao Wilden e ele providenciar. E quando voc for embora, ele ir acompanh-la.
        - Nossa. - Isaac passou a mo no cabelo. -Vocs esto realmente levando isto a srio.
        -  srio - devolveu Spencer.
        Quando ela se virou para se afastar, Emily segurou seu brao. Ela queria perguntar a Spencer se ela contara a Wilden sobre a visita de Ian, como ela havia 
prometido. Mas Spencer a dispensou.
        - No posso conversar agora - disse ela de modo abrupto, e desapareceu na multido.
        Isaac ficou surpreso.
        - Bem, ela  to amigvel. - Isaac olhou em volta da sala, para o tapete oriental carssimo no enorme vestbulo, para o trabalho em pedras na parede e para 
os retratos dos ancestrais do Hastings por toda a galeria. - Ento  assim que o pessoal da sua escola vive, no ?
        - Nem todo mundo vive assim - corrigiu-o Emily.
        Isaac caminhou at uma mesa lateral e passou as mos por um conjunto de ch Svres. Emily queria desvi-lo de l - Spencer sempre ressaltava que aquilo tinha 
pertencido a Napoleo -, mas ela tambm no queria que Isaac pensasse que ela estava dando bronca nele.
        - Aposto que voc mora em um lugar ainda melhor que este - provocou Isaac. - Como uma casa com dezenove quartos com uma piscina retangular coberta.
        - Nada disso. - Emily deu um soquinho nele. - Tem duas piscinas retangulares cobertas, uma para mim e outra para a minha irm. Eu no gosto de compartilhar.
        - Ento, quando vou ver esta sua casa magnfica? - Isaac pegou as mos de Emily e balanou-as para a frente e para trs. - Afinal de contas, eu deixei voc 
entrar na minha casa.
Encontrar minha me. Alis, desculpe por aquilo.
        -  Ora, por favor.
        Quando Emily fora buscar Isaac em sua casa esta noite, a me dele os mimou, tirando fotos e oferecendo biscoitos caseiros para Emily. A sra. Colbert a lembrava 
de sua prpria me. As duas colecionavam estatuetas Hummel e usavam Crocs azul-claro. Elas provavelmente podiam ficar muito
arrugas.
        - Eu achei que ela foi muito doce - disse Emily. - Como voc.
        Isaac ficou corado e puxou-a para perto. Emily gargalhou, emocionada de estar sendo pressionada contra ele em seu terno chique, mesmo se ele o tivesse pegado 
emprestado do pai. Ele cheirava a sndalo e a chiclete de canela, e ela teve uma repentina vontade de beij-lo na frente de todos.
        Ento ela ouviu uma risada atrs deles. Noel Kahn e James Freed conversavam debaixo do arco da porta que dava para a sala. Ambos usavam ternos pretos caros 
e suas gravatas listradas de Rosewood Day estavam frouxas em volta do pescoo.
        - Emily Fields! - gritou James com satisfao. Seus olhos varreram Isaac de cima a baixo, um olhar perplexo surgindo em seu rosto. Ele provavelmente pensou 
primeiro que Isaac fosse uma menina masculinizada vestida de smoking.
        - Ol, Emily - disse Noel com sua voz preguiosa, meio surfista, meio mauricinho, seus olhos medindo Isaac tambm. - Vejo que trouxe um amigo. Ou  um namorado?
        Emily deu um passinho para trs. Noel e James lamberam os lbios como lobos caadores. Ambos estavam revisitando suas listas de coisas sarcsticas para poder 
falar em seguida - Dando uma volta com meninos para variar? Olha isto cara, Emily Fields  pervertida! Ela pode arrastar voc para algum clube de striptease de lsbicas! 
Quanto mais tempo eles permanecessem quietos, com certeza mais horrvel seria o que diriam.
        - Eu tenho que... - disse Emily. Ela se virou, quase trombando com o diretor Appleton e a sra. Hastings, que estavam tomando coquetis. Saiu tropeando pelo 
vestbulo, querendo ir para o mais longe possvel de Noel e James.
        - Emily? - chamou Isaac, indo atrs dela. Ela continuou correndo. As pesadas portas da biblioteca estavam logo  frente. Emily as abriu com violncia e entrou, 
bufando.
        Estava quente l dentro e o lugar tinha cheiro de livros velhos misturados com sapatos caros de couro. Os olhos de Emily ficaram embaados, depois se acostumaram. 
Seu estmago doa de terror. A sala estava cheia de garotos de Rosewood Day. As pernas compridas de Naomi Zeigler estavam penduradas sobre o brao de uma das cadeiras 
de couro, e a futura meia-irm de Hanna, Kate, estava sentada como uma rainha no div. Mason Byers e alguns dos outros meninos do time de lacrosse estavam reunidos 
perto de uma estante de livros, sem dvida adorando xeretar os livros obscuros de fotografia francesa, que consistiam na maior parte de fotos soft porns de mulheres 
nuas. Mike Montgomery e uma bonita morena estavam tomando uma taa de vinho juntos, e Jenny Kestler e Kirsten Cullen beliscavam po crocante e queijo.
        Todos se voltaram para olhar para Emily. E quando Isaac entrou na sala feito um furaco atrs dela e colocou seu brao no ombro nu de Emily, ele foi devidamente 
avaliado tambm.
        Era como se um encanto mgico malvolo tivesse atordoado Emily e a colocado em estado de animao suspensa. 12la pensou que poderia lidar com seus colegas, 
mas com todos juntos daquele jeito... Todos conheciam os segredos dela, todos os estavam l no dia em que A circulou aquela foto de Emily e Maya se beijando. Era 
demais para suportar.
        Ela nem conseguia olhar para Isaac quando se virou e saiu pela porta da biblioteca. Noel e James ainda estavam encostados na parede, passando uma garrafa 
de Patrn para l e para c.
        - Ei, voc voltou! Quem  este cara que est com voc? Se voc est jogando no nosso time de novo, por que no me convidou para sair antes?
        Emily mordeu o lbio e manteve a cabea baixa. Ela precisava sair dali. Mas no conseguia achar Wilden, que teria que escolt-la at o carro, e no queria 
sair sozinha. Ento, ela viu o lavabo dos Hastings bem perto da cozinha. A porta estava ligeiramente aberta, e a luz apagada. Emily escapuliu l para dentro, mas, 
quando foi fechar a porta, algum estava no caminho.
        Isaac empurrou a porta, tentando entrar.
        - Ei! - Ele parecia bem irritado. - O que est acontecendo? 
        Emily deu um gritinho e correu para o canto do lavabo, seus braos apertados ao redor do peito. O lavabo era maior do que a maioria dos banheiros de sutes, 
com uma rea para sentar, um espelho ornamentado e uma parte separada para a privada. Apesar do cheiro forte e nauseante de vela de jasmim na pia, dava para sentir 
um leve cheiro de vmito.
        Isaac no a seguiu at o canto. Ficou perto da porta, sua postura muito ereta e em guarda.
        -Voc est se comportando como... uma louca - disse ele. 
        Emily se acomodou no div cor de pssego e cutucou um pequeno desfiado em sua meia-cala, nervosa demais para responder. Seus segredos latejavam, fazendo 
todo o seu corpo doer. 
        - Voc est com vergonha de ser vista comigo? - continuou Isaac. -  porque eu contei quela menina, Spencer, que meu pai era o dono do buf? Eu no deveria 
ter dito aquilo?
        Emily colocou as mos nos olhos. Ela no conseguia acreditar que Isaac achava que seu comportamento estranho fosse culpa dele. De novo. Um sentimento de 
medo lentamente se assentou ao redor de seus ombros como uma folha. Mesmo que ela conseguisse contornar esse desastre, haveria outro, e depois mais um. E finalmente, 
no final, ao fim de tudo aquilo, haveria A... Ian. E agora que Ian havia escapado, ele seria capaz de qualquer coisa. Que isso sirva de aviso, ele escreveu depois 
que Maya apareceu no restaurante chins. Ian tinha Emily exatamente onde queria.
        A no ser que ela fizesse as coisas direito dessa vez. 
        Emily olhou para Isaac, com a garganta apertada. Ela s tinha que acabar com isto rpido, como se puxasse um Band-Aid.
        -Voc se lembra daquela menina no China Rose? - disse ela, rapidamente. Isaac olhou para ela sem entender nada, encolhendo os ombros. Emily respirou fundo. 
- Ela e eu ramos... um casal.
        Todo o resto veio em seguida com a velocidade da luz. Ela falou sobre como havia beijado Ali em sua casa da rvore no stimo ano. E de como ela se apaixonara 
por Maya instantaneamente, intoxicada pelo seu chiclete de banana. Emily explicou os fatos sobre as mensagens de A, como ela sara com Toby Cavanaugh para provar 
para si mesma que gostava de meninos, como uma foto dela beijando Maya tinha passado por todo mundo na competio de natao e como a escola toda sabia. Ela contou 
a Isaac sobre Tree Tops, o programa para "recuperao" de gays que os pais dela foraram-na a frequentar, e que a verdadeira razo pela qual ela havia ido para Iowa 
era porque seus pais no conseguiam aceitar sua sexualidade. Ela tambm disse que conhecera uma menina chamada Trista em Iowa, e a beijara tambm.
        Quando acabou, ela olhou para Isaac. Ele estava verde e batia o p nervosamente, sem parar... Ou talvez estivesse bravo.
        Emily abaixou a cabea.
        - Entendo se voc no quiser mais falar comigo. No era minha inteno mago-lo. Eu s achei que voc iria me odiar se soubesse. Mas apesar de no ter contado 
isso tudo antes, tudo o que falei que sentia por voc, que queria que voc fosse meu namorado, que realmente gosto muito de voc, todas estas coisas...  tudo verdade. 
Achei que no fosse possvel para mim, gostar de um rapaz, mas parece que , sim.
        O pequeno lavabo estava em silncio. Mesmo a festa parecia ter ficado mais quieta. Isaac passou as mos pela ponta de sua gravata.
        - Ento, isso que dizer que voc ... bi? Ou o qu? 
        Emily cravou as unhas nas almofadas fofas de seda que estavam sobre o div. Seria to mais fcil se ela apenas dissesse que era htero, e que as coisas que 
tinham acontecido com Maya, Ali e Trista tinham sido s uma grande confuso... Mas ela sabia que no era verdade.
        - Eu no sei o que eu sou - respondeu Emily, baixinho. - Gostaria de saber, mas no sei. Talvez eu apenas goste de... pessoas. Talvez seja a pessoa, no 
necessariamente o gnero.
        Isaac baixou os olhos. Ele deu um pequeno suspiro. Quando Emily o ouviu virar, sentiu seu peito carregado de desespero. Em segundos, Isaac viraria a maaneta 
e sairia pela porta. Para sempre. Emily visualizou a me de Isaac parada na porta, louca para saber como o encontro de conto de fadas tinha sido. Seu rosto iria 
se desmanchar quando Isaac contasse a verdade. Emily  o qu?, ela perguntaria, chocada.
        - Ei! - Uma respirao quente fez ccegas no topo de sua cabea. Isaac surgiu acima dela, com uma expresso que no dava para adivinhar. Sem dizer uma palavra, 
ele passou o brao ao redor dela.
        - Tudo bem.
        - O-o qu? - engasgou Emily.
        - Tudo bem - repetiu ele, baixinho. - Eu aceito isso. Eu aceito voc.
        Emily piscou sem acreditar.
        -Voc... aceita?
        Isaac balanou a cabea.
        -  Pra falar a verdade?  meio que um alivio. Achei que voc estivesse agindo feito louca por minha causa. Ou porque j tivesse um namorado.
        Lgrimas de gratido desceram pelo rosto de Emily.
        - No tinha muita chance de ser isso - desabafou ela. 
        Isaac fungou.
        - Acho que no, no ? - Ele abraou Emily, beijando sua cabea. Enquanto estavam se abraando, Lanie Iler, uma das colegas do time de natao de Emily, 
enfiou a cabea no banheiro, pensando que estava desocupado.
        - Opa! - disse ela. Quando Lanie viu Emily no banheiro, abraando um cara, seus olhos quase saltaram para fora das rbitas. Mas Emily no se importava mais. 
Deixe que nos vejam, ela pensou. Deixe que Lanie volte para o salo e conte a todos. Seus dias de esconder coisas estavam oficialmente acabados.
26
SPENCER ENCONTRA ALGUM
A campainha da casa dos Hastings tocou pela ensima vez e, do cantinho onde estava escondida, Spencer observou enquanto seus pais recepcionavam os Pembroke, uma 
das famlias mais antigas da regio. O sr. e a sra. Pembroke eram famosos por sempre carregarem seus bichos de estimao com eles, e parecia que tinham trazido dois 
deles esta noite: Mimsy, um lulu da pomernia de latido estridente e a estola em volta do pescoo de Hester Pembroke, que ainda tinha a cabea da raposa pendurada 
nela. Enquanto o casal se dirigia animadamente at o bar, a me de Spencer cochichou alguma coisa para Melissa e depois saiu. Melissa viu que Spencer os observava. 
Com a mo tremendo, ela alisou seu vestido vermelho-escuro de cetim, para depois baixar os olhos e se afastar. Spencer no tivera a oportunidade de perguntar a Melissa 
como ela se sentia com o desaparecimento de Ian - Melissa passara o dia todo escapando da irm. 
        Spencer ainda no tinha entendido por que eles ainda estavam dando aquela festa beneficente, embora todos parecessem estar se divertindo. Pelo jeito, beber 
bastante era a salvao para os escndalos de Rosewood. Wilden j tivera que escoltar os pais de Mason Byers at o Bentley deles porque Binky Byers tinha bebido 
mais que a cota dela de Metropolitans. Spencer havia encontrado com Olivia Zeigler, me de Naomi, vomitando no lavabo, seus braos bronzeados abraando os lados 
da pia. Se vodca pudesse amortecer Spencer tambm... Mas no importava quantos Lemon Drops ela entornasse, permanecia com a viso clara e lcida. Era como se alguma 
fora crmica a estivesse punindo, fazendo com que sofresse sbria todo aquele suplcio.
        Ela havia feito uma besteira horrvel, guardando o segredo sobre Ian. Mas como poderia saber que Ian planejava escapar? Ela pensou no sonho que teve no dia 
anterior - era quase tarde demais. Bem, agora era mesmo tarde demais.
        Prometera s amigas que contaria  polcia sobre a visita de Ian, mas assim que Wilden apareceu no degrau da porta, pronto para fazer a segurana da festa, 
Spencer apenas... no conseguira. Ela no poderia suportar ouvir mais uma pessoa lhe passando sermo sobre como ela estragara tudo outra vez. Que bem faria contar 
isto ao Wilden? No era como se Ian tivesse avisado Spencer onde ele planejava se esconder. A nica pista interessante que Ian tinha dado era que ele estava prestes 
a descobrir um segredo que iria deix-la tonta.
        - Spencer, querida - chamou uma voz  sua direita. Era a sra. Kahn, esqulida em seu vestido verde-esmeralda de lantejoulas.
        Spencer a ouvira contar aos fotgrafos das colunas sociais que era um Balenciaga vintage. Tudo brilhava na sra. Kahn, suas orelhas, seu pescoo, seu pulso, 
at seus dedos. Era de conhecimento geral que ano anterior, quando o pai de Noel viajara para Los Angeles para financiar mais um campo de golfe, ele tinha comprado 
metade da Harry Winston para a esposa. Os valores haviam sido divulgados em um blog de fofocas.
        - Voc sabe se ainda tem daqueles deliciosos petit fours? - perguntou a sra. Kahn. - Por que diabos no nos permitirmos uns docinhos, certo? - Ela acariciou 
sua barriga plana e deu de ombros, como se dissesse, h um assassino a solta, ento vamos comer bolo.
        - H... - Spencer viu seus pais do outro lado da sala, perto do quarteto de cordas. -Volto num minutinho, sra. Kahn.
        Ela abriu caminho pela multido, esquivando-se dos convidados at que estivesse a alguns centmetros dos pais. Seu pai usava um terno Armani escuro, mas 
sua me usava um vestido preto curto, acinturado e com mangas de morcego. Talvez estivesse em todas as passarelas de Milo, mas, na opinio de Spencer, parecia algo 
que a mulher do Drcula usaria para fazer faxina.
        Ela deu um tapinha no ombro da me. A sra. Hastings se virou com um enorme sorriso ensaiado, mas quando viu que era Spencer, fechou o rosto.
        - Hum, estamos ficando sem petit fours - relatou Spencer como se fosse seu dever. - Devo ir verificar na cozinha? Notei que o bar est sem champanhe tambm.
        A sra. Hastings passou a mo na sobrancelha, obviamente chateada.
        - Eu mesma farei isso.
        -  No tem problema - ofereceu Spencer -, eu posso ir at l e...
        - Eu resolvo isso - sussurrou a me com a voz gelada, cuspindo ao falar. Suas sobrancelhas arquearam para baixo e as pequenas linhas em volta de sua boca 
se destacaram. -Voc poderia, por favor, ir para a biblioteca, junto com os outros garotos?
        Spencer deu um passo para trs, seu salto girando sobre o piso de madeira superencerado. Parecia que a me acabara de lhe dar um tapa.
        - Eu sei que voc est feliz por eu ter sido deserdada - disse Spencer bem alto, antes de se dar conta do que estava fazendo. - Mas voc no tem que deixar 
isto to bvio.
        Sua me parou, boquiaberta pelo choque. Algum perto deles engasgou. A sra. Hastings olhou para o sr. Hastings, que estava to plido quanto a casca de um 
ovo.
        - Spencer... - ralhou o pai.
        - Deixa para l - rosnou Spencer, dando as costas para eles, e saiu em direo aos fundos, na direo da sala de televiso. Lgrimas de frustrao queimavam 
em seus olhos. Deveria ter sido delicioso dizer exatamente o que seus pais mereciam ouvir, mas Spencer se sentiu do mesmo jeito que se sentia quando seus pais a 
desprezavam, como uma rvore de Natal depois do ano-novo, jogada na calada para o caminho de lixo levar embora. Spencer costumava implorar aos pais que resgatassem 
todas as rvores de Natal para plant-las no quintal, mas eles sempre diziam que ela estava sendo tola.
        - Spencer? - Andrew Campbell se materializou ali, com uma taa de vinho na mo. As costas de Spencer foram varridas por arrepios pequeninos que danavam 
para cima e para baixo. O dia todo ela se perguntou se deveria mandar uma mensagem para Andrew perguntando se ele viria de noite.
        Andrew percebeu o rosto vermelho de Spencer e suas sobrancelhas se juntaram.
        - Qual  o problema?
        O queixo de Spencer tremeu quando ela olhou para trs em direo ao salo de baile principal. Seus pais tinham sado de seu campo de viso. Ela no conseguia 
achar Melissa.
        - Minha famlia toda me odeia - desabafou Spencer.
        - No, no diga isso - disse Andrew, pegando seu brao. Ele a levou para a sala de televiso e apontou para o sof. - Sente-se. Respire.
        Spencer desabou. Andrew sentou tambm. Ela no entrava nesta sala desde tera-feira  tarde, quando ela e suas amigas assistiram  audincia de pedido de 
fiana de Ian na televiso. No canto direito da tela havia uma fileira de fotos da escola de Spencer e Melissa, desde seu primeiro ano no jardim da infncia de Rosewood 
Day at o retrato formal da formatura de Melissa. Spencer encarou sua foto do primeiro ano. Tinha sido tirada pouco antes de as aulas comearem, antes da confuso 
envolvendo Ali e A comear. Seu cabelo estava lindamente penteado sem cair no rosto e seu blazer azul-escuro estava passado  perfeio. O sorriso de autossatisfao 
em seu rosto dizia: SOU Spencer Hastings e eu sou o mximo.
        R, pensou Spencer com amargura. Como as coisas podiam mudar rapidamente.
        Perto das fotos de escola ficava a grande Torre Eiffel. A velha foto que haviam encontrado outro dia, aquela de Ali no dia em que a Cpsula do Tempo foi 
anunciada, ainda estava apoiada nela. Spencer espremeu os olhos para ver Ali. O folheto da Cpsula do Tempo pendia dos dedos de Ali e sua boca estava to aberta 
que Spencer podia ver seus pequenos molares, brancos e quadrados. Em que momento esta foto tinha sido tirada? Ali teria acabado de anunciar que Jason iria contar 
a ela onde um dos pedaos da bandeira estava? Spencer, naquele momento, j havia tido a ideia de roubar o pedao da bandeira de Ali? Ian j teria abordado Ali e 
ameaado mat-la? Os grandes olhos azuis de Ali pareciam encarar Spencer diretamente, e Spencer quase podia ouvir a voz clara, aguda da amiga. Buuuuu, provocaria 
Ali se ainda estivesse viva. Seus pais odeiam voc!
        Spencer deu de ombros e se virou. Era estranho ter Ali naquela sala, olhando para ela.
        - O que est acontecendo? - perguntou Andrew, mordendo o lbio inferior de preocupao. - O que seus pais fizeram para voc?
        Spencer brincou com a franja na barra de seu vestido.
        - Eles nem olham para mim - disse ela, entorpecida. -  como se eu estivesse morta para eles.
        - Tenho certeza de que no  verdade - disse Andrew. Ele deu um gole de seu vinho e depois colocou a taa sobre a mesa. - Como seus pais podem odiar voc? 
Tenho certeza de que eles tm muito orgulho de voc.
        Spencer rapidamente colocou um apoio debaixo da taa, sem se importar se ia parecer compulsiva.
        - Eles no tm. Eu os deixo envergonhados, sou uma decorao fora de moda. Como um dos quadros a leo de minha me que esto no poro. S isso.
        Andrew ergueu a cabea.
        -Voc est falando do... do problema do Orqudea Dourada? Quer dizer, talvez seus pais estejam chateados com isso, mas tenho certeza de que esto chateados 
por voc.
        Spencer segurou um soluo e algo duro e afiado pressionou seu peito.
        - Eles sabiam que eu tinha plagiado o artigo para o Orqudea Dourada - explodiu ela, antes que pudesse se controlar. - Mas eles mandaram que eu no dissesse 
nada. Teria sido muito melhor ter mentido, recebido o prmio e vivido com a culpa para o resto da vida. Eu os fiz parecem idiotas.
        O sof de couro rangeu quando Andrew afundou nele, horrorizado. Ele encarou Spencer por cinco longas rotaes do ventilador de teto.
        -Voc est brincando.
        Spencer balanou a cabea. Parecia uma traio dizer aquilo em voz alta. Seus pais no haviam dito a ela especificamente para no contar a ningum que eles 
sabiam da confuso do prmio Orqudea Dourada, mas ela estava certa de que eles tinham certeza de que ela jamais faria isso.
        - E foi voc quem tomou a iniciativa de confessar que plagiou o artigo, mesmo depois de seus pais mandarem voc no dizer nada? - perguntou Andrew. Spencer 
assentiu. - Nossa. -Andrew passou a mo pelos cabelos. -Voc fez a coisa certa, Spencer. Espero que saiba disso.
        Spencer comeou a chorar - como se algum tivesse acabado de abrir uma torneira dentro de sua cabea.
        - Eu estava to estressada naquela poca - balbuciou ela. - No entendia nada de economia. Achei que no faria diferena pegar aquele pequeno artigo de Melissa. 
Achei que ningum saberia. S queria tirar uma nota boa. - A garganta dela travou e ela escondeu o rosto nas mos.
        - Tudo bem. - Andrew deu tapinhas hesitantes nas costas de Spencer. - Eu entendo o que voc passou.
        Mas Spencer no conseguia parar de soluar. Ela se inclinou, as lgrimas entrando em seu nariz, seus olhos inchados, sua garganta fechando e o peito pesando. 
Tudo parecia to desesperador. Sua vida acadmica estava destruda. Era sua culpa que o assassino de Ali tivesse escapado. Sua famlia a tinha repudiado. Ian estava 
certo - ela realmente tinha uma vidinha ridcula.
        - Shhhhh - sussurrou Andrew fazendo pequenos crculos em suas costas. -Voc no fez nada errado. Est tudo bem.
        De repente, um barulho veio de dentro da bolsa de mo prateada de Spencer, que estava apoiada na mesinha de centro. Spencer levantou a cabea. Era seu telefone.
        Ela piscou atravs das lgrimas. Ian?
        Seus olhos se voltaram para a janela. Havia um nico holofote amarelo no quintal, iluminando a grande varanda. Para alm da varanda, tudo estava escuro. 
Ela se esforou para ouvir se havia algum andando em volta dos arbustos perto da janela, mas no havia nada. O telefone tocou de novo. Andrew tirou a mo de suas 
costas.
        -Voc vai ver quem est ligando?
        Spencer passou a lngua pelos lbios, pensando a respeito. Pegou sua bolsa lentamente. Suas mos tremiam tanto que ela mal conseguia abrir o fecho de metal.
        Ela no recebera uma mensagem nova, e sim um novo e-mail. O nome do remetente apareceu. Eu amo vc. E em seguida, na linha do assunto: Voc pode ter encontrado 
algum!
        - Ai meu Deus. - Spencer enfiou seu Sidekick debaixo do nariz de Andrew. No caos da semana passada, ela quase se esqueceu do website. - Olhe!
        Andrew inspirou profundamente. Eles abriram o e-mail e deram uma olhada na mensagem. Estamos felizes por informar a voc que algum em nosso banco de dados 
se encaixa na sua informao pessoal de aniversrio, dizia a mensagem. Estamos entrando em contato com a pessoa agora, que dever entrar em contato com voc dentro 
de alguns dias. Obrigado, do Pessoal da Eu amo vc.
        Spencer foi descendo pela mensagem de modo frentico, passando os olhos pelo texto, mas no dava muitas informaes. O Eu amo vc no havia revelado o nome 
da mulher, o que ela fazia ou onde morava.
        Spencer deixou seu Sidekick cair no colo, a cabea girando.
        - Ento...  para valer? 
        Andrew segurou suas mos.
        - Talvez.
        Spencer sorriu gradualmente, lgrimas ainda escorriam pelo seu rosto.
        - Ai meu Deus - gritou ela. - Ai meu Deus! - Ela jogou os braos ao redor de Andrew e lhe deu um enorme abrao. - Obrigada!
        - Por qu? - Andrew parecia desconcertado.
        - Eu no sei! - respondeu Spencer, zonza. - Por tudo!
        Eles se afastaram, sorrindo um para o outro. E ento, devagar e com cuidado, a mo de Andrew desceu e circundou seu pulso. Spencer ficou paralisada. Os rudos 
da festa ali ao lado desapareceram e tudo na sala pareceu confortvel e aconchegante. Alguns segundos longos e lentos se passaram, marcados apenas pelos pontos que 
piscavam no relgio digital do aparelho de DVD.
        Andrew se inclinou para a frente e encostou seus lbios nos dela. Sua boca tinha gosto de Altoids de canela e era macia. Tudo parecia... certo. Ele a beijou 
profundamente, devagar, trazendo-a para perto dele. Onde diabos Andrew Campbell tinha aprendido a beijar assim?
        A coisa toda levou cinco segundos no mximo. Quando Andrew se afastou, Spencer estava chocada demais para falar. Ela se perguntou se tinha o gosto salgado 
das lgrimas. E seu rosto provavelmente estava horroroso, todo inchado e vermelho de tanto chorar.
        - Desculpe - disse Andrew em seguida, plido. - Eu no devia ter feito isto.Voc est to bonita esta noite e eu estou to atrado por voc, e...
        Spencer piscou, esperando que o sangue voltasse logo para sua cabea.
        - No se desculpe - disse ela, finalmente. - Mas... mas eu no mereo isto. - Ela deu uma fungada alta. - Fui to estpida com voc. Como... no baile beneficente. 
E em todas as aulas em que estivemos juntos. Eu fui uma chata, todo o tempo. -Ela sacudiu a cabea, uma lgrima descendo pela bochecha. -Voc deveria me odiar.
        Andrew enroscou o dedinho ao redor do dela.
        - Eu estava bravo com voc por causa daquele baile, mas  s porque eu gostava de voc. E todo o resto... ns s estvamos sendo competitivos. - Ele cutucou 
o joelho de Spencer. - Eu gosto que voc seja competitiva... e determinada... e inteligente. Eu no iria querer que voc mudasse nada disso.
        Spencer comeou a rir, mas sua boca se contorceu em um monte de soluos. Por que ela estava chorando quando algum estava sendo to gentil com ela? Ela olhou 
para seu telefone de novo e bateu na tela.
        -  Ento voc gosta de mim ainda que eu no seja uma Hastings de verdade?
        Andrew fungou.
        - Eu no ligo para o seu sobrenome. Alm disso, at Coco Chanel veio do nada. Ela era rf. E olhe o que aconteceu com ela.
        Um lado da boca de Spencer se curvou em um sorriso.
        - Mentiroso. - Como Andrew, rato de biblioteca, iria saber algo do mundo da alta-costura?
        -  verdade! - Andrew fez que sim com a cabea. - Pode procurar!
        Spencer se deliciou com o rosto magro e anguloso de Andrew, no jeito que seu cabelo compridinho e cor de trigo encaracolava de maneira fofa sobre suas orelhas. 
Todo este tempo, Andrew estivera bem na frente dela, sentado perto dela nas aulas, oferecendo-se para terminar problemas de matemtica no quadro antes dela, fazendo 
campanha contra ela para representante da turma e lder estudantil da ONU e ela nunca notara como ele era bonito. Spencer se derreteu nos braos dele outra vez, 
desejando que eles pudessem ficar daquele jeito a noite toda.
        Assim que ela acomodou seu queixo no ombro de Andrew, seus olhos pousaram na foto de Ali encostada na esttua da Torre Eiffel. De repente, a foto parecia 
completamente diferente. Embora a boca de Ali ainda estivesse aberta em um sorriso parcial, havia um olhar preocupado, urgente, por trs daqueles olhos. Era quase 
como se ela estivesse gritando para o fotgrafo, tentando passar uma mensagem sem falar. Ajude-me, uma luz em seus olhos dizia. Por favor.
        Spencer pensou em seu sonho com Ali de novo. Ela estava parada bem perto de Ali l mesmo no bicicletrio. A Ali mais jovem havia se virado para ela, esta 
mesma expresso frgil no rosto. As duas Alis queriam que Spencer desvendasse algo. Talvez algo que estivesse muito prximo.
        Voc no deveria ter jogado fora, Spencer, repetiam as duas. Tudo de que voc precisava estava l. Todas as respostas. Cabe a voc resolver, Spencer. Voc 
tem que resolver isso.
        Mas o que ela havia jogado fora recentemente? Como ela poderia resolver isso?
        De repente, Spencer se afastou de Andrew.
        - O saco de lixo.
        - O qu...? -Andrew parecia desorientado.
        Spencer olhou pela janela dos fundos. No sbado passado, a terapeuta do luto havia feito com que todas elas enterrassem coisas que lembravam Ali - elas haviam 
essencialmente jogado fora uma poro de coisas. Era isso que as duas Alis em seus sonhos queriam dizer? Poderia haver algo ali que resolveria tudo?
        - Ai meu Deus! - sussurrou Spencer, nervosa, se levantando.
        -  O que foi? - perguntou Andrew de novo, levantando tambm. - O que foi?
        Spencer olhou para Andrew, depois pela janela que mostrava o celeiro, perto de onde elas tinham enterrado o saco de lixo. Era um tiro no escuro, mas ela 
precisava ter certeza.
        - Pea ao policial Wilden para me procurar se eu no voltar em dez minutos - disse ela, com pressa enquanto saa correndo da sala, deixando um Andrew bastante 
embasbacado para trs.
27
HANNA MARIN, ABELHA RAINHA
Quando Hanna e Lucas chegaram  casa dos Hastings, a grande sala de estar estava lotada de gente. O quarteto de cordas j havia feito sua apresentao e uma banda
de jazz estava se acomodando. Garonetes ofereciam aperitivos e barmen enchiam copos de usque, gim tnica e grandes taas de vinho tinto. Hanna conseguia sentir 
o cheiro de lcool no hlito de quase todo mundo. Provavelmente todos estavam horrorizados com toda essa histria de Ian. Antes de Ali desaparecer, o maior crime 
que qualquer um em Rosewood tinha visto fora algum vizinho ser auditado pela Receita Federal.
        Lucas tirou a capa da lente de sua cmera Olympus SLR - ele estava cobrindo o evento para o jornal de Rosewood Day.
        -Voc quer que eu pegue uma bebida para voc?
        - Ainda no - disse Hanna, pensando nas calorias vazias do lcool. Nervosa, ela alisou o vestido Catherine Malandrino vermelho-batom de chiffon e seda. Na 
semana passada, a faixa de seda em volta da cintura caa perfeitamente, mas agora estava um pouquinho justa. Ela havia passado o dia recolhida, tentando ignorar 
as ligaes e as mensagens de Kate, Naomi e Riley. Finalmente, Hanna respondeu, dizendo que estava chateada demais com o fato de Ian ter conseguido escapar da cidade 
para comear sua prpria festinha.
        - Oh, crianas, ol. - A sra. Hastings foi at eles, parecendo irritada porque eles estavam zanzando por ali. - Os jovens esto na biblioteca. Por aqui.
        Ela os guiou at a biblioteca, como se eles fossem alguma espcie de lixo pestilento que tivesse de ser escondido no fundo de um armrio. Hanna lanou um 
olhar angustiado para Lucas. Ela no estava pronta para encarar Kate.
        - Voc no precisa tirar fotos dos adultos? - perguntou, desesperada.
        - Ns temos um fotgrafo profissional para fazer isso durante a festa - respondeu a sra. Hastings. -Voc tire fotos apenas de seus amigos.
        Assim que a sra. Hastings abriu as portas duplas da biblioteca, algum gritou.
        - Essa no!
        Houve sussurros e um frenesi de movimentao, e ento a sala inteira olhou para a me de Spencer com um sorriso do tipo Eu no estou bebendo nada no rosto. 
Uma menina da escola Quaker saiu rapidinho do colo de Noel Kahn. Mike Montgomery tentou esconder sua taa de vinho atrs das costas. Sean Ackard - que provavelmente 
no estava bebendo - conversava com Gemma Curran. Kate, Naomi e Riley estavam num grupinho no canto. Kate estava usando um vestido branco tomara que caia; Naomi 
usava um vestido frente nica multicolorido na altura do joelho; e Riley usava um vestido Foley + Corinna que Hanna havia escolhido para ela na Vogue Teen.
        A sra. Hastings fechou a porta e todos pegaram de volta suas garrafas, taas de vinho e champanhe. Kate, Naomi e Riley ainda no tinham visto Hanna, mas 
em segundos, veriam.
        Est quase na hora!, Kate tagarelara. Mal posso esperar!
        Lucas notou Kate e as outras do outro lado da sala.
        - No deveramos ir at l dizer oi?
        A cabea de Kate agora estava inclinada em direo ao ouvido de Naomi. Ento, as duas comearam a rir de maneira estridente. Hanna fez um esforo para no 
se mover.
        -Voc no vai falar com elas? - perguntou Lucas.
        Hanna encarou seus sapatos Dior com tiras.
        - Mudei de ideia em relao a Kate. -As sobrancelhas de Lucas subiram tanto que praticamente encostaram no cabelo dele. - No acho que ela seja o que parece 
- completou Hanna.
        Ela podia sentir o olhar de Lucas sobre ela, esperando uma explicao.
        - Ela tentou destruir meu relacionamento com meu pai no outono passado - sussurrou ela, empurrando-o para o canto mais distante. - Essa coisa toda de vamos 
ser amigas... Acho que entrei nessa rpido demais. Foi tudo muito fcil. Eu fui inimiga de Naomi e Riley por anos e de repente  tudo perfeito entre ns, s porque 
a Kate est aqui? - Ela balanou a cabea com fora. - Ah no. No  assim que as coisas funcionam.
        Lucas apertou os olhos.
        - No  assim que quais coisas funcionam?
        - Eu acho que Kate est armando alguma coisa - explicou Hanna, rangendo os dentes quando Noel Kahn gritou para James Freed para mandar o resto de uma garrafa 
de vodca. - E eu acho que ela, Naomi, e Riley esto se unindo para me destruir de uma vez por todas. Mas tenho que descobrir um modo de desafiar Kate, antes. Tenho 
que descobrir um jeito de peg-la antes que ela me pegue.
        Lucas a encarou. A banda de jazz na sala de estar j estava bem adiantada na msica seguinte quando ele falou de novo.
        -  Isto  por causa de Mona, certo? - A voz de Lucas se abrandou. - Entendo que voc pense que todas as pessoas das quais ficar amiga depois dela vo mago-la. 
Mas no vo, Hanna. Ningum quer machucar voc. Verdade.
        Hanna se segurou para no bater o p. Como ele ousava ser condescendente! Ela andava pensando em contar para ele sobre o talvez-no-to-falso-A tambm - 
mas desistira. Ele seria condescendente com isso tambm.
        - Isto no  uma coisinha paranoica da minha cabea - disse ela, irritada. - No tem nada a ver com Mona e tudo a ver com Kate. O que voc no entende?
        Lucas piscou rpido. Um sentimento de desapontamento se abateu sobre Hanna. Ele no entendia porque aquele no era o mundo dele. De repente, Hanna percebeu 
como ela e Lucas eram diferentes. Ela suspirou.
        - Estamos falando de popularidade, Lucas - disse ela, como se ele fosse um bobo. -  tudo muito... calculado. No  algo que voc entenderia.
        Lucas arregalou os olhos. Ele encostou-se s portas duplas.
        - Eu no entenderia porque no sou popular, certo? Bem, Hanna, desculpe. Desculpe por no ser descolado o suficiente para voc. - Ele fez um gesto de desistncia 
e se afastou dela, indo na direo da janela. Um sabor amargo e ranoso encheu a boca de Hanna. Ela s tinha piorado as coisas.
        O brao fino de Kate se esticou pela multido.
        - Aimeudeus, Hanna! Voc est aqui!
        Hanna virou a cabea. Naomi e Riley tambm acenavam para ela com enormes sorrisos. Seria ridculo se ela apenas se virasse e sasse andando, depois de obviamente 
t-las visto. Pelo menos ela estava usando seu prprio vestido esta noite, e no uma coisa com as costuras arrebentando como o que Mona tinha mandado para ela.
        Tentando parecer corajosa, ela andou devagar at as outras. Naomi foi para o lado, para dar espao para Hanna no grande sof de couro.
        - Por onde voc andou? - perguntou ela, dando um abrao apertado em Hanna.
        Do outro lado da sala, Lucas a observava. Ela desviou o olhar.
        - Eu estava preocupada com voc - disse Kate, seus olhos solenes e srios. - Toda esta coisa do Ian  muito assustadora. Realmente no a culpo por ter sumido.
        - Bem, estamos felizes que voc esteja aqui agora - disse Naomi.
        - Voc perdeu uma pr-festa incrvel - ela se debruou e cochichou no ouvido de Hanna. - Eric Kahn e Mason Byers foram. Os dois esto super a fim de Kate.
        Hanna lambeu os lbios, dando de ombros, sem realmente querer entrar na conversa. Mas agora Kate estava arrumando a barra do vestido de Hanna.
        - Naomi me levou para a melhor butique ontem, a Otter, e foi onde eu consegui isto. - Ela exibiu o pingente brilhante de cristal Swarovski que estava em 
seu pescoo. - Queramos que voc tivesse ido tambm, mas voc no atendeu ao telefone. - Ela fez um beicinho. - Mas ns vamos na prxima semana, certo? Eles tm 
estes jeans superescuros da Willian Rast l, eles ficariam to lindos em voc.
        - Ah - murmurou Hanna. - Claro. - Ela apanhou uma garrafa de vinho que estava enfiada atrs de uma das cadeiras. Infelizmente estava vazia.
        -Aqui, pegue o resto da minha taa - disse Kate bem rpido, entregando sua taa meio cheia. - Eu estou tonta por causa da pr-festa de qualquer modo.
        Hanna olhou meio zonza para a taa de Kate, o vinho tinto escuro lembrava sangue. Vai funcionar, Kate tinha sussurrado. Est quase na hora! Mal posso esperar! 
Ento o que diabos era toda essa gentileza? Seria possvel que Hanna tivesse cometido um erro?
        E ento a ficha caiu.  claro. Kate estava fingindo ser sua amiga. Hanna se sentiu boba por no perceber antes.
        As regras para fingir amizade eram muito simples. Se Hanna queria muito se vingar de algum por algo que tinha sido feito a Mona, ela agia como se ela e 
Mona estivessem brigadas. Depois, se infiltrava no outro grupo e ganhava tempo at que pudesse apunhalar a menina pelas costas. Talvez Mona tivesse contado a Kate 
sobre como fingir amizade quando ela se tornou A.
        Eric Kahn passou e se sentou em uma enorme almofada Paisley que estava no cho perto do sof. Ele era mais alto e mais desengonado que Noel, mas tinha os 
mesmos olhos castanhos e o sorriso que mostrava todos os dentes.
        -  Oi, Hanna - disse ele. - Onde voc estava escondendo esta sua linda meia-irm?
        - Deste jeito fica parecendo que ela me escondeu em algum armrio! - Kate gargalhou, os olhos brilhando.
        - E voc fez isso, Hanna? - perguntou Eric a Hanna, o que fez Kate gargalhar ainda mais.
        Noel e Mason sentaram tambm, e Mike Montgomery e sua namorada vieram para perto de Riley e Naomi. Havia tantas pessoas em volta deles que Hanna no conseguiria 
levantar mesmo que tentasse. Ela procurou Lucas pela sala, mas ele havia sumido.
        Eric se debruou, tocando o pulso de Kate.
        - Ento, h quanto tempo vocs duas se conhecem? 
        Kate olhou para Hanna, pensando.
        - Acho que... h quatro anos, no ? Ns estvamos no stimo ano. Mas ns no nos falamos por muito tempo. Hanna s foi para minha casa em Annapolis uma 
vez. Acho que ela era descolada demais para andar comigo. E ela levou Alison DiLaurentis. Lembra daquele almoo enorme que tivemos, Hanna?
        Kate deu um enorme sorriso idiota, com o segredo de Hanna provavelmente na ponta da lngua. Hanna sentiu como se estivesse em uma montanha-russa indo devagarzinho 
para o topo. A qualquer minuto iria despencar ladeira abaixo para o outro lado e ela iria perder seu estmago... e sua reputao.
        Fingir amizade  simples, Mona provavelmente disse a Kate, como se ela j soubesse que, um dia, Kate e Hanna seriam foradas a viver sob o mesmo teto.  
s saber um segredinho de Hanna.  tudo que  necessrio para arruin-la de uma vez por todas.
        Ela pensou sobre a mensagem de A tambm. Acabe com ela antes que ela acabe com voc.
        - Vocs sabiam que Kate tem herpes? - disparou Hanna. Nem parecia sua voz, e sim a voz de algum muito mais m.
        Todos olharam para cima ao mesmo tempo. Mike Montgomery cuspiu vinho no carpete. Eric Kahn rapidamente soltou a mo de Kate.
        - Ela me contou no comeo da semana - continuou Hanna, um sentimento obscuro, txico se alastrando por seu corpo. -Um cara passou para ela em Annapolis.Voc 
provavelmente deveria saber, Eric, antes de tentar arrancar as calcinhas dela.
        - Hanna - sussurrou Kate desesperada. Seu rosto tinha ficado to branco quando seu vestido. - O que voc est fazendo?
        Hanna sorriu satisfeita. Voc ia fazer a mesma coisa comigo, vadia. Noel Kahn tomou outro grande gole de vinho, tremendo. Naomi e Riley olharam uma para 
a outra, desconcertadas, e se levantaram.
        -  Isto  verdade? - Mike Montgomery enrugou o nariz. - Eca.
        - No  verdade - esganiou Kate, olhando em volta para todos. -Juro, pessoal, Hanna inventou isto!
        Mas o estrago j estava feito.
        - Eca - algum sussurrou atrs deles.
        - Valtrex - disse James Freed, fingindo que tossia.
        Kate se levantou. Todos deram um passo para se afastar dela, como se o vrus da herpes fosse pular de seu corpo para dentro do deles. Kate lanou um olhar 
apavorado para Hanna.
        - Por que voc fez isso?
        - Est quase na hora - recitou Hanna em uma voz montona. - Mal posso esperar.
        Kate ficou sem entender, confusa. Ento ela deu uns passos para trs, cambaleando at a porta da biblioteca. Quando saiu batendo a porta, os cristais do 
lustre fizeram um barulho meldico.
        Algum aumentou o som.
        - Nossa - murmurou Naomi para Hanna. - No  de se estranhar que voc no quisesse ficar com ela estes ltimos dias. 
        - Ento, quem  o cara que passou isto para ela? - sussurrou Riley na mesma hora ao lado de Naomi.
        - Eu sabia que tinha algo podre nela - desdenhou Naomi. 
        Hanna tirou um cacho de cabelos do rosto. Ela esperava se sentir incrvel e poderosa, mas, em vez disso, se sentia uma porcaria. Alguma coisa no que tinha 
acabado de acontecer parecia um pouco... errada. Ela colocou a taa de vinho de Kate no cho e foi em direo  porta, querendo apenas sair dali. S que algum estava 
bloqueando o caminho. Lucas olhou ameaadoramente para ela, seus lbios pequenos e apertados.
        Era bvio que ele tinha visto tudo o que acontecera.
        - H... - disse Hanna com uma voz humilde. - Oi. 
        Lucas cruzou os braos sobre o peito. Ele tinha um olhar amargo.
        - Muito bem, Hanna. Acho que voc a pegou antes que ela pegasse voc, no ?
        -Voc no entende - reclamou Hanna. Ela deu um passo na direo dele para colocar o brao em volta de seus ombros, mas Lucas ergueu a mo para det-la.
        - Eu entendo perfeitamente - disse ele, distante. - E acho que gostava mais de voc quando no era popular. Quando voc era apenas... normal.- Ele pendurou 
sua cmera em volta do pescoo e foi em direo  porta.
        - Lucas, espere! - gritou Hanna, aturdida.
        Lucas parou no meio do enorme tapete oriental. Havia alguns pelos de cachorro em seu blazer escuro - provavelmente ele havia abraado seu so bernardo, Clarissa, 
depois de se vestir. De repente, Hanna o adorou por no tentar parecer perfeito. Ela o amava por no se importar com popularidade. Ela o amava por todas as coisas 
tolas que ele fazia.
        - Desculpe. - Os olhos de Hanna se encheram de lgrimas, sem se importar que todos estivessem olhando.
        O rosto de Lucas estava impassvel.
        - Acabou, Hanna. - Ele virou a maaneta da porta que levava ao vestbulo.
        - Lucas! - implorou Hanna, seu corao disparado. 
        Mas ele havia ido embora.
28
TUDO BEM, CHEGA DE 
ARTISTAS ESQUISITOS
Naquele mesmo momento, Aria parou em frente a um quadro pintado a leo do tatara-tatarav de Spencer, Duncan Hastings, um homem refinado, que parecia um tanto desconfortvel 
enquanto segurava no colo um beagle de orelhas cadas e olhar triste. Duncan tinha o mesmo nariz de curva acentuada que Spencer, e parecia estar usando anis femininos 
nos dedos. Gente rica era to esquisita.
        Aria sabia que deveria estar na biblioteca com seus colegas - a sra. Hastings s faltara enfi-la ali quando ela chegou. Mas o que ela teria a dizer para 
um bando de Tpicas Garotas de Rosewood supercertinhas, usando vestidos de costureiros famosos e joias Cartier que tinham roubado das mes? Ela realmente iria querer 
que elas julgassem o longo vestido preto de seda, frente nica, que estava usando? E ela realmente iria querer encarar Noel bbado e todos aqueles seus amiguinhos? 
Ela preferia ficar ali com o velho e mal-humorado Duncan, tomando um porre de gim de primeira.
        Aria no tinha certeza da razo pela qual tinha ido  festa beneficente. Spencer havia implorado que elas fossem, assim poderiam dar apoio moral umas s 
outras, agora que Ian estava  solta, mas Aria no tinha visto Spencer ou nenhuma das antigas amigas desde que chegara, vinte minutos antes. E ela realmente no 
queria discutir o misterioso e assustador desaparecimento de Ian com ningum, como os outros convidados estavam fazendo. Ela preferia rastejar at seu closet, e 
ficar ali quieta, encolhida em posio fetal com Pigtunia, sua porquinha de pelcia, esperando que tudo passasse, como ela fazia em fortes tempestades.
        A porta da biblioteca se abriu e uma figura conhecida saiu de l. Mike estava usando um terno cinza-escuro, uma camisa listrada preta e roxa para fora da 
cala e sapatos brilhantes de bico quadrado. Uma menina miudinha, de pele clara, o seguia. Eles foram direto em direo a Aria e pararam.
        - A est voc - falou Mike. - Eu quero lhe apresentar Savannah.
        - Ah, oi. - Aria estendeu a mo para cumprimentar Savannah, chocada que Mike realmente estivesse deixando que ela conhecesse sua namorada. - Eu sou Aria. 
Irm de Mike.
        - Prazer em conhec-la. - O sorriso de Savannah era enorme e doce. Seus cabelos longos, encaracolados, cor de chocolate caam pelas costas, e sua bochechas 
eram cor-de-rosa e pareciam boas de apertar. Um lindo vestido de seda preto abraava suas curvas, mas sem cortar a circulao, e a bolsinha de mo que carregava 
no tinha logotipos de marcas famosas estampados em todos os cantos.
        Ela parecia... normal. Aria no poderia estar mais impressionada se Mike tivesse aparecido com uma foca do Zoolgico da Filadlfia como namorada. Ou, j 
que o caso  Mike, um cavalo islands.
        Savannah tocou o ombro de Mike.
        -Vou pegar uns aperitivos para ns, est bem? O camaro est incrvel.
        -  Claro - disse Mike, sorrindo para ela como um verdadeiro ser humano.
        Quando Savannah saiu, Aria deu um pequeno assobio, cruzando os braos sobre o peito.
        - Olha s voc, Mikey! - cantarolou ela. - Ela parece ser muito legal!
        Mike deu se ombros.
        - Eu s estou com ela at que minha querida stripper da Turbulence volte para a cidade. - Ele deu uma risadinha safada, mas Aria percebeu que no era assim 
que ele se sentia. Seus olhos ainda estavam em Savannah enquanto ela escolhia algumas bruschettas de uma bandeja de um garom que passava. Ento Mike percebeu algum 
do outro lado da sala. Ele cutucou Aria.
        - Ei, Xavier est aqui!
        Algo borbulhou no estmago de Aria. Ela ficou na ponta dos ps para olhar pela multido. Obviamente, Xavier estava na fila do bar, usando um terno preto 
muito alinhado.
        - Ella est trabalhando esta noite - murmurou ela, suspeita. - O que ele est fazendo aqui?
        Mike zombou.
        - Ele est aqui porque a festa  para arrecadar fundos para nossa escola, talvez? Porque ele realmente gosta da mame e quer nos apoiar? Porque eu contei 
a ele e ele pareceu bem interessado em vir? - Ele colocou as mos nos quadris e olhou para Aria por trs longos segundos. - Qual  a sua? Por que voc odeia este 
cara?
        Aria engoliu em seco.
        - Eu no o odeio.
        - Ento v falar com ele - insistiu Mike por entre os dentes. -V se desculpar pelo que quer que voc tenha feito. - Ele a empurrou de leve pelas costas. 
Ela olhou para ele, irritada. Por que Mike achava que ela havia feito alguma coisa? Mas j era tarde demais. Xavier os viu. Deixou o bar e veio at eles. Aria enfiou 
as unhas nas palmas das mos.
        -Vou deix-los sozinhos para que possam se beijar e fazer as pazes - falou Mike, escapulindo para onde Savannah estava.
        Aria se sentiu presa e desconfortvel com a escolha de palavras de Mike. Ela observou enquanto Xavier chegava cada vez mais perto. Seus olhos castanhos pareciam 
quase pretos contra o terno cinza-escuro que usava. Ele parecia envergonhado, seu olhar estava esquisito.
        - Oi - disse Xavier a ela, mexendo em suas abotoaduras de prolas. -Voc est muito bonita.
        - Obrigada - respondeu Aria, pegando um fio invisvel na ala de seu vestido. De repente, ela se sentiu to formal e ridcula com seu cabelo negro-azulado 
arrumado em uma trana francesa e a estola de pelo angor falso da me em volta dos ombros. Ela se afastou de Xavier, no querendo mostrar as costas nuas.
        De repente, ela percebeu que no conseguia ficar parada ali, sendo toda educada com ele. No naquele momento.
        - Eu tenho que... - murmurou ela, para depois se virar e correr escada acima. O quarto de Spencer ficava na primeira porta  esquerda. A porta estava aberta 
e, ainda bem, no havia ningum l dentro.
        Aria entrou cambaleando, respirando fundo. Fazia pelo menos trs anos desde a ltima vez em que estivera no quarto de Spencer, mas nada parecia ter mudado. 
O quarto cheirava a flores recm-cortadas, arrumadas em vasos por todos os cantos. A antiga penteadeira de mogno ainda estava encostada na parede, e as quatro cadeiras 
enormes - que se dobravam para virar duas camas iguais, perfeitas para quando todas elas dormiam l - formavam um pequeno crculo ntimo em volta da mesinha de teca 
que ficava no centro. Cortinas de um vermelho dramtico emolduravam a enorme sacada que oferecia uma vista completa do antigo quarto de Ali. Spencer costumava se 
gabar de como ela e Ali se comunicavam secretamente com lanternas  noite.
        Aria continuou a olhar em volta. Os mesmos porta-retratos de bom gosto com fotografias e pinturas estavam pendurados nas paredes do quarto de Spencer, e 
a mesma foto delas cinco ainda estava encaixada no canto entre o espelho a penteadeira. Aria foi at a foto, o peito cheio de saudade. O retrato mostrava Ali, Aria, 
Spencer, Emily e Hanna sentadas no iate do tio de Ali em Newport, Rhode Island. Todas elas usavam biqunis brancos iguais da J. Crew e chapus de palha de aba larga. 
O sorriso de Ali parecia confiante e relaxado, enquanto Spencer, Hanna e Emily pareciam euforicamente delirantes. Esse encontro acontecera apenas algumas semanas 
depois de elas terem ficado amigas - a sensao de fazer parte da panelinha exclusiva de Ali ainda no havia passado.
        Aria, por outro lado, parecia apavorada, como se tivesse certeza de que seria empurrada na Baa de Newport a qualquer momento. Na verdade, Aria estava preocupada 
naquele dia. Ela ainda tinha certeza de que Ali sabia a verdade sobre o que tinha acontecido com o seu pedao da Bandeira da Cpsula do Tempo que havia sido roubado.
        Mas Ali nunca confrontou Aria a respeito. E Aria nunca admitiu o que tinha feito. Era bvio o que iria acontecer se Aria contasse a verdade para Ali - Ali 
iria fazer uma careta confusa que depois, lentamente, viraria uma careta de raiva. Ela abandonaria Aria para sempre, logo quando Aria estava se acostumando a ter 
amigas.
        Assim que outubro virou novembro, o segredo de Aria foi esquecido. A Cpsula do Tempo era um jogo bobo, nada mais.
        Xavier tossiu no corredor.
        - Oi - disse ele, enfiando a cabea no quarto. - Podemos conversar?
        Aria encolheu a barriga.
        -Ah... tudo bem.
        Xavier andou lentamente at a cama de Spencer e se sentou. Aria se acomodou na cadeira forrada de cashmere na penteadeira de Spencer, olhando para o colo. 
Alguns longos, estranhos segundos se passaram. Os rudos da festa vinham l de baixo, as vozes de todos misturadas. Uma taa caiu no cho de madeira. Um cachorrinho 
latiu furiosamente. No final, Xavier deu suspiro gutural e olhou para cima.
        -Voc est me matando, Aria.
        Aria ergueu a cabea, confusa.
        - Como assim?
        - Um cara no pode ficar recebendo tantos sinais contraditrios.
        -  Sinais... contraditrios? - repetiu Aria. Talvez fosse um jeito artstico esquisito de quebrar o gelo. Ela esperou pela piada.
        Xavier se levantou e lentamente caminhou pelo quarto at ficar perto dela. Ele segurou a beirada da cadeira da penteadeira, e seu hlito amargo alcanou 
o pescoo de Aria. O cheiro era de algum que tinha bebido bastante. De repente, Aria se perguntou se, na realidade, isto no tinha nada a ver com quebrar o gelo. 
Sua cabea comeou a doer.
        - Voc flerta comigo na minha estreia, e de repente fica toda esquisita quando eu desenho voc no restaurante - explicou Xavier com uma voz rouca. -Voc 
anda por todo lado no caf da manh com uma camiseta e um short transparentes, voc faz confisses, voc comea uma briga de travesseiros... Mas quando eu a beijo, 
voc fica toda nervosinha. E agora, voc corre para o quarto. Tenho certeza que voc sabia que eu iria segui-la.
        Aria calou-se e se inclinou sobre a escrivaninha de Spencer. A velha madeira rangeu com seu peso. Ele estava sugerindo o que ela achava que ele estava sugerindo?
        - Eu no queria que voc me seguisse! - gritou ela. - E eu no andei mandando nenhum sinal!
        Xavier ergueu as sobrancelhas.
        - Eu no acredito nisso.
        -  verdade! - choramingou Aria. - Eu no queria que voc me beijasse. Voc est saindo com minha me. Eu achei que voc tinha vindo aqui para se desculpar!
        De repente o quarto estava to quieto que Aria podia ouvir o barulho do relgio dele. Havia algo em Xavier que parecia to maior esta noite, bruto e poderoso. 
Xavier suspirou, seus olhos eram intensos.
        - No tente virar as coisas e agir como se fosse minha culpa. E de qualquer forma, se voc estava mesmo chateada com o beijo, por que no contou a ningum 
o que aconteceu? Por que sua me ainda est atendendo minhas ligaes? Por que seu irmo ainda me convida para jogar Wii com ele e a nova namorada?
        - Eu... eu no queria causar problemas. No queria que ningum ficasse chateado comigo.
        Xavier tocou o brao dela, seu rosto vindo para perto.
        - Ou talvez voc no quisesse que sua me me desse o fora agora. - Ele se debruou para ainda mais perto, os lbios dele comeando a fazer bico. Aria levantou 
e saiu correndo pelo quarto at alcanar o closet parcialmente aberto de Spencer, quase tropeando em seu vestido longo.
        - S... fique longe de mim - disse ela com o tom mais forte que conseguiu. - E fique longe de minha me tambm.
        Xavier estalou a lngua.
        - Est bem. Se  assim que voc vai se comportar, tudo bem. Mas saiba de uma coisa: eu no vou a lugar algum. E se voc sabe o que  melhor para voc, no 
dir nada sobre o que aconteceu para a sua me. - Ele se afastou, estalando os dedos. -Voc sabe com qual facilidade as coisas podem ser distorcidas, e voc  to 
culpada quanto eu.
        Aria piscou sem acreditar.
        Xavier continuou sorrindo, como se isso fosse engraado.
        O quarto rodava, deixando-a tonta, mas Aria tentou se acalmar.
        -  Certo - ela estourou. - Se voc no vai embora, ento saio eu.
        Xavier no pareceu impressionado.
        - E para onde voc iria?
        Aria mordeu o lbio, virando para o outro lado. Era,  claro, uma questo pertinente - aonde ela poderia ir? Mas havia apenas um lugar. Ela fechou os olhos 
e imaginou a barriga inchada de Meredith.
        A parte inferior de suas costas comeou a doer, pressentindo a cama apertada do estdio/quarto de hspedes de Meredith.
        Seria doloroso testemunhar Meredith comeando a arrumar o quarto do beb, e ver Byron bancar o pai coruja de novo. Mas Xavier havia deixado as coisas bem 
claras. Tudo o que acontecera entre eles poderia ser distorcido, e ele parecia mais do que feliz em distorcer a situao, se fosse necessrio. Aria faria qualquer 
coisa para no destruir sua famlia de novo.
29
TODA A PATTICA VERDADE
Spencer tinha uma vantagem sobre qualquer um que quisesse sair da festa beneficente sem que Wilden percebesse - aquela era sua casa, e ela conhecia todas as sadas 
secretas. Provavelmente, Wilden nem sabia que havia uma porta no fundo da garagem que dava para o quintal. Ela parou s para pegar uma pequena lanterna perto do 
material de jardinagem de sua me, colocar uma capa de chuva verde que estava pendurada na parede, e calar um par de botas de montaria, que estavam jogadas de qualquer 
jeito no cho da garagem perto do antigo Jaguar XKE de seu pai. As botas no eram forradas, mas seriam bem mais eficientes para manter seus ps aquecidos do que 
suas sandlias de salto alto de tiras Miu Miu.
        O cu estava preto arroxeado. Spencer correu pelo quintal, tocando os arbustos de mirtilo que separavam sua propriedade da antiga casa de Ali. O pequeno 
feixe de luz da lanterna danava sobre o terreno desnivelado. Por sorte, a maior parte da neve havia derretido, o que tornaria mais fcil encontrar o lugar onde 
ela e as amigas haviam enterrado o saco de lixo.
        Na metade do caminho, Spencer ouviu um galho se quebrar e ficou paralisada. Ela se virou lentamente.
        - Ol? - sussurrou ela.
        No havia luz do luar naquela noite, e o cu estava estranhamente claro, cheio de estrelas. Barulhos abafados da festa alcanavam o gramado. Em algum lugar 
bem longe, a porta de um carro bateu.
        Spencer mordeu o lbio com fora e continuou. Suas botas afundavam na neve derretida misturada com lama. O celeiro estava logo em frente. Melissa havia acendido 
a luz da varanda, mas o restante do celeiro estava escuro. Spencer andou at a beirada da varanda e ficou bem parada. Ela estava ofegante, como se houvesse corrido 
nove quilmetros com seu antigo time de hquei. Dali do fundo, sua casa parecia to pequena e distante. As janelas brilhavam em amarelo, e ela podia ver os formatos 
vagos de pessoas l dentro. Andrew estava l, assim como suas antigas amigas. Wilden tambm. Talvez ela devesse ter confiado aquela tarefa a ele. Mas era tarde demais 
agora.
        Uma leve brisa atingiu seu pescoo e desceu por suas costas nuas. O buraco que elas haviam cavado para enterrar o saco de lixo era fcil de achar, alguns 
passos para a esquerda do celeiro, perto do caminho sinuoso de granito. Spencer estremeceu, tomada por um pressgio, um dj-vu. Quando dormiram juntas no stimo 
ano tinha sido uma noite sem luar, muito parecida com esta. Depois da briga, Spencer seguira Ali at l fora, exigindo que ela voltasse para dentro. E, ento, elas 
haviam tido aquela discusso idiota a respeito de Ian. Spencer havia reprimido esta lembrana por muito tempo, mas agora que ela havia voltado, tinha certeza de 
que nunca esqueceria o rosto retorcido de Ali enquanto vivesse. Ali rira de Spencer, ridicularizando-a por ter levado o beijo de Ian a srio.
        Spencer ficara extremamente magoada e empurrada Ali com fora. Ali voara, sua cabea fizera um barulho horrvel quando bateu nas pedras. Era incrvel que 
os policiais nunca houvessem encontrado a pedra em que Ali batera - deveria haver traos de sangue nela, ou pelo menos fios de cabelo. Na verdade, os policiais mal 
investigaram qualquer coisa ali atrs alm do interior do celeiro naquelas semanas cruciais depois que Ali desapareceu. Eles estavam bem convencidos de que Ali havia 
fugido. Teria sido apenas um descuido? Ou havia uma razo para que eles no quisessem averiguar com mais cuidado?
        Tem uma coisa que voc no sabe, Ian havia dito. Os policiais sabem, mas esto ignorando.
        Spencer rangeu os dentes, analisando as palavras em sua cabea inmeras vezes. Ian era louco. No havia um segredo que o mundo estava escondendo. Apenas 
a verdade: Ian havia matado Ali porque ela pretendia revelar que eles estavam juntos.
        Spencer suspendeu o vestido, se ajoelhou e enfiou as mos na terra macia e recm-cavada. Finalmente, suas mos tocaram a beira do saco de lixo plstico. 
gua da neve derretida pingava pelos lados enquanto ela o puxava para fora. Ela colocou o saco em um lugar onde a terra estava seca e desfez os ns.Tudo ainda estava 
seco por dentro. A primeira coisa que ela pegou foi a pulseira que Ali havia feito para elas depois da Coisa com Jenna. Depois a bolsinha acolchoada cor-de-rosa 
de Emily; Spencer forou para abri-la, apalpando o interior. O couro envernizado falso rangeu. Estava vazia. 
        Spencer achou o pedao de papel que Hanna jogara ali dentro e o iluminou com a lanterna o melhor que pde. No era um bilhete de Ali, como pensara em princpio, 
mas uma avaliao estudantil que Ali havia preenchido, sobre o relatrio oral de Hanna sobre Tom Sawyer. Todos os alunos de ingls do sexto ano de Rosewood Day tiveram 
que avaliar os relatrios de seus colegas, em um tipo de experimento escolar.
        A avaliao de Ali sobre o relatrio de Hanna era tranquila - nada muito legal, nada muito malvolo. Parecia que tinha feito correndo, ocupada com outra 
coisa. Spencer o colocou de lado. Ela pegou a ltima coisa no fundo do saco, o desenho de Aria. Mesmo naquela poca, Aria j desenhava pessoas incrivelmente bem. 
L estava Ali, parada em frente a Rosewood Day, um sorrisinho no rosto, como se ela estivesse se divertindo  custa de algum.
        Spencer o deixou cair em seu colo, desapontada. No parecia haver nada fora do comum nele tambm. Ela realmente esperava encontrar uma resposta miraculosa? 
Ela era to idiota assim?
        Mas ela passou a lanterna sobre o desenho mais uma vez. Ali estava segurando alguma coisa nas mos. Parecia... um pedao de papel. Spencer pressionou a lanterna 
contra o papel. Aria havia esboado a manchete. A Cpsula do Tempo Comea Amanh.
        Este desenho e a foto em frente  Torre Eiffel eram ambos do mesmo dia. Assim como a foto, Aria havia capturado o momento preciso no qual Ali pegara o folheto 
anunciando que ela acharia um pedao da bandeira da Cpsula do Tempo. Aria havia desenhado algum atrs de Ali tambm. Spencer pressionou a lanterna contra o papel. 
Ian.
        Uma rajada de vento gelado bateu de frente no rosto de Spencer. Seus olhos lacrimejaram com o frio, mas ela lutava para mant-los abertos. O esboo de Ian 
feito por Aria no era diablico ou conivente como Spencer pensara que seria. Em vez disto,Aria o fez parecer meio... pattico. Ele estava olhando para Ali, seus 
olhos arregalados, um sorriso zonzo no rosto. Ali, por outro lado, estava virada para o lado oposto ao dele. Sua expresso era arrogante, como se ela estivesse pensando, 
Eu no sou demais? At os homens lindos e ricos esto aos meus ps.
        O papel fez barulho nas mos de Spencer. Aria desenhara aquilo no momento em que acontecia. Ela certamente no sabia nada sobre Ali ou Ian naquela poca, 
ela desenhou meramente o que via - Ian parecendo bobo de amor e vulnervel. E Ali parecendo... Ali. Parecendo uma vadia.
        Ali e eu flertvamos muito, mas era s isso. Ela nunca pareceu interessada em levar isso adiante, Ian havia dito. Mas ento... de repente ... ela mudou de 
ideia.
        As rvores em volta da piscina faziam sombras escuras que lembravam aranhas. As pecinhas de madeira que pendiam do beiral do celeiro estavam batendo umas 
nas outras, soando como ossos chacoalhando. Um arrepio correu da base do pescoo de Spencer at seu cccix. Seria verdade? Teriam Ian e Ali flertado inocentemente, 
apenas se divertindo um pouco? O que, ento, fez Ali mudar de ideia e decidir gostar dele?
        Mas isso era to difcil de aceitar. Se Ian estava falando a verdade sobre Ali, ento todo o resto que ele havia contado a Spencer dois dias atrs em sua 
varanda podia ser verdade tambm. Que havia um segredo que ele estava prestes a descobrir. Que havia algo mais em tudo aquilo que eles no entendiam. E se Ian no 
a havia matado - outra pessoa o fizera.
        Spencer apertou a mo contra o peito, com medo de seu corao estar prestes a parar. Que mensagens?, perguntara Ian. Mas se Ian no estava mandando as mensagens 
de A... quem estava?
        A neve derretida escorreu direto por dentro das botas de montaria de Spencer at seus dedos dos ps. Spencer olhou para o caminho de granito no fundo de 
seu quintal, o mesmo lugar onde ela e Ali haviam brigado. Depois que Spencer empurrara Ali no cho, sua memria falhara. S muito recentemente ela lembrara que Ali 
havia se levantado e continuado seguindo pelo caminho. O que Spencer viu em seguida piscou em frente  sua mente, se esvaindo e incomodando. As pernas finas de Ali, 
seu longo cabelo cado nas costas, as solas de seus chinelos de borracha gastas na parte de dentro. Havia outra pessoa com ela tambm, e eles estavam discutindo. 
Alguns meses atrs, Spencer tinha certeza de que esta pessoa era Ian. Mas agora quando ela tentava acessar sua memria, no conseguia ver o rosto da pessoa. Ser 
que ela ficara com Ian na cabea por causa da informao que Mona lhe dera? Porque ela s queria que fosse algum, assim tudo estaria encerrado?
        As estrelas piscavam em paz. Uma coruja piava em um dos grandes carvalhos atrs do celeiro. O nariz de Spencer coou, e ela pensou que sentia o cheiro de 
fumaa de cigarro saindo de algum lugar em volta. E ento seu Sidekick comeou a tocar.
        Ele ecoou alto pelo quintal enorme e vazio. Spencer enfiou a mo na bolsa, apertando a tecla mudo. Ela se sentiu zonza ao peg-lo. A tela anunciava que ela 
recebera um novo e-mail de algum chamado Ian_T.
        Seu corao pareceu afundar no peito.
        Spencer. Encontre-me no bosque, onde ela morreu. Tenho 
        algo para mostrar a voc.
        Spencer sugou o ar entredentes. No bosque onde ela morreu. Era exatamente do outro lado do celeiro. Ela enfiou o desenho na bolsa e hesitou por um momento. 
Em seguida, respirou fundo e comeou a correr.
30
FRAGILIDADE, SEU NOME  MULHER!
Hanna estava terminando sua terceira volta atenta pela casa dos Hastings  procura de Lucas. Ela havia passado duas vezes pela banda de jazz, pelos bbados no bar 
e pelas esnobes moradoras de Main Liner que falavam de modo sugestivo sobre as inestimveis obras de arte que forravam as paredes. Ela viu Melissa Hastings indo 
de fininho l para cima, falando no celular. Quando ela entrou no escritrio do pai de Spencer, interrompeu o que parecia uma discusso entre o sr. Hastings e o 
diretor Appleton. Mas nem sinal de Lucas.
        Finalmente, ela foi at a cozinha, que estava inteiramente coberta de vapor e cheirava a camaro, pato e glac. Os funcionrios do buf estavam ocupados 
desembrulhando aperitivos e minisobremesas em bandejas forradas com papel alumnio. Hanna meio que esperava ver Lucas ajudando os outros, se sentindo mal por eles 
estarem to cheios de trabalho - o que seria bem a cara dele. Mas ele no estava l, tampouco.
        Ela tentou o telefone de Lucas de novo, mas foi direto para a caixa postal.
        - Sou eu - disse Hanna rapidinho depois do bipe. - Existe uma boa razo para eu ter feito o que fiz. Por favor, me deixe explicar.
        Quando ela apertou a tecla desligar, a tela do celular escureceu. Por que ela no tinha contado de uma vez para Lucas sobre as mensagens de A quando teve 
a chance? Mas ela sabia por qu: ela no tinha certeza que eram verdadeiras. Quando Hanna comeou a achar que eram reais, ficara preocupada que, se dissesse algo 
para algum, alguma coisa horrvel pudesse acontecer.
        E, assim, ficou de boca fechada. Mas agora parecia que coisas horrveis estavam acontecendo de qualquer jeito.
        Hanna foi at a porta que dava na sala de televiso e enfiou a cabea l dentro, mas a sala estava desapontadoramente vazia. A manta afeg que normalmente 
ficava bem-arrumada em cima do sof estava jogada entre as almofadas, e havia algumas taas de coquetel vazias e guardanapos amassados na mesa de centro. Alm disso, 
aquela grande e esquisita esttua da Torre Eiffel balanava no aparador, to alta que quase tocava o teto. A antiga foto de Ali no sexto ano ainda estava apoiada 
nela.
        Hanna a observou com cautela. Ali tinha o folheto da Cpsula do Tempo na mo, sua boca aberta em um meio sorriso. Noel aparecia ao fundo, bem fora de foco. 
Hanna debruou, seu estmago pesando como se estivesse cheio de chumbo. Era Mona. Ela estava encostada no guido de sua Razor scooter cor-de-rosa, seus olhos nas 
costas de Ali. Era como ver um fantasma.
        Hanna se acomodou melhor no sof, olhando com toda ateno para a forma borrada de Mona. Por que voc fez isso comigo? Ela queria gritar. Hanna nunca conseguira 
fazer aquela pergunta a Mona - quando ela percebeu que Mona era A, Mona e Spencer j estavam a caminho da pedreira. Havia tantas coisas que Hanna queria perguntar 
para Mona, coisas que ficariam sem resposta para sempre. Como voc pde me odiar secretamente todo este tempo? Alguma das coisas que fizemos juntas foi verdadeira? 
Ns fomos realmente amigas em algum momento? Como eu pude estar to enganada a seu respeito?
        Seus olhos estavam focados novamente na boca larga e aberta de Ali. Quando Hanna e Mona ficaram amigas no oitavo ano, Hanna tinha zombado de Ali e das outras 
para mostrar a Mona que elas no eram tudo isso. Ela contara a Mona a histria sobre como ela aparecera no quintal de Ali no sbado aps a Cpsula do Tempo ter sido 
anunciada, determinada a roubar o pedao da bandeira de Ali.
        - E Spencer, Emily e Aria estavam l tambm. - Hanna se lembrou de ter contado isso, rolando os olhos. - Foi to esquisito. E ainda mais esquisito foi Ali 
ter vindo feito um furaco da porta dos fundos, pelo quintal todo at onde estvamos. Vocs esto atrasadas - imitou Hanna a voz esganiada de Ali, ignorando a ponta 
de embarao dentro de si. - E depois ela disse que algum idiota roubara o pedao dela da bandeira, mesmo j estando decorado e tudo mais.
        - Quem pegou? - perguntou Mona, prestando ateno em cada palavra. Hanna deu de ombros.
        - Provavelmente algum doido que construiu um altar para Ali no quarto. Eu aposto que  por isso que ele nunca devolveu o pedao para ser enterrado com a 
Cpsula do Tempo.  at possvel que ele ainda durma com o pedao da bandeira toda noite. E talvez ande com ele enfiado na cueca durante o dia.
        - Ecaaaaa! - gemeu Mona, se contorcendo.
        Essa conversa com Mona aconteceu no comeo do oitavo ano, bem na poca do jogo da Cpsula do Tempo. Trs dias depois, Hanna e Mona encontraram juntas um 
pedao da bandeira da Cpsula do Tempo enfiado no volume W da enciclopdia na biblioteca de Rosewood Day. Era como achar um bilhete dourado da Fbrica de Chocolate 
Wonka - um pressgio certeiro de que suas vidas iriam mudar. Elas iriam decorar o pedao juntas, colocando Mona e Hanna Para Sempre escrito em letras grandes, negritado 
por todo o tecido. Seus nomes estavam enterrados agora, uma metfora de sua farsa de serem melhores amigas.
        Hanna murchou no sof, lgrimas chegando aos olhos. Se ela ao menos pudesse correr para os campos de treino atrs de Rosewood Day, desenterrar a cpsula 
daquele ano e queimar o pedao dela e de Mona... Se ao menos pudesse queimar cada lembrana que elas criaram como amigas tambm.
        As luzes embutidas acima da cabea de Hanna eram refletidas pela foto, que Hanna estudava mais uma vez, franzindo a testa. Os olhos de Ali pareciam estar 
amendoados e suas bochechas estavam inchadas de um modo horrvel. De repente, a menina naquela foto parecia uma imitao barata de Ali, uma Ali virada alguns graus 
para esquerda. Mas quando Hanna piscou, era Ali outra vez que a estava encarando de volta. Hanna passou as mos sobre o rosto, com a sensao de que havia vermes 
rastejando sobre sua pele.
        - A est voc.
        Hanna gritou e se virou. Seu pai entrou pela porta. Ele no estava usando um terno como o restante dos convidados, mas calas cqui e um suter de gola em 
V azul-marinho.
        -Ah! - ela engasgou. - Eu... eu no sabia que voc viria.
        - Eu no pretendia - disse ele. - Eu s dei uma passadinha.
        Havia uma figura na sombra atrs dele. Ela usava um vestido branco tomara que caia, uma pulseira novinha de cristal Swarovski, e sapatos Prada de cetim com 
os dedos de fora. Quando ela veio para a parte iluminada, o corao de Hanna afundou. Kate.
        Hanna mordeu com fora a parte de dentro de sua bochecha. Claro que Kate iria correr para o padrasto e contar tudo a ele. Ela deveria ter previsto isso. 
Os olhos do sr. Marin estavam em chamas.
        -Voc disse ou no disse aos seus amigos que Kate tem... herpes? - Ele murmurou a ltima palavra.
        Hanna se encolheu.
        -Eu disse, mas...
        - O que  que h de errado com voc? - o sr. Marin exigiu saber.
        - Ela estava prestes a fazer a mesma coisa comigo! - protestou Hanna.
        - No, eu no estava! - esganiou Kate com emoo. Um pouquinho do seu sotaque francs havia aparecido, e alguns fios de cabelo caram pelos seus ombros.
        Hanna ficou boquiaberta.
        - Eu ouvi voc falando no telefone na sexta-feira! "Est quase na hora. Vai funcionar. Mal posso esperar." E depois voc... gargalhou! Eu sei o que voc 
quis dizer, ento no finja que voc  toda perfeita e inocente.
        Um rudo de decepo saiu da garganta de Kate.
        - Eu no sei do que ela est falando, Tom. 
        Hanna se levantou e encarou seu pai.
        - Ela quer me destruir. Assim como Mona o fez. Elas estavam tramando juntas.
        -Voc est louca? Do que voc est falando? - Kate levantou as mos em desespero.
        O sr. Marin ergueu uma de suas grossas sobrancelhas. Hanna cruzou os braos sobre o peito, olhando mais uma vez para a foto de Ali, rindo sarcstica e rolando 
os olhos. Hanna queria poder vir-la de ponta cabea - ou melhor ainda, pic-la em muitos pedaos.
        Kate gritou alto:
        - Espere um minuto, Hanna. Quando voc me ouviu ontem, foi no meu quarto? Havia longas pausas entras as coisas que eu dizia?
        Hanna fungou.
        -  Uh, sim.  assim que funciona quando voc est no telefone.
        - Eu no estava no telefone - disse Kate, muito tranquila. - Eu estava ensaiando as falas da pea de teatro da escola. Eu consegui um papel, e se voc tivesse 
falado comigo, eu teria contado isto a voc! - Ela sacudiu a cabea impressionada. - Eu estava esperando voc chegar em casa para que pudssemos sair juntas. Por 
que eu estaria tramando contra voc? Eu achei que fssemos amigas!
        L no salo, a banda de jazz havia parado de tocar, e todos aplaudiam. Um cheiro forte de queijo gorgonzola veio da cozinha, fazendo o estmago de Hanna 
revirar. Kate estava ensaiando as falas?
        Os olhos do sr. Marin ficaram mais escuros e profundos do que Hanna jamais havia visto.
        - Bem, deixe-me entender isso tudo direito, Hanna.Voc destruiu a reputao de Kate por causa de uma coisa que voc ouviu pela porta. Voc nem se incomodou 
de perguntar a Kate o que ela queria dizer ou o que ela estava fazendo, voc apenas seguiu em frente e contou a todos uma mentira descarada sobre ela.
        -  Eu-eu achei... - gaguejou Hanna, mas no continuou. Foi isso que ela fez?
        -Voc foi longe demais desta vez. - O sr. Marin balanou a cabea com tristeza. - Tentei ser complacente com voc, especialmente depois de tudo que aconteceu 
no outono. Tentei dar a voc o beneficio da dvida. Mas voc no vai se safar desta, Hanna. No sei como foi morar com a sua me, mas eu no vou permitir este tipo 
de coisa em minha casa. Voc est de castigo.
        Do ngulo em que estava, Hanna podia ver cada nova ruga perto dos olhos do pai e todos os novos fios brancos em seu cabelo. Antes de o pai se mudar, ele 
nunca a tinha castigado. Sempre que ela fazia alguma coisa errada, ele simplesmente conversava com ela sobre aquilo at que ela tivesse entendido que o que fizera 
era errado. Mas parecia que aqueles dias haviam acabado.
        Um enorme bolo se formou na garganta de Hanna. Ela queria perguntar ao seu pai se ele se lembrava de todas as suas conversas. Ou do quanto eles dois se divertiam 
juntos. E falando nisso, Hanna queria perguntar a ele por que ele a tinha chamado de porquinha em Annapolis h tantos anos. No era nem um pouco engraado - seu 
pai deveria saber disto. Mas talvez ele no se importasse. Desde que divertisse Kate, ele estava feliz. Ele havia ficado do lado de Kate desde que ela e Isabel entraram 
na vida dele.
        - De agora em diante, voc vai ficar com Kate e somente Kate - disse o sr. Marin, arrumando o suter. Ele comeou a listar coisas nos dedos: - Sem meninos. 
Sem amigos em casa. Sem Lucas.
        Hanna ficou embasbacada.
        -   O qu?
        O sr. Marin deu aquele olhar de no fale at que eu termine.
        - Sem sentar com outras pessoas durante o almoo - continuou ele. - Nada de bater papo com outras meninas antes ou depois da aula. Se voc quiser ir ao shopping, 
Kate tem que ir com voc, se voc quiser ir  academia, Kate tem que ir com voc. Ou eu comeo a tirar mais coisas. Primeiro seu carro. Depois suas bolsas e roupas. 
At que voc entenda que no pode tratar as pessoas deste jeito.
        O cu da boca de Hanna comeou a formigar. Ela estava certa de que desmaiaria a qualquer instante. 
        -Voc no pode fazer isso! - sussurrou ela.
        - Eu posso. - O sr. Marin espremeu os olhos. - E eu vou. E voc sabe como eu vou saber se voc no est cumprindo as regras? - Ele fez uma pausa e olhou 
para Kate, que assentiu com a cabea. Provavelmente eles haviam discutido isto antes. Kate provavelmente havia sugerido isso.
        Hanna segurou o brao do sof, abestalhada. Todos na escola estavam com nojo de Kate - tudo por causa daquilo que Hanna havia contado a eles. Se Hanna fosse 
para a escola toda amiguinha de Kate e apenas Kate, as pessoas iriam... comentar. Eles poderiam inclusive pensar que Hanna tambm tinha herpes! Ela j podia imaginar 
os nomes pelos quais todos as chamariam: As Vadias Valtrex. As Irms Flaconetes.
        -  Seu castigo comea amanh - disse o sr. Marin. -Voc pode usar o resto da noite para contar aos seus amigos que no vai mais sair com eles. Eu espero 
v-la em casa dentro de uma hora. - Sem dizer mais nenhuma palavra, ele se virou e deixou a sala, com Kate em seus calcanhares.
        Hanna tombou para a esquerda com tontura. Nada daquilo fazia o menor sentido. Como ela poderia estar to errada sobre o que tinha ouvido na porta do quarto 
de Kate? As coisas que Kate dissera pareciam to sinistras. To bvias! E a risadinha horrorosa de Kate... Era difcil de acreditar que ela estivesse apenas ensaiando 
para uma produo boba de Hamlet do ensino mdio. Uma luz se acendeu no crebro de Hanna.
        - Espere um minuto - gritou ela.
        Kate se virou abruptamente, quase batendo em um abajur enfeitado da Tiffany que estava na mesa perto da porta. Ela ergueu uma sobrancelha, esperando.
        Hanna lambeu os lbios lentamente.
        - Qual  o seu papel em Hamlet, a propsito?
        - Oflia - fungou Kate com altivez, provavelmente achando que Hanna no sabia quem era Oflia.
        Mas Hanna sabia. Ela lera Hamlet nas frias de inverno, mais para entender as piadas sobre Hamlet-quer-a-mame que os colegas das aulas de ingls avanado 
estavam fazendo. Em nenhum ponto dos seis atos da pea a frgil e pattica Oflia-V-Para-O-Convento dizia coisas nem remotamente parecidas com Est quase na hora, 
mal posso esperar. Muito menos Oflia dava gargalhadas malignas. Kate insistir que estava ensaiando para a pea era uma desculpa esfarrapada, mas seu pai havia acreditado 
em tudo.
        Hanna ficou boquiaberta. Kate olhou para ela com um levantar de ombros de autoafirmao. Se ela percebera que tinha sido pega na mentira, ela no parecia 
se importar. Afinal, Hanna j havia ganhado seu castigo.
        Antes que Hanna pudesse dizer outra palavra, Kate sorriu e saiu pela porta de novo.
        - Oh, e Hanna. - Ela segurou a maaneta, dando uma piscadinha em segredo. - No  herpes. Achei que voc deveria saber.
31
TODO MUNDO  SUSPEITO
A fila para o banheiro do trreo tinha cinco pessoas quando Emily e Isaac saram. Emily abaixou a cabea, mesmo no tendo nada do que se envergonhar - eles s tinham 
se abraado. Uma mulher macrrima passou por eles e entrou no banheiro batendo a porta.
        Ao chegarem ao meio do salo de baile, Isaac passou o brao sobre o ombro de Emily e a beijou no rosto. Uma mulher idosa em terninho Chanel estalou a lngua 
para eles, sorrindo.
        - Que casal bonito - disse ela, com simpatia. 
        Emily teve que concordar.
        O celular de Isaac, que estava enfiado no bolso de seu blazer, comeou a tocar. As mos de Emily imediatamente se fecharam - poderia ser A -, mas ento ela 
se lembrou.
        Isaac conhecia todos os seus segredos. No importava.
        Isaac olhou para a pequena tela acesa no seu telefone.
        -  meu baterista - disse ele. -Volto em um segundo.
        Emily concordou, apertando a mo dele. Ela se encaminhou para o bar para tomar uma Coca-Cola. Algumas meninas com vestidos pretos estavam paradas em uma 
fila em frente a ela. Emily as reconheceu, eram ex-alunas de Rosewood Day.
        -Voc se lembra de como Ian costumava nos observar nos treinos? - dizia uma linda menina asitica com longos brincos. - Todo aquele tempo, achei que ele 
assistia porque Melissa estava jogando, mas talvez fosse por causa de Ali.
        Emily ficou atenta. Ela ficou paradinha, fingindo que no estava escutando.
        - Ele estava na minha aula de cincias - sussurrou a outra menina, uma morena de cabelo bem curto e nariz empinado. - Quando estvamos dissecando o feto 
de porco, ele enfiou a faca nele como se estivesse gostando daquilo.
        - Sim, mas todos os rapazes ficam superviolentos com aqueles porcos - lembrou a outra menina, abrindo sua bolsa de mo prateada e pegando um Trident. - Lembra 
de Darren? Ele puxou os intestinos do bichinho como se fossem espaguete!
        As duas estremeceram. Emily franziu o nariz. Por que de repente as pessoas estavam comentando o quanto Ian era esquisito? Que relembranas eram aquelas? 
E ela no podia acreditar nas coisas que Ian tinha contado para Spencer - que ele gostara de Ali bem mais do que ela gostara dele, que ele jamais a machucaria, jamais. 
Por que ele simplesmente no admitia isso? Afinal de contas, nada indicava mais culpa do que algum acusado de ser criminoso fugindo em seu prprio julgamento.
        -Emily?
        O policial Wilden parou atrs dela, com um olhar preocupado, mas srio. Essa noite ele usava um terno preto justo e gravata, em vez do uniforme da polcia 
de Rosewood, embora Emily achasse que ele tinha uma arma escondida debaixo de seu blazer. Emily estremeceu, sentindo-se desconfortvel. A ltima vez que vira Wilden 
fora no estacionamento na sada da cidade, dizendo a algum no telefone para ficar longe. Ela nem se lembrava de t-lo visto no julgamento de Ian no dia anterior, 
mas ele devia estar l.
        Havia um leve tremor embaixo da plpebra esquerda de Wilden.
        -Voc viu Spencer?
        -  H cerca de meia hora. - Emily rapidamente ajeitou a ala de seu vestido, esperando que no estivesse muito bvio que ela passara os ltimos minutos deitada 
no cho, beijando um menino. Ela olhou para trs, procurando as antigas alunas de Rosewood, mas elas haviam escapulido.
        - Por qu?
        Wilden passou a mo em seu queixo bem barbeado.
        - Eu tenho que fazer uma contagem a cada trinta minutos mais ou menos, para ter certeza de que ningum foi embora. E eu no consigo ach-la em lugar nenhum.
        - Ela provavelmente deve estar l em cima no quarto dela - sugeriu Emily. Nenhuma delas estava com cabea para aproveitar a festa naquela noite.
        - Eu j verifiquei. -Wilden tamborilou os dedos em seu copo d'gua. - Voc tem certeza de que ela no disse nada sobre sair?
        Emily olhou para ele, lembrando de repente do primeiro nome de Wilden. Darren. Aquelas meninas de Rosewood Day acabaram de falar de algum chamado Darren 
que havia removido os intestinos do porco brutalmente. Elas deviam estar falando dele.
        Ela vivia se esquecendo que Wilden no era muito mais velho que ela - ele se formara em Rosewood Day no mesmo ano que a irm de Spencer e Ian. Wilden no 
fora um estudante-modelo como Ian; fora sim, sua anttese, o tipo que era mandado para deteno semana sim, semana no. Era impressionante o que acabara acontecendo: 
Ian o assassino, Wilden o bom policial.
        - Ela sabe que ns no devemos ir l fora - disse Emily sria, voltando ao presente. -Vou l em cima verificar. Tenho certeza de que ela est l em algum 
lugar. - Ela ergueu o vestido e colocou um p no primeiro degrau, tentando acalmar suas mos trmulas.
        - Espere - chamou Wilden.
        Emily se virou. Um lustre ornamentado de cristal estava pendurado acima da cabea de Wilden, fazendo seus olhos parecerem quase esverdeados.
        -Aria e Spencer contaram a voc que receberam mais mensagens?
        O estmago de Emily se revirou.
        - Sim...
        - E voc? - perguntou Wilden. - Recebeu mais alguma? 
        Emily fez que sim, sentindo-se fraca.
        -  Eu recebi duas, mas nenhuma desde que Ian desapareceu.
        O semblante de Wilden deixou transparecer uma ligeira agitao, mas logo se dissipou.
        - Emily, eu no acho que foi Ian. Os caras que estavam de guarda na casa dele revistaram o local. No havia nenhum telefone celular, e todos os computadores 
e mquinas de fax foram retirados da casa antes que ele fosse solto. Realmente no vejo como ele poderia ter mandado qualquer mensagem. Estamos tentando rastrear 
de onde elas esto vindo, mas no descobrimos nada ainda.
        A sala comeou a rodar. As mensagens no eram de Ian? Aquilo no fazia sentido. E de qualquer forma, se Ian havia sado da casa com tanta facilidade para 
visitar Spencer, oras, ele poderia ter achado um modo de enviar mensagens de um telefone secreto. Talvez houvesse deixado um telefone pr-pago em algum lugar, em 
uma rvore ou numa caixa de correio que ningum usasse. Ou talvez algum tivesse deixado para ele.
        Emily encarou Wilden, perguntando-se por que ele no havia considerado isto. E ento a ficha caiu - Spencer no havia contado a ele sobre a visita de Ian.
        - Bem, na verdade,  possvel sim que seja Ian por trs de todas essas mensagens. - Emily olhou fixamente para ele, tremendo.
        O telefone dentro da jaqueta de Wilden comeou a tocar, interrompendo-a.
        - Espere um momento. - Ele fez um sinal para ela. - Eu preciso atender.
        Ele se afastou dela, a mo segurando na borda da mesa. Emily rangeu os dentes, incomodada. Ela olhou em volta da sala e viu Hanna e Aria em frente a uma 
enorme pintura abstrata de vrios crculos que se entrecortavam. Aria estava brincando nervosamente com os dedos na estola que estava em volta de seus ombros, e 
Hanna no parava de passar as mos pelo cabelo, como se tivesse piolhos. Emily caminhou at elas o mais rpido que pde.
        -Vocs viram Spencer?
        Aria chacoalhou a cabea, parecendo distrada. Hanna parecia to ausente quanto ela.
        - No - respondeu ela, de modo montono.
        - Wilden no consegue encontr-la - lamentou Emily. -Ele verificou a casa um monte de vezes, mas ela desapareceu. E Spencer nem contou a ele sobre Ian.
        - Isto  estranho.
        - Spencer tem que estar aqui na casa em algum lugar. Ela no sairia simplesmente. -Aria ficou na ponta dos ps, olhando em volta.
        Emily olhou de volta para Wilden. Ele deu uma pausa no telefonema, tomando um grande gole de seu copo d'gua. Ento ele colocou o copo na mesa e voltou a 
falar no telefone.
        - No - vociferou ele, dando muita nfase ao que dizia. 
        Ela encarou as outras novamente, apertando as palmas suadas das mos.
        - Meninas, vocs... vocs acham que h alguma possibilidade de que este novo A seja outra pessoa? Como... no Ian? - falou ela.
        Hanna ficou dura.
        - No.
        - Tem que ser Ian - disse Aria. - Faz todo o sentido. 
        Emily olhou para as costas endurecidas de Wilden. 
        -Wilden acabou de me contar que eles revistaram a casa de Ian, mas que no acharam celular ou computador ou qualquer outra coisa l. Ele no acha que Ian 
esteja por trs disto.
        - Mas quem mais poderia ser? - esganiou Aria. - Quem mais iria querer fazer isto conosco? Quem mais sabe onde estamos e o que estamos fazendo?
        - Sim, A parece mesmo ser de Rosewood - disse Hanna. 
        Emily mudou a perna de apoio, balanando para l e para c no tapete de plush.
        - Como voc sabe disso?
        Hanna passou a mo pelo seu ombro nu, com um olhar vazio em direo  grande janela panormica da sala dos Hastings.
        - Ento, eu recebi uma ou duas mensagens. Eu no sabia se eram verdadeiras, na poca. Uma delas dizia que A cresceu em Rosewood, como ns.
        Emily arregalou os olhos, seu corao batendo acelerado.
        - As suas mensagens diziam mais alguma coisa?
        Hanna estremeceu, como se Emily estivesse enfiando uma agulha em seu brao.
        -  S este monte de bobagens sobre minha meia-irm. Nada importante.
        Emily brincou com o pingente prateado em formato de peixe que estava em volta de seu pescoo, a testa cheia de gotas de suor. E se A no fosse Ian... nem 
um imitador? Quando Emily descobriu que Mona era o primeiro A, ela fora pega completamente desprevenida. Claro, Ali e as outras haviam sido terrveis com Mona, mas 
elas foram terrveis com um monte de gente. Gente que Emily nem conseguia lembrar. E se outra pessoa - algum prximo - estivesse to brava com elas quanto Mona 
estivera? E se fosse algum nesta mesma sala?
        Ela passou os olhos em volta da grande sala de estar. Naomi Zeigler e Riley Wolfe saram da biblioteca, olhando para elas. Melissa Hastings revirou os olhos, 
os cantos de sua boca para baixo. Scott Chin silenciosamente direcionou sua cmera para Emily, Aria e Hanna. E Phi Templeton, a antiga melhor amiga de Mona, obcecada 
por iois, parou no caminho para a biblioteca para olhar por cima do ombro, encontrando os olhos de Emily com frieza.
        E ento, uma lembrana do pronunciamento de Ian se abateu sobre Emily. Elas estavam saindo do frum, muito felizes depois que Ian fora mandado para a priso 
sem direito a fiana, pois achavam que tudo havia acabado. E foi a que Emily avistara uma figura em uma das limusines estacionadas na frente do frum. Os olhos 
na janela pareciam to familiares... Mas Emily se obrigara a achar que tudo no passava de sua imaginao.
        S de pensar nisto um arrepio percorreu sua coluna. E se ns no tivermos ideia de quem  A? E se nada for o que parece?
        O telefone de Emily comeou a tocar. Depois o de Aria. E ento, o de Hanna.
        - Ai meu Deus. - Hanna respirou fundo.
        Emily sondou a sala, ningum mais olhava na direo delas. E ningum estava segurando um telefone. No havia nada que ela pudesse fazer, a no ser pegar 
seu Nokia. Suas amigas olhavam nervosas.
        - Uma nova mensagem - sussurrou Emily.
        Hanna e Aria ficaram em volta dela. Emily apertou LER.
        Tds vcs contaram, e agora algum tem que pagar o preo. 
        Querem saber onde sua antiga melhor amiga est? Olhem 
        pela janela dos fundos. Pode muito bem ser a ltima vez 
        que a veem... -A
        A sala comeou a girar. Um horrvel cheiro adocicado de perfume floral encheu o ambiente. Emily olhou em volta para suas amigas, sua boca ficando seca.
        -A ltima vez que a vemos... para sempre? - repetiu Hanna, piscando uma vez atrs da outra.
        - No pode... - A cabea de Emily parecia estar cheia de bolas de algodo. - Spencer no pode...
        Elas correram para a cozinha e espiaram pela janela dos fundos, em direo ao celeiro dos Hastings. O quintal estava vazio.
        -  Precisamos de Wilden - exigiu Hanna. Ela correu de volta para onde ela o tinha visto pela ltima vez, mas no havia ningum l. Apenas o copo de gua 
vazio de Wilden, abandonado na mesa de canto superpolida.
        O celular de Emily acendeu de novo. Outra mensagem acabava de chegar. Todas elas se juntaram para olhar.
        Vo agora. Sozinhas. Ou eu vou cumprir minha promes-
        sa. -A
32
FIQUEM CALADAS... E 
NINGUM SAIR FERIDO
Hanna, Aria e Emily saram pela porta dos fundos para o quintal gelado e mido. A varanda estava envolta em uma luz morna e alaranjada, mas assim que Hanna a atravessou, 
no conseguia ver nada  sua frente. A distncia, ela ouviu um barulhinho abafado. Os braos de Hanna se eriaram. Emily deu um gemido.
        -  Por aqui - sussurrou Hanna, apontando na direo do celeiro. Ela e as outras comearam a correr. Com sorte, elas no estariam muito atrasadas.
        O cho estava escorregadio e um pouco mole, e as sandlias de tiras e salto alto de Hanna afundaram na terra. Suas amigas ofegavam ao seu lado.
        - No entendo como isso foi acontecer - sussurrou Emily, sua voz pesada por causa das lgrimas. - Como Spencer deixou Ian, ou quem quer que seja A, atra-la 
para c sozinha? Por que ela seria to burra?
        - Shhh. Quem quer que seja vai nos ouvir - sibilou Aria.
        Levou alguns segundos para que elas cruzassem o enorme quintal at o celeiro. O buraco no qual Ian desovou o corpo de Ali estava  direita delas, a faixa 
refletiva da polcia brilhando na escurido. O bosque estava mais adiante, uma pequena abertura entre duas rvores como um portal ameaador. Hanna estremeceu.
        Aria jogou os ombros para trs e entrou no bosque primeiro, suas mos estendidas para gui-la. Emily foi em seguida, e Hanna ficou por ltimo. Folhas molhadas 
roavam em seus calcanhares. Galhos afiados e pontiagudos passavam pelos braos delas, arrancando sangue no mesmo instante. Emily tropeou no cho desigual, gritando. 
Quando Hanna olhou para cima, no conseguia ver o cu. As folhas formaram uma cobertura acima de suas cabeas, aprisionando-as.
        Elas ouviram outro gemido. Aria parou e levantou a cabea e olhou para a direita.
        - Por ali - sussurrou ela, apontando.
        Seu brao plido brilhava na escurido. Ela puxou a barra do vestido e comeou a correr. Hanna a seguiu, seu corpo pulsando de medo. Galhos continuavam a 
bater contra sua pele nua. Um arbusto gigantesco bateu no lado de seu corpo. Ela no percebeu que tropeara em algo at que seus joelhos bateram com fora contra 
o cho. Sua cabea bateu na terra. Alguma coisa em seu brao direito estalou. Uma dor atordoante tomou conta dela. Ela tentou no gritar, apertando os dentes e gemendo 
de agonia.
        - Hanna! - Aria parou. -Voc est bem?
        - Estou... bem. - Os olhos de Hanna ainda estavam apertados, mas a dor tinha comeado a ceder. Ela tentou mover seu brao. Pareceu bem, s estava duro.
        Elas ouviram um gemido de novo. Parecia mais perto.
        -V procur-la - disse Hanna. - Eu alcano vocs em um segundo.
        Por um momento, nem Aria, nem Emily se moveram. O gemido se transformou em um som mais parecido com um grito.
        -  Rpido! - Hanna apressou as amigas com mais veemncia.
        Hanna rolou para ficar de costas, movendo seus braos e pernas de modo lento. Sua cabea rodava, e o cho cheirava a coc de cachorro. Sua nuca comeou a 
pinicar, adormecida pela neve derretida gelada. Os passos de Aria e Emily ficaram cada vez mais distantes at que ela no mais conseguia ouvi-los, As rvores balanavam 
para l e para c, como se estivessem vivas.
        - Meninas? - chamou Hanna bem fraquinho. Nenhuma resposta. O gemido parecia prximo. Aonde elas haviam ido?
        Um avio passou bem acima, mal dava para ver suas luzinhas piscando. Uma coruja deu um pio grave e zangado. No havia lua no cu. De repente, Hanna se perguntou 
se aquela no era uma ideia muito idiota. Elas estavam l fora, sozinhas no bosque, por causa de uma mensagem que com certeza Ian lhes havia mandado. Elas foram 
atradas l para fora com a mesma facilidade que Spencer fora. Quem poderia afirmar que Ian no estava escondido nas sombras, em algum lugar por perto, pronto para 
atacar e matar todas elas? Por que no esperaram Wilden vir com elas?
        Os arbustos do outro lado da clareira comearam a se agitar. Passos pesados amassavam as folhas. O corao de Hanna disparou.
        - Aria? - Nenhuma resposta.
        Um graveto quebrou. Depois outro. Hanna olhou na direo do barulho. Alguma coisa aparecia por entre os arbustos. Hanna segurou o flego. E se Ian estivesse 
se escondendo bem ali?
        Hanna se ergueu nos cotovelos. Uma figura surgiu por entre os galhos das rvores que se moviam com o vento. Um grito passou pela garganta de Hanna. No era 
Aria, nem Emily... Mas tambm no era Ian. Hanna no conseguia saber se era um homem ou uma mulher, mas quem quer que fosse, parecia magro, talvez um pouco baixo. 
A figura parou no meio da clareira, olhando diretamente para Hanna, como se abismada pela presena dela. Com seu capuz puxado por sobre a cabea e o rosto completamente 
imerso na sombra, a pessoa parecia o Ceifador de Almas.
        Hanna tentou se sentar, mas seu corpo afundou imprestvel na lama. Eu vou morrer, ela pensou. Acabou-se.
        Finalmente, a pessoa levou a mo aos lbios.
        - Shhhh.
        Hanna cravou as unhas no cho frio, parcialmente congelado, batendo os dentes de medo. Mas a figura deu trs grandes passos para longe dela. Da mesma forma 
que aparecera, a figura se virou e sumiu, sem o menor rudo e sem deixar qualquer pegada. Foi como se Hanna tivesse sonhado a coisa toda.
33
ALGUM SABIA DEMAIS
O gemido continuou a se aproximar e se afastar, como se estivesse sendo refletido por um espelho. Aria correu pelo bosque sem olhar aonde ia e sem verificar se tinha 
se afastado demais. Quando ela se virou, percebeu que a casa dos Hastings estava bem longe, apenas um ponto amarelo minsculo no meio dos galhos grossos e emaranhados.
        Quando ela chegou  pequena ravina, ficou paralisada. Muitas das rvores estavam retorcidas e enroscadas, crescendo de maneira errada. Uma rvore bem em 
frente a ela estava divida ao meio, formando um assento entre os dois troncos. Mesmo quando Aria, Ali e as outras eram amigas, elas raramente passavam ali atrs. 
Uma das poucas vezes que Aria estivera naquele lugar, fora quando ela se arriscara na casa de Ali para roubar sua bandeira da Cpsula do Tempo.
        Depois de Ali ter marchado para o fundo de seu quintal e contado a elas quatro que algum j tinha roubado seu pedao da bandeira, as meninas foram embora 
por caminhos diferentes, desapontadas.Aria cortou caminho pelo bosque de volta para sua casa. Quando estava passando por um amontoado de rvores bastante sinistras 
- talvez estas mesmas rvores - ela avistara algum correndo em direo a ela, vindo do outro lado. Suas entranhas se remexeram com a emoo, at que se deu conta 
de que era Jason.
        Jason parou, uma expresso culpada lavando seu rosto. No mesmo momento seu olhar recaiu em algo balanando para fora do bolso da frente. Aria tambm olhou. 
Era um pedao de tecido azul, o mesmo azul-celeste da bandeira de Rosewood Day que existia em todas as salas de aula. Havia desenhos por todo o tecido tambm, e 
palavras com uma caligrafia arredondada conhecida.
        Aria pensou em onde ela acabara de estar, no que Ali acabara de contar a todas elas. Vocs chegaram tarde, disse ela. Algum j roubou meu pedao da bandeira. 
Eu j o havia enfeitado e tudo o mais. Ela apontou para o bolso de Jason, sua mo tremia. 
        - Isto no ...?
        Jason olhou para Aria e para a bandeira, desarmado. E ento, sem uma palavra, ele jogou o pedao nas mos de Aria e desapareceu por entre as rvores, voltando 
na direo da casa dos DiLaurentis.
        Aria correu para casa, com o pedao da bandeira de Ali queimando em seu bolso. Ela no sabia o que Jason queria que ela fizesse com aquilo - devolver? Redecorar 
para si mesma? Isto estaria conectado de alguma forma com a briga que Ian e Jason tiveram no ptio de Rosewood Day alguns dias antes? Pelos dias seguintes, ela esperou 
para ver se ele lhe contaria o que andava pensando e o que ela deveria fazer. Talvez Jason houvesse se dado conta de que eram almas gmeas, e dera isto a Aria especificamente 
porque achava que ela merecia. Mas nenhuma instruo jamais viera. Mesmo quando a administrao de Rosewood Day anunciou pelos alto-falantes que um pedao da bandeira 
da Cpsula do Tempo no havia sido contabilizado e quem quer que estivesse com ele deveria falar. Era algum tipo de teste? Aria deveria saber? Se ela passasse, ela 
e Jason ficariam juntos para sempre?
        Depois que Aria ficou amiga de Ali, sentiu-se envergonhada e culpada demais para explicar todo o fiasco, ento ela escondeu o pedao da bandeira em seu closet 
e nunca mais olhou para ele.
        Se ela abrisse a caixa de sapato no fundo de seu closet na qual se l Relatrios Antigos de Livros, o pedao da bandeira ainda estaria l, totalmente decorado 
e pronto para ser entregue.
        Passos fizeram barulho atrs dela. Aria pulou e se virou, Os olhos de Hanna brilharam na escurido.
        -  So vocs. - Ela respirou pesado. - Eu acabei de ver a coisa mais estranha...
        - Shhh - interrompeu Aria. Uma sombra negra do outro lado da ravina chamou sua ateno. Ela segurou forte no brao de Emily, tentando no gritar. Uma lanterna 
foi ligada, passando pelo cho. Aria colocou sua mo na boca, estremecendo e dando um suspiro de alvio.
        -  Spencer? - chamou ela, dando um passo hesitante na neve derretida.
        Spencer estava usando uma capa de chuva que ia at os joelhos e enormes botas de montaria que envolviam suas magras panturrilhas. Ela direcionou o feixe 
de luz da lanterna para elas, parecendo um animal capturado pelos faris de um caminho. Toda a parte da frente de seu vestido estava coberta de lama e neve derretida, 
assim como seu rosto.
        -  Graas a Deus voc est bem. - Aria deu alguns passos adiante.
        -  O que diabos voc estava fazendo aqui fora? - gritou Emily. -Voc est maluca?
        O queixo de Spencer tremeu. Seus olhos baixaram em direo ao que quer que estava no cho.
        - No faz o menor sentido - disse ela, de modo montono, como se estivesse hipnotizada. - Eu acabei de receber uma mensagem dele.
        - De quem? - sussurrou Aria.
        Spencer apontou sua lanterna para um objeto grande perto dela. Em princpio, Aria pensou que fosse apenas uma rvore cada, ou talvez um animal morto. Mas 
ento, a luz danou sobre algo que parecia... pele. Era uma grande e plida mo humana, fechada como se fosse dar um soco. Havia algo parecido com um anel de classe 
de Rosewood Day em um dos dedos. Aria deu um grande passo para trs, batendo com as mos na boca.
        - Oh, meu Deus.
        Ento Spencer jogou luz no rosto da pessoa. Mesmo na escurido, Aria sabia que a pele de Ian estava fantasmagrica, de um azul ciantico. Um olho estava 
fechado e o outro aberto, como se ele estivesse piscando. Havia uma piscina de sangue seco em sua orelha e em seus lbios, e o cabelo estava cheio de terra. Havia 
grandes verges roxos em volta de seu pescoo, como se algum o tivesse agarrado com fora e apertado. Havia algo nele que parecia bastante frio e duro, como se 
j estivesse desse jeito por algum tempo.
        Aria piscou rpido, sem entender muito bem para o que estava olhando. Ela pensou em como Ian no havia comparecido ao prprio julgamento na vspera. Os policiais 
saram correndo do tribunal, prometendo encontr-lo, Ian poderia ter estado ali o tempo todo. Emily teve nsia de vmito. Hanna deu um enorme passo para trs, gritando. 
Estava to quieto l no bosque, era fcil escutar Spencer engolindo em seco e tremendo. Ela balanou a cabea.
        - Ele estava assim quando eu cheguei - gemeu ela. - Eu Juro.
        Aria tinha medo de ir para mais perto de Ian, e manteve seus olhos fixos em sua mo imvel, quase certa que ele iria dar um pulo e agarr-la. O ar em volta 
dele estava completamente morto e parado. L longe, ela jurava ter ouvido algum gargalhar.
        E ento o telefone de Aria, que estava em sua pequena bolsa de mo em formato de concha, tocou. Ela deu um gritinho de surpresa.
        - Aaai!
        Ento o de Spencer vibrou e o de Emily soou. O telefone celular de Hanna, que estava guardado dentro de sua bolsa de mo, agora lamacenta, tocou tambm.
        As meninas se entreolharam na escurido.
        - No  possvel - sussurrou Spencer.
        -  No pode ser... - Hanna segurou seu telefone com as pontinhas dos dedos, como se estivesse com medo de realmente toc-lo.
        Aria olhou a tela de seu Treo sem acreditar. 1 nova mensagem de texto.
        Ela olhou para Ian, seus membros endurecidos, seu lindo rosto vago e sem vida. Com um tremor, ela olhou para a tela de novo e forou-se a ler a mensagem.
        Ele teve que ir. - A
O QUE ACONTECE DEPOIS...
Sim, Ian est morto. E nosso quarteto favorito provavelmente tambm gostaria de estar. O pai de Hanna a odeia. Spencer est falida. Aria est um caco. E Emily trocou
de time tantas vezes que est me confundindo. Eu me sentiria mal por elas, mas voc sabe,  a vida. Ou a morte, no caso de Ian.
        Eu acho que poderia deixar o passado no passado, perdoar e receber perdo, bl-bl-bl. Mas o que isso tem de divertido? Estas vagabundinhas tm tudo que
eu sempre quis, e agora vou me certificar de que recebam tudo que merecem. Isto soa horrvel? Desculpe, mas como toda mentirosinha maldosa sabe, s vezes a verdade
 feia - e sempre machuca.
        Estarei de olho...
        Beijinhos! - A
AGRADECIMENTOS
Estou muito feliz de escrever outra carta de agradecimentos para essa nova aventura das Pretty Little Liars. Obrigada, como sempre, ao pessoal da Alloy, que me ajudou
a desencavar o assustador e emocionante mundo de Rosewood: Josh Bank e Les Morgenstein, cujas ideias esto alm de qualquer comparao, Sara Shandler, sempre gentil
e incrivelmente inteligente, Kristin Marang, que levou as PLL para os Ias on-line, e Lanie Davis, que alimentou Perversas do comeo ao fim, com ideias e sugestes
comoventes e muito sagazes. Obrigada a todos por ajudar tanto esta srie! Palavras no so suficientes para expressar minha gratido. Obrigada tambm a Jennifer
Rudolph Walsh,William Morris, e ao adorvel grupo da HarperCollins: Farrin Jacobs, Elise Howard e Gretchen Hirsch. Todos vocs do a estes livros um brilho a mais.
Amor aos meus pais, Shep e Mindy,  minha irm, Ali e ao seu gato assassino, Polo, e ao meu marido, Joel, por mais uma vez ler vrios rascunhos deste livro - e me
oferecer algumas fofocas suculentas para costurar as pginas. E por ltimo, mas no menos importante, uma grande saudao para os meus primos Greg Jones, Ryan Jones,
Colleen Lorence, Brian Lorence e Kristin Murdy. Que venham muitas pirmides humanas e mais proezas num futuro bem prximo!
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